26
Jun 11

Acordo Ortográfico

Tão completo quanto possível

 

 

      O provedor do leitor do Público quis saber até que ponto este jornal vai manter a recusa em aplicar o Acordo Ortográfico, pelo que perguntou à direcção. «Solicitado a explicitar melhor o sentido da posição anteriormente divulgada (“no espaço noticioso, o jornal mantém como regra não acatar tal acordo enquanto tal for legalmente possível”), escreve o director adjunto do PÚBLICO: “O ‘legalmente possível’ refere-se à ameaça, velada, de que o AO 90 terá forma de lei dentro de três anos, coisa que não lembrou a ninguém, nunca, em matéria de ortografia, mas que os defensores do AO brandem, à falta de argumentos consistentes. (...) É o argumento de autoridade contra o argumento da razão. Haverá multas? Processos judiciais? Não se sabe. Daí o ‘legalmente possível’, embora a nossa determinação seja mantê-lo para sempre, porque achamos que só isso faz sentido”» («Esta ainda não é a aldeia de Astérix», José Queirós, Público, 26.06.2011, p. 55).

      Há-de ser insustentável, é o que me parece, e não é com alegria que o reconheço, muito antes de essa obrigação legal — um mito urbano de que nunca antes ouvi falar — existir. Pelo menos, assim, ficamos a saber exactamente o que se pretende dizer com «legalmente possível». Ficamos também ao abrigo das interpretações libérrimas — ou descabeladas, melhor se diria — como a que o leitor Jorge julga ser possível fazer do artigo 2.º do Acordo Ortográfico a propósito do vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa.

 

[Texto 218]

Helder Guégués às 13:17 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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26
Jun 11

«Algum» em frases negativas

Não serve para negar

 

 

      «Este comunicado do conselho de administração do Colombo termina garantindo que em algum momento foi perturbado o normal funcionamento do centro comercial, que encerrou à meia-noite, como estava previsto» (Arlinda Brandão, noticiário do meio-dia, Antena 1, 25.06.2011).

      Apenas posposto a um substantivo que acompanha é que o pronome indefinido algum assume significação negativa, até mais forte, estilisticamente, do que a expressa pelo pronome nenhum. Este sim, pode seguir ou preceder o nome. Outro erro muito difundido relacionado com o uso de «nenhum» é, em frases com uma negativa antes do verbo, usar-se «qualquer»: «Não sentiu qualquer problema em arrombar a porta.» Já «nenhum», acompanhado de outra negação antes do verbo, é idiotismo francês, que a determinada altura entrou, imitado pelos nossos escritores, na língua, tendo pegado de estaca. Esta asserção, porém, não é confirmada por Rodrigues Lapa, que escreve na Estilística da Língua Portuguesa: «A dúvida estilística mais importante que suscita hoje o pronome indefinido é o seu emprego e colocação em frases negativas. Nos primeiros tempos da língua, para esses casos usava-se o indefinido negativo nenhum, antecedendo o substantivo. Exemplo: “Não há nenhuma cousa de que sinta receio”. É ainda hoje a forma popular e corrente. Como havia na frase duas negações (não e nenhuma) constituindo pleonasmo, os escritores, amigos da lógica e do que supunham ser elegância, começaram a favorecer o emprego de algum na frase negativa» (p. 173).

 

[Texto 217]

Helder Guégués às 09:41 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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