09
Jun 11

Cordas e camelos

Qual é o cristão aí que?...

 

 

      Acabei de ler aqui num texto aquela frase do Evangelho segundo S. Mateus de ser mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos céus e pus-me a pensar se algum catequizando — ou, enfim, qualquer pessoa — se deterá um momento perante a aparente absurdidade. «Ora os discípulos», lê-se na Bíblia, «ouvidas estas palavras, conceberam grande espanto.» Por motivos diferentes dos dos nossos contemporâneos, decerto. Todo o aparente absurdo se funda, afinal, na acepção do vocábulo «camelo», que, no contexto, não é o mamífero ruminante, mas um calabre náutico. Na tradução para o latim, pela semelhança entre os vocábulos gregos para «camelo» e para «corda», o tradutor errou. A polissemia, já o disse, não mata, mas mói.

 

[Texto 129]

Helder Guégués às 17:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
Etiquetas:

Plural de «hífen»

Tentativa de explicação

 

 

      As «Cartas à Directora» do Público trazem hoje uma carta de Maria do Carmo Vieira a felicitar o jornalista Nuno Pacheco pelo texto aqui parcialmente transcrito. Eis um excerto: «Numa onda simplificadora, “limparam-se” então consoantes, acentos e hífens e porque tudo é uma galhofa, até “cu-de-judas”, como exemplifica Nuno Pacheco, deixou de ser “lugar remoto” para se tornar no “cu do próprio Judas”. Assim são estes peritos!» («Parabéns», Público, 9.06.2011, p. 30). Sobre o erro de Nuno Pacheco em relação à grafia de «cor-de-rosa», nem uma palavra.

      No texto do jornalista, lembram-se?, também se podia ler «hífens». A leitora Ifigénia deixou então um comentário: «Já agora façam-lhe mais outra caridade: ensinem-lhe como se escreve hífen no plural.» Vejamos: em Portugal, segundo os dicionários, prontuários e gramáticas, o plural de «hífen» é «hífenes». No Brasil, além deste, usa-se igualmente o plural «hifens». Sem acento, como «homens» ou «jovens» ou «barragens», pois nenhum paroxítono terminado em –ens tem acento. Mas Nuno Pacheco e Maria do Carmo Vieira não escreveram «hifens» mas «hífens». Segundo as regras da ortografia, está incorrecto. Contudo, ou ouço mal ou é dessa mesma forma que é pronunciado à minha volta. Habilidosamente, os falantes contornam muitas vezes a necessidade de usar o plural. Quando é de todo inevitável, porém, nunca dizem «hífenes». Alguns até saberão que é este o plural, mas, como não articulam o primeiro e, na escrita acabam por o eliminar, sem, contudo, prescindirem do acento agudo. (Ainda recentemente aqui citei o Livro de Estilo do Público, no qual, a propósito da expressão ex aequo, se pode ler na página 127: «Expressão latina, entre aspas e sem hífen (não há hífens em latim), que significa “com igual mérito”.») Há, assim, uma interacção escrita-oralidade. O uso continuado e alargado deste plural irregular legitimá-lo-á? É o que veremos nos próximos cinquenta anos.   

 

 

[Texto 128]

Helder Guégués às 15:27 | comentar | ver comentários (4) | favorito | partilhar
Etiquetas:
09
Jun 11

Tradução: «chief executive»

Desde quando?

 

 

      «O chefe-executivo de Londres 2012, Paul Deighton, reconheceu a frustração dos londrinos e garantiu que a organização está a trabalhar para disponibilizar os restantes bilhetes para o maior número de pessoas possível» («Cerca de um milhão não obteve bilhetes», Luís Mira, Público, 8.06.2011, p. 34).

      Agora os jornalistas já traduzem «chief executive» por «chefe-executivo»? Não sabia. E estou surpreendido que escrevam, e já li em vários jornais, «Londres 2012». (Mas não digo mais nada, não se lembrem de grafar como antes o faziam.) Ainda dizem que eles não aprendem.

 

 

[Texto 127]

Helder Guégués às 00:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
Etiquetas: