01
Jun 11

Tradução

Não se conheciam os picles

 

 

      «— Não acredito que qualquer de vocês sofra o que eu aturo — exclamou Melita —, porque não têm de ir para a escola com raparigas insuportáveis, que põem um rótulo de acusado de qualquer crime ao nosso pai, se ele não é rico, como elas pretendem.

      — Se disseres só acusado de qualquer crime, está bem; mas não nos fales em rótulos, como se o nosso pai fosse um frasco de conserva — aconselhou Zé com uma risada» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Maria da Graça Moura Brás. Lisboa: Portugália Editora, s/d, p. 11).

      «— Não acredito que nenhuma de vocês sofra tanto como eu, — chorou Amy — nenhuma de vocês tem de ir à escola com raparigas impertinentes que nos moem a paciência se não sabemos a lição, que fazem troça dos nossos vestidos, rotulam o nosso Pai por não ser rico e ainda por cima fazem pouco de quem não tem um nariz bonito.

      — Se te referes às más línguas*, diria que sim, e não a rótulos, como se o Papá fosse um frasco de picles — recomendou Jo, rindo» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Ana Mendes da Silva. Alfragide: Edi9, 2010, p. 8).

      A nota a «más línguas» (má ortografia), diz: «Trocadilho entre as palavras libel (más línguas) e label (rótulo). [N. de T.]» Maria da Graça Moura Brás esqueceu-se do insulto ao nariz, «and insult you when your nose isn’t nice», e os tempos ainda pediam que se encontrassem nomes portugueses para as personagens. Na tradução mais recente, a nota de rodapé não é muito clara. Digam-me que tradução preferem.

 

[Texto 92]

 

Helder Guégués às 22:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «enteremorrágico»

Tem mais uma tentativa

 

 

      Depois de Ana Maia, com o seu inconcebível «enterohemorrágica», hoje foi a vez de Ana Gerschenfeld tentar — e errar: «E as E. coli entero-hemorrágicas (EHEC) como a que tem provocado o surto de infecções alimentares na Alemanha?» («Perguntas e respostas», Ana Gerschenfeld, Público, 1.06.2011, p. 3). Bem, mas melhorou, pelo menos não ofende gravemente. O texto tem, porém, outros erros. Um exemplo: «Estas bactérias morrem a temperaturas superiores aos 70.ºC ou inferiores aos –20.ºC.»

 

 

[Texto 91]

Helder Guégués às 22:05 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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«Deduzir acusação contra»

Nem por decreto

 

 

      «O Ministério Público deduziu acusação de crime de homicídio qualificado à mulher suspeita de ter afogado o filho de dois anos na ribeira do parque da Serra das Minas, concelho de Sintra, anunciou a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa» («Mãe será julgada por afogar o filho», Público, 1.06.2011, p. 29).

      Deve ter sido também o Ministério Público que ordenou a mudança de regência verbal.

 

[Texto 90]

Helder Guégués às 15:34 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «inemprestável»

Também podia ter acertado

 

 

      «Eis uma novidade na coexistência dos formatos. Li, no meu Kindle, um livro que eu queria emprestar e dar a ler, sem ter de prescindir do meu Kindle para que o lesse. […] Seja: o livro, impresso e enviado de Inglaterra, custou metade da versão e-book, electrónica e inimprestável, que eu tinha comprado» («Que grande corte», Miguel Esteves Cardoso, Público, 1.06.2011, p. 39).

      Trata-se então de não ser susceptível de se emprestar, é isso? Mas a segunda frase (como diria Fernando Venâncio) range. In + emprestável = inemprestável. Espero que Miguel Esteves Cardoso não tenha pretendido reduplicar o sufixo de imprestável (que não presta; inútil). E a mesma preposição, «de», a reger dois adjectivos que pedem preposições diferentes também deixaria os mais puristas arrepiados.

