27
Mai 11

Artigo definido

Muito lá de casa

 

 

      No programa Hoje, na RTP 2, que acabou agora mesmo (ou acabou de acabar, se quiserem), a jornalista Sandra Felgueiras mostrou uma familiaridade que não pode passar em claro: ele é «o Sócrates» para aqui, «o Paulo Portas» para ali. Sandra Felgueiras é suficientemente nova para ter tido professores que falavam «do Camões», «do Vasco da Gama» e de outras personagens históricas. Aprendeu bem a lição... Que leia, pelo menos, a Estilística da Língua Portuguesa, de Rodrigues Lapa.

 

[Texto 63]

 

 

Helder Guégués às 23:06 | comentar | favorito | partilhar
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«Apelar»: regência

Mais uma oportunidade

 

 

      «O vereador José Sá Fernandes diz que a câmara está a cumprir um “serviço público” e apela às pessoas para não abandonarem os animais» («Obras no canil e gatil de Monsanto prontas até Fevereiro de 2012», Marisa Soares, Público, 26.05.2011, p. 26).

      Senhora jornalista, não é essa a regência do verbo «apelar». Se não quiser aprender connosco, aprenda com Eça de Queirós: «E então o marquês, de pé e bracejando, apelou para Carlos, e quis saber o que é que Craft em princípio entendia por senso moral» (Os Maias, Eça de Queirós).

 

[Texto 62]

 

Helder Guégués às 14:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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«Invocar/evocar»

E os revisores, senhores?

 

 

      «Quem defende a extinção do MC [Ministério da Cultura] evoca muitas vezes o argumento da transversalidade» («Um ministério ou uma secretaria de Estado é só uma questão de palavras?», Lucinda Canelas, Público, 26.05.2011, p. 7).

      Se os jornalistas consultassem mais os dicionários, as gramáticas e fossem estudando a língua, sua ferramenta de trabalho, não erravam tanto, ou pelo menos em aspectos tão básicos. Sim, alguns sabem e acertam: «O argumento da falta de um “relatório social” e de uma “perícia sobre a personalidade” do arguido já tinha sido invocado na Relação e no supremo Tribunal de Justiça (STJ)» («Isaltino alega nulidade por falta de perícia sobre a personalidade», José António Cerejo, Público, 26.05.2011, p. 13).

 

[Texto 61] 

 

 

 

Helder Guégués às 12:30 | comentar | favorito | partilhar
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«Extra», «recorde», «ultravioleta»

A (quase) anómala invariância

 

 

      Primeiro: toda a língua portuguesa tende para a concordância. Segundo: excepções são casos anómalos que não deverão servir de paradigma. Terceiro: os adjectivos «extra», «recorde» e «ultravioleta» não são usados da mesma forma pelos falantes. Quarto: quando verifico que há hesitações, propendo sempre para a defesa dos princípios gerais da língua. Quinto: assim, defendo inequivocamente que «extra» e «ultravioleta» pluralizam em «extras» e «ultravioletas». «Recorde» é visto pela quase generalidade dos falantes como sendo invariável. «Dívidas recorde? Mas a que classe gramatical pertence “recorde”? Hum... talvez à dos advérbios...», tripudiava o leitor Montexto no Assim Mesmo. Bem, por muito que nos repugne, há adjectivos invariáveis quanto ao género e quanto ao número. Só não estranhamos se o próprio singular termina em s, como pires (que revela mau gosto; ridículo; vulgar; pretensioso). O que revela incompreensão da língua é grafá-lo como se fosse um determinante específico, o que de vez em quando no Público têm a infeliz ideia de fazer: «No final de 2009, mais de 563 mil pessoas estavam sem trabalho. Mas este número-recorde, que elevou para 10,1 por cento a taxa de desemprego, depressa foi ultrapassado» («Taxas-recorde de desemprego marcaram esta legislatura do PS», Raquel Martins, Público, 22.04.2011, p. 12).

 

[Texto 60]

Helder Guégués às 09:40 | comentar | ver comentários (14) | favorito | partilhar
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«Porta do Sol»

Em português

 

 

      «Os manifestantes da Porta do Sol, em Madrid, estão agora divididos: há quem queira manter o protesto, mas há também quem diga que chegou a hora de arrumar o acampamento» (Noticiário das 8 da manhã, Alexandre David, Antena 1).

      Talvez o jornalista Alexandre David viesse aqui deixar um comentário em que nos diria se foi pela leitura do Linguagista que ficou desperto para esta questão, mas não terá ficado contente com as únicas duas referências (aqui e aqui) que lhe fiz no Assim Mesmo. Paciência. Parabéns.

 

[Texto 59]

 

Helder Guégués às 00:37 | comentar | favorito | partilhar
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27
Mai 11

Sobre «consigo»

A propósito de pronomes

 

     

      Em 1999, o leitor Faustino António Di, de Maputo, Moçambique, fazia esta pergunta ao Ciberdúvidas (aqui): «É correcto dizer “Depois falo consigo?” O meu professor de Português recomendou-me um trabalho de investigação no qual tenho de procurar saber porque é que a seguinte frase “Depois falo consigo” é incorrecta.» Resposta do consultor, um tal L. W.: «Num uso mais culto da língua seria preferível usar o verbo no futuro do presente: “Depois falarei consigo”. No entanto, está correcto utilizar o presente do indicativo para indicar um facto futuro, mas próximo. (Veja Celso Cunha e Lindley Cintra, “Nova Gramática do Português Contemporâneo”, Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1987: “Emprego dos Tempos do Indicativo”, página 448.).» Ter sido no século passado não é desculpa. Quase dez anos depois, a dupla Sandra Duarte Tavares/Carlos Rocha (aqui) perorava: «Em Portugal, o pronome consigo pode ter como referência o pronome você, pelo que é gramatical a frase “Eu caminhava e falava consigo sobre o que ocorreu ontem”, desde que a interpretemos do seguinte modo: “Eu caminhava e falava com você sobre o que ocorreu ontem.”» É idiotismo nosso, sem dúvida, mas umas décadas antes os professores de Português tachavam esse uso sem valor reflexo de idiotia, de solecismo imperdoável. A língua evolui mesmo, não há dúvida.

 

[Texto 58]

 

 

 

Helder Guégués às 00:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
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