18
Mai 11

Como se escreve nos jornais

Oh, vergonha!

 

 

      «Fundado em Março por Jean-Sebástian Ferjou, ex-jornalista da LCI e da TF1, o site Atlantico.fr já teve duas caixas sobre DSK. A primeira foi a fotografia do Porsche, a segunda foi a do relatório policial que dizia que tipo de provas havia no Sofitel» («‘Site’ das manchetes anti-Strauss-Kahn», Diário de Notícias, 18.05.2011, p. 2).

      Parece mentira, e por isso mesmo cito aqui este trecho. É um texto secundário, ao lado de outro, «DSK pode alegar que sexo teve consentimento da empregada» (isto é o jornalista a tentar conduzir a defesa), assinado por Patrícia Viegas. O textinho não está assinado, e tanto pode ser da autoria daquela jornalista como não. Será, isso decerto, de um jornalista e não de uma camareira. Nem por pertencer à gíria jornalística acertaram. Cacha é o nome que os jornalistas dão à manchete em primeira mão. O mesmo que furo. Ambas registadas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, pelo contrário, não regista nenhuma. Ah, esperem: regista «furos», no plural! «Gír. Surpresa, notícia dada em primeira mão.» Que surpresa. Bem, amanhã já têm que fazer. Quanto ao jornalista que escreveu «caixas» em vez de «cachas», precisava de ser castigado. Uma semana em Rikers Island, talvez.

 

 [Texto 27]

Helder Guégués às 23:13 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Sobre «camareira»

D. Dominique perdeu o domínio

 

 

      Tanto quanto pude ler, só a imprensa brasileira e, entre nós, o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias, dizem que o alarve do Strauss-Khan tentou abusar de uma camareira. O resto da imprensa fala em empregada. Antigamente, só as famílias nobres tinham camareiras. As rainhas tinham donzelas, açafatas, aias... A camareira, e então camareira-mor, era a máxima jerarquia, como escreveu Camilo, nas empregadas do paço. Agora, as camareiras, decerto que por influência da língua espanhola e por compreensível evolução semântica, são simples arrumadeiras em hotéis. Evolução oposta à de «ministro», antigamente somente criado, servidor.

      «Diz a imprensa que o chefe do FMI saiu nu da casa de banho de um quarto de hotel e tentou, por duas vezes, abusar de uma camareira» («O crime sexual também é um abuso de poder», Pedro Tadeu, Diário de Notícias, 17.05.2011, p. 9).

 

[Texto 26]

Helder Guégués às 15:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «aviculário»

Tesouro da língua

 

 

      Brasil. No Diário Oficial da União de ontem, na página 37, foi publicada uma instrução do Ministério da Fazenda em que se podia ler o seguinte: «Art. 1.º Esta Instrução Normativa disciplina a incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) na comercialização de produtos suínos e aviculários e de determinados insumos relacionados, conforme previsto nos arts. 54 a 57 da Lei n.º 12.350, de 20 de dezembro de 2010.»

   «Produtos aviculários»! Como adjectivo, é sinónimo de «aviário», referente a aves. Como substantivo, é o que cuida, o que lida com as aves, o mesmo que avicultor. Não raro, temos de atravessar o Atlântico para encontrar estes termos. O mesmo se passa com arcaísmos em Portugal, que vivem ainda na língua do dia-a-dia no Brasil.

 

 

[Texto 25]

Helder Guégués às 14:25 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «condition»

Coitadinha

 

 

      «Viveu, há mais de 3500 anos (entre 1580 e 1530 a.C.), em Tebas, no Antigo Egipto, e apesar da dieta saudável que a sua classe social permitia, à base de cereais, fruta e legumes, e de uma vida presumivelmente sem stresses no palácio, a princesa egípcia Ahmose-Meryet-Amon sofria de arteriosclerose, doença coronária que se caracteriza pelo espessamento interno das veias e que pode causar acidentes vasculares cerebrais e problemas cardíacos. […] “Hoje a princesa teria de teria e [sic] ser submetida a uma cirurgia para aplicação de um by-pass”, afirma Gregory Thomas, notando que a descoberta da condição de saúde da antiga princesa egípcia constitui uma surpresa» («Princesa egípcia de há 3500 anos é a primeira paciente diagnosticada com doença coronária», Diário de Notícias, 18.05.2011, p. 34).

     A «condição de saúde» é completo disparate. É, já o dissemos mais de uma vez, anglicismo semântico. Os jornalistas traduzem em cima do joelho as notícias de meios de comunicação anglo-saxónicos e depois temos isto. E nunca antes lera uma edição do Diário de Notícias com tantas gralhas. O nome da princesa, não fique sem dizer-se, também está assaz anglicizado. Já li muitas vezes Ahmose Meritamon.

 

[Texto 24]

 

 

Helder Guégués às 13:52 | comentar | favorito
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Léxico: «polemologia»

Sem polemículas

 

 

      «Não são apenas agressores atípicos que assumem e usam as práticas guerreiras identificadas pela história e pelos estudiosos da polemologia, são entidades privadas, que usam com perícia os saberes disponíveis, não para fortalecer o que hoje se chama frequentemente a segurança humana, mas para esvaziarem de sentido a afirmação de Paulo VI de que o desenvolvimento sustentado é o novo nome da paz» («Conciliar o mundo», Adriano Moreira, Diário de Notícias, 17.05.2011, p. 58).

    É vocábulo arredado da imprensa e das conversas do dia-a-dia. Polemologia é o estudo da guerra como fenómeno social autónomo; análise das suas formas, causas, efeitos, etc. O antepositivo polem(o)- ocorre noutros vocábulos, uns originalmente gregos, outros eruditismos com génese na nossa ou noutras línguas.

 

[Texto 23]

 

 

Helder Guégués às 09:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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18
Mai 11

Sobre «tranche»

Mas pagamos

 

 

      Com o pedido de Portugal, outro galicismo, que já antes era usado de vez em quando, ressurgiu em força: tranche. Nunca usei na minha vida. Há outras formas de dizer o mesmo. «A primeira tranche surge, como se noticiou na altura, em jeito de empréstimo de emergência, como pediram os banqueiros portugueses» («Primeira tranche em Maio e vale de 18 mil milhões», Luís Reis Ribeiro, Diário de Notícias, 17.05.2011, p. 6). O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa definiu assim modestamente o vocábulo: «pedaço cortado. = fatia. Parte separada. = parcela». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ao dá-lo como termo técnico da área económica, foi mais longe: «parcela de um montante global disponibilizada periodicamente ao titular de um empréstimo, sujeita a taxas e prazos diferentes dos previstos para a(s) outra(s) parcela(s)». Uma coisa é certa: já antes de se usar o galicismo o Estado português pagava os empréstimos que pedia para prover às despesas da nação, em tempo de guerra e em tempo de paz.

 

[Texto 22]

Helder Guégués às 00:24 | comentar | favorito
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