15
Mai 11

«Hotel-apartamento»

 

Aprendam com o INE

 

 

 

 

    Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, escreve-se «aparthotel»(!).  Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é «apart-hotel» ou «apartotel». Para o Instituto Nacional de Estatística (INE), é «hotel-apartamento», e dá a definição: «Estabelecimento hoteleiro constituído por um conjunto de pelo menos 10 apartamentos equipados e independentes (alugados dia a dia a turistas), que ocupa a totalidade ou parte independente de um edifício, desde que constituído por pisos completos e contíguos, com acessos próprios e directos aos pisos para uso exclusivo dos seus utentes, com restaurante e com, pelo menos, serviço de arrumação e limpeza.»

 

 

 

[Texto 11]

 

Helder Guégués às 21:43 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Reunir-se com»

Prefiro O Chronista

 

 

 

 

    «Merkel tinha já reunido em Berlim, nos últimos dias, com os presidentes da Comissão Europeia, Durão Barroso, e do Conselho Europeu, Herman van Rompuy» («Luís Ochoa, noticiário das 3 da tarde, Antena 1, 15.05.2011).

    Nesta acepção — fazer uma reunião; agregar-se; juntar-se —, o verbo «reunir» é pronominal: reunir-se. A regra, infelizmente, só vai sendo aplicada por quem não é jornalista.

     Prefiro então ler o semanário O Chronista: «O commércio a pe, e os corpos de milicias reuniram-se parte em seus quarteis n’esta noite, provavelmente para manter a ordem se fôsse perturbada» (O Chronista, n.º XXII. Lisboa: na imprensa do Português, 1827, p. 195).

 

[Texto 10]

Helder Guégués às 21:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «tomate-cereja»

Ainda na cozinha

 

 

 

      Sabe o que é o Lycopersicum pimpinellifolium? Habitualmente, em jornais, revistas e livros de culinária, dá-se-lhe o nome de «tomate cherry». Mais uma infausta vez, foi-se buscar à língua inglesa o que podíamos resolver com a nossa. Dá-se o caso de alguns, talvez influenciados pela sugestiva designação em espanhol, lhe chamarem, em alternativa, tomate-cereja. Nestes casos, bem podiam os dicionários ir à frente, iluminando o caminho.

 

[Texto 9]

Helder Guégués às 12:27 | comentar | favorito
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«Pimenta-branca»?

Andrómaco não sabia

 

 

 

      Será a pimenta-branca, a par da pimenta-preta (e estou a usar a grafia registada no Dicionário Houaiss), uma variedade de pimenta? Não, não é, pelo menos variedade botânica não é, o que, quanto ao uso do hífen, tem toda a relevância. Para Andrómaco, o Velho, médico pessoal do imperador Nero, e para Galeno, eram variedades diferentes. Hoje, contudo, sabe-se que não é assim. A pimenta-branca é o pó do fruto seco da pimenta-do-reino (outra designação da pimenta-preta ou pimenta-negra), moído sem a casca. Assim, em rigor, não se devia usar o hífen na designação deste produto. Só por analogia se compreende que se faça de modo diferente.

      E a propósito: pimenta-do-reino não é designação brasileira? Por ir do reino de Portugal, esta variedade de pimenta (piper nigrum) consumida na colónia tomou o nome de «pimenta do Reino», tal como também se falava de «manteiga do Reino», de «queijo do Reino», etc.

 

 

 

[Texto 8]

Helder Guégués às 11:54 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «indigestível»

Difícil de digerir

 

 

 

      «A fibra», escreve a autora do livro, «outro tipo de hidrato de carbono, é indigestível e passa pelo sistema digestivo quase inalterável.» Nunca eu tinha visto a palavra «indigestível», mas só por acaso. Chega-se a ela facilmente. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa também a ignora. Regista tão-somente, à semelhança do Dicionário Houaiss, «indigerível». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «indigestível» mas remete para «indigerível», o que é sempre entendido (mas em dicionários tão revoltantemente descritivos parece-me contra-senso) como indicando a forma mais correcta. Este dicionário poderá (era preciso ver as várias edições) ter ido buscar o verbete ao Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado, que o terá ido encontrar em Cândido de Figueiredo.

      Vendo bem, «indigerível» até perde em comparação com «indigestível», pois é parónimo de «indirigível». Contudo, os sentidos figurados de «indigerível» não se podem transferir para «indigestível». «Namora, em que pese a verdura dos seus vinte e poucos anos, afeiçoa-os [personagens da obra Fogo na Noite Escura] já com amor e minúcias de subtil psicólogo, às vezes quase finamente perverso, dá-lhes espessura e liberdade de se “desviarem”, quando isso lhe apraz, daquele comportamento exemplar que tornou indigerível tanto herói “típico” de tanta literatura intragável» (O Objecto Celebrado, Eugénio Lisboa. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1999, p. 137). Reparem: a literatura é «intragável», isto é, desagradável, intolerável, e, num paralelismo não inesperado, a caterva de heróis típicos é «indigerível», isto é, insuportável, inaturável.

 

 

[Texto 7]

 

 

Helder Guégués às 10:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Mai 11

Linguagem

Algumas esquisitices

 

 

 

      Perguntam-me, com insistência, se não acho que a expressão «rotina diária» é redundante. Respondo que não, e que talvez estejam a confundir com «rotina habitual», esta sim redundante.

      A língua, porém, não deixa de ter dubiedades quase inultrapassáveis. Lembremos algumas pela pena de Agostinho de Campos.

      «Jogar com pau de dois bicos não é privilégio exclusivo das pessoas muito espertas. Há palavras que fazem o mesmo, e nem por isso as consideramos mais espertas que as outras. Os verbos alugar, hospedar, cheirar são dessa espécie: Eu aluguei esta casa, e o senhorio alugou-me esta casa. Fulano hospeda-me na sua casa e eu hospedo-me em casa de Fulano. As flores cheiram bem e a gente cheira as flores.

      Certas palavras que nasceram perfeitas, e viveram anos de boa saúde, podem adoecer por culpa nossa. Assim acontece com a própria palavra saúde, coitadinha. A sua correspondente latina, salus, salutis, tinha os significados nítidos e agradáveis de salvação, felicidade, saúde. Acontece porém que a evolução da palavra saúde a torna dúbia, incerta, por vários motivos.

À uma, já se vai dizendo boa saúde, má saúde, como se o substantivo saúde, só por si, já não significasse coisa nenhuma. À outra, damos em chamar casas de saúde àquelas que servem para receber doentes; e quando um funcionário fica em casa com quarenta graus de febre, diz-se que não compareceu na repartição por motivo de saúde» («Esquisitices da nossa fala», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, p. 213). 

      Ainda ontem a ministra da Saúde falava em «esperança positiva». Pelo menos para Ana Jorge, a esperança já não é algo que, singelo, valha por si.

 

[Texto 6]

 

Helder Guégués às 09:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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