19
Mai 11

«Blog/blogue»

Escrever blogs... é já ridículo

 

 

      Continuam a perguntar-me se se deve escrever «blog» ou «blogue». Há cinco anos, quando comecei o Assim Mesmo, não tive dúvidas: «blogue». Nem as tenho agora. Uma vez que era improvável encontrar um termo português para designar a nova realidade, só restava um caminho: aportuguesar o anglicismo. E este vocábulo, convenhamos, estava a pedi-las. Vejam agora um caso semelhante: «Ainda posso acrescentar que, se há maridos portugueses que em praias, clubes (escrever clubs... é já ridículo, em português), nos “eléctricos”, nos combóios, nos barcos, nos teatros, etc., deixam as mulheres flartar, das duas uma: ou têm muito bom estômago, ou são tão cândidos que não perecem que os homens portugueses possuem, como disse Garrett, certa “veemência de sensações”, que altera a inocência do “flirt”» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 190).

 

[Texto 32]

 

 

Helder Guégués às 23:27 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «tabular»

Para organizar a informação

 

 

      Eu sabia que isto tinha de existir. Henry M. McHenry, da Universidade da Califórnia, num estudo que fez, tabulou o peso corporal e o comprimento dos ossos, construindo assim uma base de dados que permitisse estimar (eu também aprendo, caro Fernando Ferreira) o peso de um indivíduo por um simples osso e o comprimento de qualquer osso pelo fragmento de uma articulação. Tabular é organizar qualquer informação em tabela. Também se diz tabelar, mas eu reservaria este verbo para a extensão de sentido «submeter a uma tabela de preços».

 

[Texto 31]

 

 

Helder Guégués às 11:59 | comentar | favorito
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Economia: «core Tier 1»

De ir às lágrimas

 

 

      A falta de coerência, de uniformidade, deixa-me sempre muito abalado. É qualquer coisa de congenial, agravado, decerto, pela actividade. Deformação profissional, se quiserem. Falemos, por exemplo, da expressão inglesa do âmbito da economia core Tier 1. No Diário de Notícias, tenho visto de tudo: Core Tier 1, core tier 1, etc. «Já a olhar para a frente, o administrador do BCP referiu que o banco deverá conseguir atingir um core tier 1 de 10% com “seis meses de antecedência em relação ao final de 2012”. O BCP espera conseguir atingir esse valor sem necessidade de recorrer “mais ao aumento de capital em dinheiro e sem fundos públicos”» («BCP atinge ‘core tier 1’ de 9% com aumento de capital», Bárbara Barroso, Diário de Notícias, 17.05.2011, p. 34).

      Ontem, vi algo pior, mas que, em rigor, não conta, pois o artigo ainda não tinha sido revisto: um jornalista, especializado em questões económicas, escreveu «core Tear I». É quase assim, respondeu, a rir, o director. «O numeral deve, na verdade, ser romano.» Será mesmo assim? Estive a pesquisar a imprensa anglo-saxónica, por uma vez a que interessa para dilucidar a questão. Predomina, parece-me, «core Tier one». Quando o numeral não está escrito por extenso, a questão que mais importava, é o algarismo árabe que se usa, como vejo no melhor jornal do mundo (dizem; disse-o ontem Ferreira Fernandes na sua crónica no Diário de Notícias), o The New York Times: core Tier 1. Pode a questão não estar resolvida, mas está bem encaminhada: temos uma referência.

 

[Texto 30]

Helder Guégués às 11:21 | comentar | favorito
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Acordo Ortográfico

De facto

 

 

      A propósito daquele «fato» ali no texto anterior, lembrei-me, era inevitável, dos professores de Português que afirmam que vão ter de aceitar ambas as grafias quando o AOLP90 estiver a ser plenamente aplicado. Já mostrei a sem-razão que há nessas ideias, mas não queria deixar de estabelecer um símile com o ensino da gramática. Quando estiverem a ensinar a gramática do português europeu, aceitarão que os alunos redijam («produzam», como agora os professores gostam de dizer) textos que se afastem da norma gramatical da nossa variedade? Parece-me que não.

      Mas voltemos atrás, muito atrás: em 1945, também Vasco Botelho de Amaral se mostrava desconsolado ao ver que o Vocabulário luso-brasileiro não destrinçava os usos predominantes de cada uma das pátrias da lusitana fala em relação à locução «de facto»/«de fato». «Não se sabe ao certo», começava por escrever, «qual o étimo de fato (vestuário). Mas facto veio de factus. Não interessa agora discutir a admissibilidade de uns que outros étimos, de muito intêresse para deduções e complicações filológicas, mas alheios ao propósito das presentes notas. O que vale a pena acentuar é que o primeiro vocábulo não tem nada que ver com o segundo, isto é, facto português e fato brasileiro (no sentido de facto) não se ligam nem etimológica nem semânticamente a fato (vestuário, rebanho, etc.). ¡¿ Como, pois, registar apenas fato, e prender a esta forma única a locução de-facto?!

      Se lá se fala mais no terno do que no fato, e, portanto, as confusões são menores quando o c desaparece da referida palavra; cá distinguem-se bem dições como esta por exemplo: “de-facto vi-o de fato novo”.

      Nem os Portugueses podem obrigar os Brasileiros a dizer facto, nem os Brasileiros podem querer que os Portugueses digam fato, não se referindo ao vestuário masculino. Muito bem. Continue-se lá a dizer de fato e cá de-facto, que a língua portuguesa nada perde com isso» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 279).

 

[Texto 29]

 

Helder Guégués às 10:36 | comentar | ver comentários (10) | favorito
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19
Mai 11

Ensino

MEC já não desburrifica

 

 

      O Ministério da Educação e Cultura (MEC) brasileiro distribuiu recentemente por 484 195 alunos de 4236 escolas um livro didáctico, Por uma Vida Melhor, da «Colecção Viver, Aprender», em que se defende que não há certo e errado e sim adequado e inadequado. (Onde é que eu já ouvi isto?) Na oralidade, ensina, não há necessidade de se seguir a norma culta para a regra da concordância. Assim, exemplifica, tão correcto é dizer «os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados» como «os livro ilustrado mais interessante estão emprestado» — só «o fato de haver a palavra os (plural) já indica que se trata de mais de um livro». Apenas há um senão, avisa candidamente a autora: ao usar o nível de língua popular, a chamada «língua viva», o estudante poderá ser vítima de «preconceito linguístico». Aos professores é que este novo entendimento deve ser conveniente: está tudo correcto, não precisam de se incomodar a corrigir. Nada há para corrigir. Há quem diga que é a marca que o Supremo Apedeuta quis deixar à potência emergente. Podemos, Portugueses, dar-nos por felizes: este completo descalabro ainda não chegou cá.

 

[Texto 28]

Helder Guégués às 08:32 | comentar | ver comentários (11) | favorito
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