17
Mai 11

Léxico: «bringir»

A juntar ao tomate-cereja

 

 

      Ora cá temos outro mistério da língua. O nosso chefe (nos jornais já se vai aceitando esta designação) escreveu que o «alho ralado havia sido bringido em três águas». Até os ajudantes de cozinheiro, obscuros moços agora com luminosos sonhos, não apenas sabem bringir, como conjugam o verbo na perfeição. E é de uso frequentíssimo. Bringir é ferver em água (ou em óleo) durante algum tempo certos alimentos, especialmente legumes. Mas em que dicionário está registado o vocábulo? Tanto quanto vejo, em nenhum. Entalar, branquear e encalir são, ao que me parece, sinónimos. E qual a etimologia? Não sei, mas talvez francesa, língua da arte culinária.

 

[Texto 21]

 

Helder Guégués às 23:57 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
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Como se escreve nos jornais

Sem surpresas

 

 

      «Considerado como um dos dez melhores penalistas de Washington, este barbudo [Benjamin Brafman] de olhos azuis é um conhecido francófilo que já fora chamado a aconselhar DSK em 2008 quando este tivera de pedir desculpas após ser acusado de dar emprego no FMI à sua amante húngara» («O penalista estrela de Washington e o advogado de Michael Jackson», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 17.05.2011, p. 3).

      Os problemas habituais: incoerência no uso dos tempos verbais, uso de «após» com formas verbais, emprego desnecessário, copiado do francês, da partícula «como»...

 

[Texto 20]

Helder Guégués às 23:19 | comentar | favorito | partilhar
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Sobre «compreender»

Abranger na mente

 

 

      «As perícias de abuso sexual compreendem a observação de todo o corpo e não apenas os orifícios naturais, explicou ao DN o director do Instituto de Medicina Legal de Lisboa [Jorge Costa Santos]» («Vítimas de abuso sexual são observadas em todo o corpo», Licínio Lima, Diário de Notícias, 17.05.2011, p. 3).

      É, vê-se imediatamente, linguagem de manual. «As perícias de abuso sexual compreendem, etc.» Nesta acepção, compreender é conter em si, em sua natureza; estar ou ficar incluído; abranger. A acepção mais conhecida e usada do verbo, apreender (algo) intelectualmente, utilizando a capacidade de compreensão, de entendimento; perceber, é um sentido derivado daquele. Compreender passou a ser também encerrar na mente, abranger na mente.

 

[Texto 19]

 

Helder Guégués às 22:57 | comentar | favorito | partilhar
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«Linchamento/linchagem»

De rustilhão

 

 

 

      «Em Paris, os socialistas franceses criticam violentamente a justiça norte-americana. […] Fala-se mesmo em exibição, morte mediática e linchagem de Strauss-Kahn» (Maria de São José, noticiário do meio-dia, Antena 1, 17.05.2011).

      Ouve-se com muito mais frequência «linchamento». O sufixo –mento, formador de substantivos derivados de verbos, é muito mais abundante em português. Apesar de registado por todos os dicionários — e enciclopédias: «Linchagem, s. f. Acção de linchar, linchamento» (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira) —, não é muito usado na literatura, mas eis um passo de Aquilino Ribeiro em que surge: «O Janota deu uma dentada no mais atrevido, o qual, recalcitrando, além de apanhar nova dentada, foi, uma vez projectado no meio dos outros, objecto de linchagem e perseguido de rostilhão pelas leiras, rabo entre as pernas […]» (Quando ao Gavião Cai a Pena, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand, 1972, p. 177).

      Ah, sim «de rostilhão» não está dicionarizado, mas sim «de rustilhão»: «Rustilhão, s. m. Adoptado na locução de rustilhão, isto é, de roldão, de cambulhada» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado). «Aquele enorme caixão vinha sem pressa, de onde eu estava, parecia que alguém por detrás se lhe tinha agarrado à cabeceira, como quem se abraça, desesperado, a uma jangada que vem de rustilhão, por uma cheia» (Os Gatos, Fialho de Almeida. Lisboa: Clássica Editora, 1992, p. 120).

