25
Jun 11

Acordo Ortográfico

Para reflectirmos

 

 

      A edição de hoje do Público divulga uma carta aberta dirigida ao primeiro-ministro, ao ministro dos Negócios Estrangeiros e ao ministro da Educação, Ensino Superior e da Ciência e subscrita por João Roque Dias, António Emiliano, Francisco Miguel Valada e Maria do Carmo Vieira, na qual se pede a suspensão imediata do Acordo Ortográfico. Extracto aqui somente os pontos 3 e 6. O teor deste tem constituído um dos grandes argumentos que tenho aduzido, em várias circunstâncias, contra o Acordo Ortográfico.

      «3. Os vícios do AO enquanto instrumento jurídico configuram mentiras gritantes vertidas em lei. No preâmbulo diz-se que “o texto do Acordo que ora se aprova resulta de um aprofundado debate nos países signatários”; deste debate não há vestígio nem se conhece menção. A Nota Explicativa do AO refere estudos prévios dos quais não há registo, apresenta argumentos sem sustentação científica sobre o impacto do AO no vocabulário português (baseados numa lista desconhecida de 110 000 palavras e ignorando a importância de termos complexos, formas flexionadas de nomes e verbos e índice de frequência das palavras) e “explica” de forma confusa os aspectos mais controversos da reforma, p. ex. a consagração, como expediente de “unificação ortográfica”, de divergências luso-brasileiras inultrapassáveis com o estatuto de grafias facultativas. Algumas dessas divergências existiam antes do AO (‘fato’ – ‘facto’, ‘ação’ – ‘acção’, ‘cômodo’ – ‘cómodo’, ‘prêmio’ – ‘prémio’, ‘averígua’ – ‘averigua’, etc.); outras são criadas pelo próprio AO (‘decepção’ – ‘deceção’, ‘espectador’ – ‘espetador’, ‘falamos – ‘falámos’, ‘Filosofia’ – ‘filosofia’, ‘cor-de-rosa’ – ‘cor de laranja’, etc.). Pelo AO a palavra ‘decepcionámos’ (e outras similares) passaria a escrever-se correctamente em todos os países lusófonos de quatro maneiras diferentes (‘decepcionámos’, ‘dececionámos’, ‘decepcionamos’, ‘dececionamos’). O termo ‘Electrotecnia e Electrónica’ (designação de curso, disciplina e área do saber) poderia ser escrito de 32 maneiras diferentes, sem que o AO ofereça qualquer critério normativo. Sendo um tratado entre oito estados soberanos que reivindicam uma matriz cultural partilhada, o AO deveria ter concitado aceitação plena de (e em) todos os países signatários. Tal não aconteceu, o que, 21 anos após a sua assinatura, é prova dos problemas por ele criados.»

      «6. Que o Estado português se proponha adoptar o AO sem um vocabulário normativo que não seja o vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa estipulado pelo art.º 2.º do AO (violando assim um tratado que assinou e ratificou) revela apenas a ligeireza com que esta matéria tem sido tratada e a incontrolada flexibilidade da aplicação prática do AO. Afinal, nenhum tratado internacional pode ficar sujeito a interpretações locais ou aplicações de carácter regional ou nacional.»

 

[Texto 216]

Helder Guégués às 16:50 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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Léxico: «cizânia»

Não quero cizaniar, mas...

 

 

      Rui Machete: «Eu recordo-me ter lido na Foreign Affairs, aqui há bastantes anos, um artigo de um autor americano, economista, com… na altura com responsabilidades na… num órgão, num órgão consultivo importante do Estado americano, Estado federal americano, que dizia que o euro seria uma desgraça para a Europa, mas não era por estes motivos, era pelos motivos de… bem, eram motivos parecidos, porque introduziam a cizânia... aaa… eee… e até porque…»

      Maria Flor Pedroso: «Cizânia” é?..., peço desculpa.»

      Responde então o entrevistado: «Cizânia entre os Estados, derivado das rivalidades económicas entre os Estados europeus.»

      Eu: os jornalistas deviam estar sempre preparados para o inesperado. O entrevistado não percebeu que a jornalista lhe estava a pedir que explicasse o que significa «cizânia». Como a própria jornalista, que não terá lido a Bíblia, desconhecia a palavra, os ouvintes ficaram a perder. E a jornalista não poderia ter recebido de um colega, pelos auriculares, essa informação? Alguns sinónimos de «cizânia»: desacordo, desarmonia, desavença, desconcerto, desinteligência, discordância, discrepância, dissensão, dissenso, dissentimento, dissídio, divergência...

 

[Texto 215]

Helder Guégués às 09:48 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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25
Jun 11

Calinadas memoráveis

Treinador, jurista, polícia

 

 

      Ontem, ao fim da tarde, perguntaram-me qual foi a afirmação mais inesperadamente ignorante de que eu tive conhecimento nos últimos tempos. Ainda me lembrei da «faca de dois legumes» ou «da força anémica» de Jaime Pacheco, mas eu propendo para a fina flor: «O maior disparate dos últimos tempos foi de Pedro Lomba com o “bramindo o estandarte”.» Ontem, contudo, no noticiário das 10 da noite, o que ouvi quase desbancou a bojarda de Pedro Lomba. O Sindicato Nacional da Polícia (SINAPOL) recusa-se a participar na festa de aniversário da PSP, a 1 de Julho. Entrevistado, Armando Ferreira, o presidente do SINAPOL, falou em despesismo e disse: «O período que Portugal está a atravessar não se compadula com festas e com gastos desnecessários.»

 

[Texto 214]

Helder Guégués às 09:17 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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