16
Mai 11

Léxico: «pretolim»

Palavra do dia

 

 

 

      As cutelarias portuguesas, na Benedita e na Azaruja, por exemplo, também produzem espadas? Decerto que não. Em Espanha, sim, ainda há espadeiros, como Mariano Zamorano, em Toledo, capital ibérica das espadas. Bem, e sabem que nome se dá ao verniz dos espadeiros? Pretolim. E dantes, óleo-pretolim. O problema é que, à medida que se deixou de ver espadeiros a açacalarem as armas nos seus escaméis, estes termos foram desaparecendo dos dicionários.

      «As nações agitavam-se como mares revoltos por violenta procella, e rangendo os dentes alçavam-se em pé, e mirando o oriente com olhar torvo, açacalavam as armas, e suspiravam pelo dia em que podessem alagar de sangue e alastrar de cadaveres os plainos da Syria» (Quadros Históricos de Portugal, António Feliciano de Castilho. Rio de Janeiro: Typ. Commercial de Soares & Comp., 1847, p. 236).

 

[Texto 14]

Helder Guégués às 23:31 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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Como se fala na rádio

Oh molher illustre!

 

 

      «A resposta correcta é “igual”, “semelhante”. Ora, este elemento de formação, homo-, que provém do grego homós, que significava originalmente “o mesmo”, “igual”, “semelhante”, suscita muitas dúvidas, porque, na palavra “homossexual”, muita gente pode pensar, eventualmente pode pensar, que “homo” diz respeito a homem. Ora, “homem” vem do grego anthropo. Anthropo, anthropo é que significa “homem”» (Jogo da Língua, Sandra Duarte Tavares, Antena 1, 12.05.2011). 

      Pobres alunos, pobres ouvintes. Se pudéssemos esquecer o disparate da etimologia do vocábulo «homem», lapso, decerto, afirmaríamos que o grego ainda saiu mais maltratado desta «carónica» radiofónica. Quanto ao resto, sim, há muitas confusões, e eu próprio já ouvi uma senhora idosa, avó de uma procuradora adjunta, dizer convictamente «homem sexual».

 

 

[Texto 13]

 

Helder Guégués às 21:55 | comentar | ver comentários (9) | favorito | partilhar
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16
Mai 11

Léxico: «lastra»

Considerações mansas

 

      Ainda não há no Facebook um grupo de defesa dos regionalismos? Fica a ideia — até porque há lá coisas bem mais ridículas e inúteis.

      Tenho aqui à minha frente um texto em que aparece o regionalismo «lastra». Já conheciam? Não é muito provável. «A fila era ainda longuíssima, e já só se podia passar por um corredor a sete ou oito metros de distância do altar sob o qual o tinham colocado, assinalado com uma simples lastra de mármore branco com o seu nome escrito.» Não é de agora que os regionalismos são olhados de soslaio. Já Asinius Pollio, que pelo nome não se perca, governador da Gália Cisalpina, criticou os regionalismos de Patavium (actual Pádua) usados por Tito Lívio na sua obra. Não percebeu patavina, decerto. Substituiria o regionalismo se não figurasse nos dicionários mais comuns. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que se trata de regionalismo. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acrescenta que é regionalismo transmontano, e o mesmo regista o Dicionário Houaiss. Em dicionários mais antigos, curiosamente, não aparece em todos.

      E qual será a etimologia do vocábulo? Desconhecida, parece, mas talvez do espanhol lastra («Piedra más bien grande, naturalmente lisa, plana y de poco grueso», lê-se no DRAE), e este do italiano. Não estará, assim, relacionado com o vocábulo «lastro», com étimo francês. «Lastra» também é a lâmina de pasta argilosa que se converte em telha, acepção que poucos dicionários acolhem. E a propósito: foram os Romanos que nos ensinaram a fazer telhas de meia-cana (obrigadinho!). Punham os escravos a fazê-las a partir de lastras, usando a coxa como molde. Saíam, já podem calcular, muito diferentes, o que terá dado origem à expressão «feito em cima do joelho».

    «Se eles pegão em Homero, e ali mesmo em cima do joelho o traduzem, e achão defeitos na tradução de Pope!» (Considerações Mansas sobre o Quarto Tomo das Obras Métricas de Manoel Bocage Acrescentadas com a Vida do Mesmo, José Agostinho de Macedo. Lisboa: Impressão Régia, 1813, p. 21).

 

[Texto 12]

 

 

Helder Guégués às 13:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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