29
Mai 11

Cultura clássica

Ler não faz mal

 

 

      Quando se trata de cultura clássica, a tendência de muitos tradutores é deixarem nomes como os encontraram no original. Já vimos casos lamentáveis. No caso que hoje aqui trago, o tradutor escreveu que determinada personagem «representava o papel de Orestilla, a mulher de Catilina». Bem, também Barreto Feio grafou dessa maneira, mas era um tempo em que se escrevia «aquillo», «elle», «opposto»... Mas acrescenta o tradutor: «de quem Salusto disse que nunca um marido a tinha louvado». É o Salústio dos Espanhóis...

      «Catilina, perdido de amores por Aurélia Orestila, quis desposá-la e, como o filho desta se opusesse, corria que Catilina o envenenara, “acendendo na pira do filho o facho do himeneu com a mãe”, assim o conta Valério Máximo que também diz como em 651 Valério Valentino fora acusado por um poema pornográfico em que eram cantados o estupro de uma virgem e o desfloramento de um rapaz, com uma lubricidade genuinamente realista» (História da República Romana, Vol. III, Oliveira Martins. Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1952, p. 90).

 

[Texto 71]

Helder Guégués às 13:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Prédio de gaveto»

Mal explicado

 

 

      No texto fala-se de prédios, quartos e lojas de esquina, o que me levou a pensar que actualmente a expressão «de gaveto» também se ouve menos. Segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado, prédio de gaveto é «a casa de esquina que forma um ângulo arredondado». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a expressão «de gaveto»: «diz-se do prédio com frente redonda, no ângulo de duas ruas». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa é mais parco: «prédio de gaveto: prédio de esquina». Ora, todos os prédios de esquina serão prédios de gaveto? Por outro lado, afirmar que é o prédio com frente redonda é subestimar a fertilíssima imaginação dos arquitectos: há prédios de gaveto sem formas arredondadas.

      Creio que o conceito é desconhecido no Brasil.

 

[Texto 70]

 

Helder Guégués às 11:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Mai 11

Léxico: «boletineiro»

RIP

 

 

      «“Dois telegramas para David Coates”, informou o distribuidor de telegramas.» Pronto, menos uma palavra a circular por aí. Apesar de tanta tecnologia ao nosso dispor, ainda se enviam telegramas — mas os tradutores, como os falantes comuns, já não conhecem o vocábulo «boletineiro». Veja-se o perfil de funções neste (aqui) documento do IEFP: «Entrega telegramas aos destinatários, deslocando-se, normalmente, em motorizada: recebe os telegramas e verifica as moradas indicadas a fim de determinar o percurso a efectuar; desloca-se ao local e entrega o telegrama, registando a respectiva data e hora e solicitando a assinatura do destinatário no documento comprovativo.» De motorizada actualmente, pois dantes, mesmo em grandes cidades, como Lisboa e Porto, era de bicicleta que os boletineiros, que trabalhavam muitas vezes até à meia-noite, se deslocavam. Só se podia ser boletineiro até aos 21 anos. Servia, muitas vezes, de tirocínio para carteiro.

 

[Texto 69]

 

Helder Guégués às 10:20 | comentar | favorito
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