 

[Texto 89]

 

Helder Guégués às 15:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Saco de gatos»

E podia ter acertado

 

 

      De «O Público errou»: «Escrevemos na edição de ontem que António Vitorino usara, num comício do PS em Setúbal, a expressão “saco de ratos”, quando o que foi dito foi “saco de gatos” (“quando cheira a poder aparecem todos juntos, para logo a seguir voltarem a ser um saco de gatos”)» (Público, 1.06.2011, p. 38). Apenas com a transposição de uma letra e troca de outra: «quando cheira a podre aparecem todos juntos, para logo a seguir voltarem a ser um saco de ratos». No D. Quixote também há, lembra-se, Fernando Venâncio?, um saco de gatos, não para dar a ideia, agora transmitida quando se usa a expressão, de desorganização, mas literal.

 

[Texto 88]

 

Helder Guégués às 14:13 | comentar | favorito
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Sobre «evento»

Já chega

 

 

      Não se abre hoje um jornal sem que encontremos uma ou duas dúzias de ocorrências da palavra «evento». Apesar de os dicionários mostrarem o contrário, quem escreve e quem revê parece ter desistido de encontrar sinónimos. Neste caso, João Lopes encontrou a palavra certa, «certame»: «Seja por vocação cultural, seja por mero gosto da agitação mediática, a expectativa do “escândalo” faz parte da dinâmica tradicional do Festival de Cannes. Para o interior do próprio certame, porque alguns participantes anseiam pela sua revelação; e também para o exterior, já que essa imagem de marca parece satisfazer muitos dos que nunca lá puseram os pés» («Festival de Cannes expulsa Lars von Trier», João Lopes, Diário de Notícias, 20.05.2011, p. 44). É verdade que o mérito é relativo, pois o termo há muito se usa quando se fala sobre concursos ou acontecimentos públicos desta natureza. Virá de outros séculos, dos certames poéticos, desafios entre poetas (o étimo latino, certāmen, significa precisamente «debate, disputa, desafio»).

 

[Texto 87]

 

Helder Guégués às 13:51 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Pandam/pandã»

Era previsível

 

 

      «Sim, é mesmo isso: as imputações falsas de Merkel fazem pandã com as preconceituosas “avaliações dos mercados” que lançaram, com espasmódicas baixas de rating, os países periféricos numa espiral de dívida» («A fábula de la merkel», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 20.05.2011, p. 15).

      Cá está o desnecessário faire pendant aportuguesado. Já tinha tratado desta questão há dois anos. Os leitores tinham razão: só se podia aportuguesar em «pandã».

 

[Texto 86]

 

Helder Guégués às 09:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Grama»

Regresso ao básico

 

 

      «O Hadrocodium wui, que foi um dos primeiros mamíferos a andar pelo planeta, há 190 milhões de anos, pesava apenas duas gramas e tinha um crânio que media 15 milímetros» («Olfacto alargou o cérebro dos mamíferos», Filomena Naves, Diário de Notícias, 20.05.2011, p. 30).

      Na oralidade, já uma vez o escrevi, é relativamente comum este erro; na escrita, e sobretudo na escrita jornalística é raro — e imperdoável. É bom tratar destes casos menores de vez em quando, não se vá pensar que desapareceram dos nossos jornais e da comunicação do dia-a-dia.

 

[Texto 85]

 

 

Helder Guégués às 09:40 | comentar | favorito
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01
Jun 11

Linguagem

Sôbolos rios que vão...

 

 

      «Em 2010, pois, um decréscimo brutal de quatro milhões de habitantes sobre os 10,7 milhões que somos hoje» («Mapa da mina abandonada», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.05.2011, p. 56).

      Parece-me impróprio o uso da preposição «sobre» neste contexto. Aliás, esta preposição é das mais mal utilizadas na nossa língua — e não estou a aludir às confusões, pela semelhança fonética e pelo parentesco, entre as preposições «sob» e «sobre».

 

[Texto 84]

Helder Guégués às 09:09 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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