26
Mai 11

Preposição comitativa

Sem tigo

 

 

      Claro que interessa saber que o pronome eu muda para mim depois das preposições a, de, em, para, por, contra, etc. Já tenho é dúvidas que interesse muito saber de cor — como homens da geração e formação do revisor antibrasileiro tanto valorizam — as formas pronominais -migo, nosco-, -tigo, -vosco, sigo-, pois usam-se sempre contraídas com a preposição com. Dantes, já aqui o escrevi, a preposição aparecia sempre assim: commigo, comtigo, comsigo, comnosco, comvosco. No português quinhentista, era assim, pois ainda estava viva a consciência da sua formação. Na língua arcaica, porém, dizia-se simplesmente migo ou mego, tigo ou tego, sigo, nosco e vosco, sem a preposição comitativa, e só depois se deu a reduplicação da preposição.

      Ouçam Francisco Louçã, ontem à noite no comício em Évora, a brincar com a língua: «Percorrem o País, estes homens que se apresentam: “Eu sou candidato a primeiro-ministro, eu vou governar talvez contigo, talvez sem tigo.”»


 

[Texto 57]

Helder Guégués às 23:59 | comentar | favorito
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«Tentadero/tentadeiro»

Ao tentame

 

 

      «Em Santarém, terra de touros e toureiros, matou-se um porco e assou-se, havia vinho e cerveja para um fim de tarde taurino. No tentadero (arena), uma vaca foi toureada e pegada» (Público, 24.05.2011, p. 4).

      É um espanholismo do âmbito da tauromaquia muito usado entre nós. E tentadero é mesmo «arena», como o jornalista amavelmente quis explicar? Para a última edição do Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, coordenado por Álvaro Iriarte Sanróman, que veio fazer esquecer os muitos disparates e as incompreensíveis omissões da edição anterior, de Julio Martinez Almoyna, tentadero traduz-se por tenta: «curral fechado para experimentar a bravura dos bezerros». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «tenta» é a «lide especial para observação da bravura de novilhos ou novilhas, pouco tempo depois da ferra». Nenhum dicionário confirma que «tenta» é também o local onde se realiza essa lide.

   Ora, não seria esperar demasiado que os dicionários registassem o espanholismo — ou seria? O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado não o regista, mas acolhe o aportuguesamento tentadeiro: «Lugar cercado, geralmente em forma circular, onde se procede às tentas do gado e onde o mesmo se ferra.»

      «É tão importante isto que em dias de vento ruidoso ou mesmo quando a brisa traga ao tentadeiro o perfume característico da campina, se devem evitar as tentas» (O Fado e as Touradas em Portugal, A. Martins Rodrigues. Lisboa: Publitur, 1969, p. 103).

 

 

[Texto 56]

 

Helder Guégués às 22:10 | comentar | favorito
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26
Mai 11

«Bramir/brandir»

Ao vêr-te brandir o alphange

 

 

      A secção «O Público errou», nos actuais moldes, e com meia dúzia de linhas, é ridícula. Hoje ficámos a saber que, afinal Lobo Xavier não participou na arruada com Paulo Portas no Porto, como ontem o jornal divulgara. Disparates de alto coturno como confundir brandir com bramir nunca lá os veremos: «Agora já não é a modernidade das renováveis e do carro eléctrico, ou a plasticina da imagem e das estatísticas, agora Sócrates resolveu aparecer como um político socialista tradicional, defensor dos mais pobres e desvalidos, bramindo o estandarte da luta de classes» («Luta de classes», Pedro Lomba, Público, 26.05.2011, p. 40).

      «É o mesmo povo que durante séculos brandiu o estandarte da União Árabe» (Dois Caminhos da Revolução Africana, Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, 1962, p. 26).

 

[Texto 55]

Helder Guégués às 20:44 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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