20
Mai 11

Sobre «connosco»

Continuam os equívocos

 

 

      Não é apenas o tal editor-chefe que não sabe se, com o Acordo Ortográfico de 1990, se passará a escrever «conosco». (Ele, porém, vai escrevendo segundo as novas normas ortográficas.) Ontem, um jornalista fez a mesma pergunta. Podiam ler o texto do acordo, e chegariam à conclusão de que nem sequer refere especificamente os pronomes pessoais. Em Portugal, já o escrevi, escreve-se e continuará a escrever-se «connosco», com dois nn. No Brasil, escrevia-se e continuará a escrever-se «conosco» com um n. Nenhuma alteração trazida pelo AOLP90 implica, para já, alterações na pronúncia das palavras. A médio/longo prazos, e sobretudo em consequência da queda das consoantes mudas, não se sabe se terá implicações. Entre nós, o primeiro o da palavra «connosco» é nasalado, e não poderia sê-lo pelo segundo n, que não pertence à primeira sílaba, que não contém nenhum ditongo. (Lembremo-nos da nasalação do ditongo ui da palavra «muito».) No português antigo, a forma pronominal nosco estava simplesmente unida à preposição com: «comnosco». Por assimilação, chegou-se à grafia «connosco».

 

 

[Texto 35]

 

Helder Guégués às 14:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Crasar»?

Há tendência para se pensar

 

 

      «A resposta correcta é “antestreia”, uma palavrinha só, portanto, uma palavrinha aglutinada. Não se trata de duas palavras como... Há tendência para, para se pensar, não é? Nem tem hífen. Portanto, escreve-se assim, eu passo a soletrar: a, n, t, e, s, t, r, e, i, a. “Antestreia”. Ou seja, como aquele prefixo ou radical, como se quiser, termina em e e a palavra-base, a palavra principal, também começa por e, há, existe uma crase, elas cra... casam [risos], crasam, e temos só um e, “antestreia”. “Antestreia” é só com um e» (Jogo da Língua, Sandra Duarte Tavares, Antena 1, 19.05.2011). 

      Também já me ocupei desse erro tão frequente que é escrever «ante-estreia». Outra questão, porém, me ocupa agora: se os Brasileiros usam o verbo «crasear», ainda que com o sentido de colocar o sinal de crase em», para quê inventar?

 

 

[Texto 34]

 

Helder Guégués às 09:25 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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20
Mai 11

«Ex aequo»

Já que falam nisso

 

 

      Outra pesquisa compostinha num motor de busca: «In loco ou in locum?» Bem, depende, não é? É o pretexto que esperava para tratar de uma questão que precisa ser esclarecida. Nas últimas semanas, tenho andado a ler com desusada frequência uma latinada: exequo. O contexto de hoje era um concurso de pintura e os finalistas foram vencedores, escreveu o jornalista, «em exequo». A expressão é composta pela preposição ex, que indica procedência, origem, e pelo adjectivo aequus, no caso ablativo. Também não se usa somente, como já li, quando se trata de dois jogadores ou atletas ou vencedores. Esse é outro disparate. Também não precisa de ser acolitada por uma preposição portuguesa. Para os menos sabedores e os menos atentos, o Livro de Estilo do Público acrescenta uma prevenção: «“ex aequo” — Expressão latina, entre aspas e sem hífen (não há hífens em latim), que significa “com igual mérito”.»

      «Não se inclinando para a atribuição do Prémio Antero de Quental, ex aequo, que teria prejudicado materialmente os dois vencedores, enobreceu-se o galardão com a dupla recompensa» (História de Portugal: do 28 de Maio ao Estado Novo (1926–1935), Joaquim Veríssimo Serrão. Lisboa: Editorial Verbo,  p. 514).

 

[Texto 33]

 

Helder Guégués às 00:06 | comentar | favorito
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