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Jun 11

De «plafond» a «tecto»

Finalmente

 

 

      Quem diria, há meia dúzia de anos apenas, que os jornalistas deixariam de usar o galicismo plafond? Depois de um infeliz período em que usaram a expressão redundante «tecto máximo», por mim criticada várias vezes, estão agora no bom caminho. Começou no Diário de Notícias: «Trata-se da fixação de tectos a algumas prestações sociais, como o rendimento social de inserção, marcada já para o próximo Orçamento do Estado, em Outubro» («Tectos para prestações sociais abrem ruptura no PS», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 6.07.2010, p. 2). Agora, também no Público: «Em causa está a necessidade de o Congresso dos Estados Unidos aprovar, até ao dia 2 de Agosto, um aumento do tecto autorizado para o total da dívida pública» («Estados Unidos ainda sem acordo orçamental e China avisa que estão a “brincar com o fogo”», Sérgio Aníbal, Público, 9.06.2011, p. 18).

 

[Texto 135]

Helder Guégués às 14:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Encarniçamento terapêutico»

Pior a cura que o mal

 

 

      «Encarniçamento terapêutico», leio aqui numa obra que estou a rever. A expressão não deixará de nos causar estranheza. (Relembro o conceito: é o uso de tratamentos que se podem considerar inúteis ou, embora úteis, desproporcionadamente incómodos para o resultado que deles se espera.) A origem só pode ser estrangeira, como habitualmente. Vejamos. Nos países anglo-saxónicos, a expressão usada é medical futility; nos países de língua portuguesa, usa-se indiferentemente encarniçamento terapêutico e obstinação terapêutica. A primeira é a tradução literal do francês acharnement thérapeutique. Acharnement é «encarniçamento», «obstinação». E «encarniçamento» é, como se sabe, a insistência em prosseguir, em manter alguma coisa; teimosia, pertinácia, obstinação. É palavra que nos traz de imediato à mente a ideia de furor, de ferocidade, de sanha. Se não for má prática linguística, é de certeza má prática médica, mas este não é debate para aqui.

 

[Texto 134]

Helder Guégués às 11:20 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Jun 11

Interjeições: oh/ó

Oh man...

 

 

      Aqui numa tradução, há muitos «oh man», que o tradutor verteu de uma forma que nem sempre é a correcta. As interjeições oh e ó são, muitas vezes, entendidas como idênticas, exprimindo o mesmo. Depois de verem alguns exemplos, digam-me se acham que é tudo igual.

      1. «— Que foi?! Olha o morcão! Vê lá! Que me conste, isto inda não chegou à ditadura! Ele julga que já chegámos ao Iraque, ou quê?! Ó pá, eu estava aqui sossegadinha na minha vida, que caraças!» (Escrito na Parede, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2005, p. 45).

      2. «— Ela é sempre assim — diz o Rui. — Ó pá, não vens jogar? Já metemos as ovelhas todas no curral. Agora temos de ajudar o Gigante a atirar penedos para o mar» (Nem Pato, nem Cisne, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2.ª ed., 2003, p. 43).

      3. «Pá, oh pá, estava eu com a bandeja em frente da copa e vieram dizer. Pá. Porra que vais ser um gajo de sorte. Com tanta coisa a dar-se, vais ver que te escapas de lá ir, pá» (O Cais das Merendas, Lídia Jorge. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 6.ª ed., 2002, p. 71).

      4. «E ele disse: “Não vais nada porque eu não deixo. Oh pá, eu sou teu superior hierárquico”» (Fotomontagem, Artur Portela. Lisboa: Edições António Ramos, 1978, p. 127).

      5. «D. Diogo, com os seus olhos muito azuis, sempre a sorrir, mesmo quando se zangava, perguntou com a voz sumida que tinha, como se viesse de fora para dentro: Ó pá, o cachimbo? Essa agora, respondeu o meu pai, que é que tem o cachimbo? Os outros olhavam, suspensos. Então o meu pai desconfiou: Que é que há? Nunca me viram fumar? E lá se decidiu. Quando acendeu o forno, o cachimbo disparou a rabiar [sic] que nem um foguete. Foi um pagode» (Alma, Manuel Alegre. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 10.ª ed., 2004, pp. 9192).

 

[Texto 133]

Helder Guégués às 08:19 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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