      As crianças têm tendência para usar o sufixo –agem. Ainda no sábado a minha filha disse que no dia seguinte queria continuar a «escavagem».

 

[Texto 18]

Helder Guégués às 22:07 | comentar | favorito | partilhar
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Léxico: «pandroginia»

O fim do mundo

 

 

 

      Sim, Fernando Venâncio, «homensexual» seria, numa palavra, como se deveria grafar, nos meios humildes e nos outros. Contudo, os semialfabetizados (os mais perigosos nestas questões da língua) deverão, imagino, pensar em duas palavras. Mas veja agora este novíssimo conceito: «No entanto, defini-lo apenas como músico seria redutor, até porque Genesis redefiniu a sua arte como um verdadeiro desafio aos limites da biologia e às noções de género, mais precisamente com o projecto da pandroginia (“pandroginy”), que começou por desenvolver em 2000 ao lado da sua segunda mulher, Lady Jaye (falecida em 2007). […] No entanto, nada do [sic] desenvolveu foi tão subversivo como a pandroginia, que acaba por resultar na desconstrução de duas identidades individuais com o objectivo de se criar uma terceira identidade indivisível e que testa os próprios limites da noção de género» («Um amor que testou os limites da noção de género», João Moço, Diário de Notícias, 17.05.2011, p. 52).

 

[Texto 17]

 

Helder Guégués às 13:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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Sobre «papelinho»

O chapelinho dos norrenos

 

 

      Recentemente, alguém escreveu num motor de busca: «O diminutivo de papel.» Foi assim ter ao Assim Mesmo. (Por vezes, têm um discurso ainda mais articulado, como nesta pesquisa na semana passada: «A palavra “acepção” ao ler-se o p é referido ou lê-se aceção?». E já lá chegou isto: «Unidades de medida segundo Helder Guégués.» Não é curioso? Só falta pedirem por favor.) Não sei se a dúvida se prendia com a pronúncia se com a possibilidade do diminutivo. Lembrei-me então deste passo de Vasco Botelho de Amaral: «Todavia, o e tónico aberto nem sempre consegue manter, mesmo no Norte, a abertura do primitivo: papelpapelinho na bôca dos próprios norrenos; chapéu faz chapelinho (com a vogal muda). Nunca papèlinho nem chapèlinho. E também se emmudecem derivados como mala, malinha (não màlinha), etc.» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 262). «Norrenos», repararam? No Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, lê-se: «Norreno, adj. (do escandinavo norrana). O m. q. nórdico.» Deve ter sido para variar o léxico, pois Botelho de Amaral, neste texto («Pronúncias dialectais e outras»), também usa «tripeiros» e «nortistas». E mais: «Protesta-se nòrdicamente que pedrinha se confunde com Pedrinha, deminutivo de Pedra!...» (idem, ibidem, p. 261).

 

[Texto 16]

Helder Guégués às 08:37 | comentar | ver comentários (3) | favorito | partilhar
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17
Mai 11

Como se escreve nos jornais

Dialectos das Portas do Sol

 

 

      «Não raro se imagina lá por fora que o português é simples dialecto do espanhol» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 318).

      E, passado quase um século, o que se imagina cá dentro das outras línguas? Isto: «Por exemplo, a esplanada das Portas do Sol, em Alfama, oferece uma vista ampla sobre o rio e sossego, além de um curso intensivo em “estrangeiro” (inglês, espanhol e italiano são os dialectos mais escutados)» («Os mistérios de Lisboa ainda por desvendar», Diário de Notícias, 12.05.2011, p. 52).

 

[Texto 15]

Helder Guégués às 07:59 | comentar | ver comentários (6) | favorito | partilhar
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