27
Jun 11

Inglês

Omnipresente podridão

 

 

      «O míldio e a podridão negra (black rot), duas agressivas doenças da vinha, estão a provocar elevados prejuízos na região do Dão» («Podridão negra e míldio destroem vinhas do Dão», Diário de Notícias, 25.06.2011, p. 40).

      Os Portugueses têm de saber inglês, quer queiram quer não. Imaginem também que era referida a podridão cinzenta — nesse caso, já teríamos a designação científica, em latim: Botrytis cinerea. Ora, também a podridão negra tem uma designação científica: Guignardia bidwellii. Isto tem algum sentido? Já agora, se tem mesmo de ser assim, «míldio» é mildew em inglês.

 

[Texto 224]

Helder Guégués às 23:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Webrádio»?

Ouvi na uebrádio

 

 

      Ai que susto! E agora, todos saberão ler esta palavra? Vamos lá aglutinar, terão pensado — bem sei que não foi Nuno Cardoso, culpado apenas da repetição — os autores do termo: se se escreve «website», escrevamos «webrádio». Não encontraram nada mais português?

      «As primeiras duas semanas da webrádio Antena 1 Rádio “têm corrido optimamente bem”. […] Este projecto surgiu no seguimento da oferta de webrádios que a RDP tem lançado nos últimos tempos (Antena 3 Dance, Rádio Vivave, Antena 3 Rock, etc.). […] A rádio pública não ficará por aqui. Até ao final do ano será lançada ainda outra webrádio, dedicada à música erudita» («“Antena 1 Fado tem tido adesão entusiástica”», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 25.06.2011, p. 59).

 

[Texto 223]

Helder Guégués às 23:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Trusses»: género

O ciclista não vai nu

 

 

      «Mesmo com as partes pudendas tapadas, por causa das exigências de decoro das autoridades, dezenas de ciclistas participaram ontem na primeira edição do World Naked Bike Ride, um passeio de bicicleta destinado a promover o uso deste meio de transporte. “O trânsito em Lisboa é obsceno, mas o nosso corpo não”, proclamava um dos cartazes da iniciativa. Cartola na cabeça e lenço amarrado em cima dos trusses puídos, um inglês a residir em Portugal indignava-se com a “estupidez da proibição” do nudismo: “No resto da Europa esta iniciativa não é feita com os ciclistas nus? Portugal não pertence à Europa?”» («“Obsceno é o trânsito”, disseram ciclistas que não pedalaram nus», Público, 27.06.2011, p. 22).

      Não é todos os dias que lemos ou ouvimos a expressão, horrível, «partes pudendas». Mas vejam, o jornalista foi buscar ao baú outra peça de roupa, trusses. Há 2115 dias que não ouvia ou lia a palavra. Que, a propósito, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora se envergonha de registar. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por sua vez, regista-a, atribuindo-lhe o género feminino. O texto, não assinado, há-de ser da jornalista do tupperware, porque estão na mesma página e usa também a palavra «canícula».

      Quanto ao World Naked Bike Ride, só podia correr mal, assim com um nome estrangeiro. E, santinhos, para o próximo ano já não lhe podem dar o mesmo nome, pois não? Ou têm tomates e os expõem sem avisar a bófia do que vão fazer, ou desadjectivam a iniciativa.

 

 

[Texto 222]

Helder Guégués às 19:46 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Tupperware», nome comum

É comum

 

 

      «No relvado, entre as árvores, um Tupperware com ameixas colhidas há escassas horas e pouco mais. Aproximava-se a hora do lanche e no meio do braseiro da canícula ninguém quis saber da comida» («Piquenique contra fecho do Estádio Universitário sem comida e com pouca gente», Ana Henriques, Público, 27.06.2011, p. 22).

      Há muitos anos que não é assim, cara Ana Henriques. Ora veja aí num dicionário. Por derivação imprópria, é agora um nome comum: tupperware.

 

[Texto 221]

Helder Guégués às 19:15 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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«Cartuxo/cartucho»

Esta também dói

 

 

      Então aquele grandíssimo maluco, segundo o tradutor, «disparava dois cartuxos pela janela aberta». «Doublebarrel blast», lê-se no original. Um autêntico mata-frades, assim a defenestrar religiosos da Ordem da Cartuxa.

 

[Texto 220]

Helder Guégués às 19:13 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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27
Jun 11

Como se escreve nos jornais

Esta é a doer

 

 

      «Mas um artigo publicado este mês na revista científica Public Library of Science – Biology (PLOS), acaba por pôr também em causa a integridade científica de Stephen Jay Gould — não preto no branco, mas é o que se pode aferir das conclusões dos cientistas que reconstruíram as experiências de Morton e chegaram à conclusão de que ele não terá manipulado, nem inconscientemente, as suas medições da capacidade craniana, feitas com sementes de mostarda, como dizia Gould» («O passo em falso de Stephen Jay Gould», Clara Barata, Público, 25.06.2011, p. 12).

      É — nada de eufemismos — uma manifestação indisfarçável de ignorância da língua. Soava-lhe, decerto, que era qualquer verbo terminado em –ferir. Desferiu a flecha para aferir — e azar, não era! Aferir é cotejar com os respectivos padrões; pôr marca de aferição em; examinar a exactidão de; comparar; avaliar. Inferir é deduzir por meio de raciocínio; concluir. Lá está: disferiu, diferiu a obrigação de consultar um dicionário, e deu nisto. Anteferiu-lhe, foi o que foi, a memória. Faça agora o favor de conferir nos dicionários, se quer continuar a auferir a consideração dos leitores. Agora não transfira a culpa para outrem nem volte a malferir desta maneira a língua. E pronto, não interfiro mais na sua tranquilidade (eu até preferia não ter dito nada). Não profiro nem mais uma palavra sobre o assunto.

 

 

[Texto 219]

Helder Guégués às 08:02 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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