01
Jul 11

Acordo Ortográfico

Ortografia vs. acordografia

 

 

      No texto já citado, o professor de Linguística da Universidade Nova de Lisboa António Emiliano quis assustar-nos: «Em Portugal, deixou de haver ortografia (e sem ortografia deixará de haver língua escrita estável e coesa): este programa de Governo dita de forma definitiva a suspensão da estabilidade ortográfica, aspecto fundamental da qualidade e correcção linguísticas e um dos pilares da Educação e do acesso ao Conhecimento.

      Registe-se que o programa do Governo foi escrito em ortografia e não em “acordografia”, apesar de todos os correctores, vocabulários, dicionários e prontuários “atualizados” disponíveis (todos ligeiramente diferentes uns dos outros, é certo). O facto é que ninguém sabe neste momento — nem pode saber, na ausência de um instrumento regulador oficial que inclua TODOS os vocábulos considerados portugueses em uso nos oito países signatários do AO — como se aplica a nova... ortografia» («O desgoverno da língua portuguesa», António Emiliano, Público, 1.07.2011, p. 34).

 

[Texto 244]

Helder Guégués às 19:59 | comentar | ver comentários (22) | favorito
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Linguagem

Nova maioria

 

     

      «A aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO) em Portugal não é compaginável com os nobres objectivos do Governo em matéria educativa, como qualquer pessoa dotada de inteligência média, bom senso e sólida formação académica, e que tenha lido com atenção o AO, constatará» («O desgoverno da língua portuguesa», António Emiliano, Público, 1.07.2011, p. 34).

      Não está, é claro, a falar de muita gente — «qualquer pessoa dotada de inteligência média, bom senso e sólida formação académica» —, o que tira logo alcance à conclusão. Mas não é disto que pretendo tratar agora. Compaginável. Ainda me lembro de, quando José Sócrates, que tem uma grande predilecção por este vocábulo, o usou, a minha mulher me ter dito que o desconhecia. Bem, ainda hoje não está registado nos dicionários que aqui costumo citar. Agora, porém, temos nova maioria, e, segundo me disseram ontem, fala de uma forma nova. Bem, nova... À Estado Novo: o presidente da bancada parlamentar do PSD usou a expressão «este acto simples e singelo». Não há-de ser nada de sintomático, esperemos.

 

[Texto 243]

Helder Guégués às 19:57 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Infinitivo

Recapitulando

 

 

      «O conflito e a diferença de personalidades — a identidade pessoal de cada um e quanto estamos dispostos a sacrificarmo-nos por defendê-la — são gravemente exagerados» («Fazer as pazes», Miguel Esteves Cardoso, Público, 1.07.2011, p. 37).

      Em post anterior sobre a mesma questão — e tendo também Miguel Esteves Cardoso como autor do texto citado —, a leitora Ifigénia, num comentário, sossegou Miguel Esteves Cardoso: «Deixe lá Miguel, não está só: “Se a Grã-Bretanha nos não exibisse estas gargalhadas, teríamos de nos remediarmos com o produto da ex-princesa Studolmire Wyse que só de per si tem a ‘vis insita’, a força ridícula latente das dinamizações altas” – Camilo Castelo Branco, “A Senhora Rattazzi”, 2001, pág. 29.» Fernando Venâncio, por sua vez, escreveu: «Trata-se, claramente, duma hipercorrecção. A ela se entregam também – e gostosamente – escreventes de galego, para quem o infinito flexionado galego-português é marca altamente diferenciadora do castelhano circundante. Na Galiza, o Miguel não destoaria muito.» A leitora Cristina, por sua vez, comentou: «Mas o vezo repete-se ominosamente: “Haviam os partidos de se fazerem caros. ... Na eleição de hoje, sobretudo, todos ganhariam em não se candidatarem” – M. Esteves Cardoso, Público, 5-6-11. Receita: ler menos Thomas Bernhard, e mais Manuel Bernardes.»

 

 

[Texto 242]

Helder Guégués às 19:15 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Concurso deserto»

Inóspitos

 

 

      «Na notícia publicada anteontem (edição de Lisboa) sobre a atribuição de relógios de ouro a funcionários da Câmara de Almada com 25 anos de casa escreveu-se, erradamente, que o assessor de imprensa do município afirmou ter descido, de 2010 para 2011, o investimento com aquela iniciativa. O que o porta-voz camarário informou foi que o preço-base dos concursos públicos lançados nesses dois anos para comprar os relógios, que ficaram desertos, obrigando ao recurso a ajustes directos, desceu do ano passado para este. Ao contrário do que foi escrito, o BE não esteve presente na entrega dos relógios aos trabalhadores» («O Público errou», Público, 1.07.2011, p. 36).

      Ainda me lembro de na notícia citada ter sido empregada a expressão «concurso deserto». Aqui, porém, substantivo e adjectivo aparecem separados, o que torna ainda mais difícil a sua compreensão. Poderão contrapor-me que intuitivamente os leitores chegam lá. Não sei. Quanto aos dicionários, o que vemos é que, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete «deserto» não contém nenhuma acepção remotamente jurídica. E este é o dicionário mais usado em Portugal. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por sua vez, a única acepção jurídica que regista é a seguinte: «Não reclamado (pelo recorrente, para seguir seus termos) no prazo legal.» Diz-se concurso deserto daquele a que se não apresentaram concorrentes.

 

 [Texto 241]

Helder Guégués às 19:01 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Anglicismos

Incompreensível para o indígena

 

 

      Depois de citar (mal, de forma equívoca) Miguel Paes do Amaral, presidente da Media Capital, escreve Vasco Pulido Valente na sua crónica de hoje no Público: «Francisco Balsemão foi menos catastrófico. Para ele, a constante diminuição da publicidade não permite um novo player em Portugal (a que hoje existe dá à justa para a SIC e a TVI) e o Governo saberá ver isso» («Um sarilho à nossa moda», Público, 1.07.2011, p. 40).

      Ora, se se dirige ao indigenato (e há-de ser, que o escol oxfordiano desconhece esta bela língua), por que raio usa assim anglicismos? Sim, tê-lo-á usado Paes do Amaral, mas no excerto citado por Vasco Pulido Valente não figura. Mais contenção. Depois da monomania das aspas, de que está totalmente (mas não sabemos se para sempre) curado, e que, na minha empáfia, julgo ter sido, já não digo o diagnosticador, mas o curador, temos este problemazinha não menor.

 

[Texto 240]

Helder Guégués às 18:24 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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01
Jul 11

«Presidenta», de novo

Já se esperava

 

 

      José Mário Costa, na edição de ontem do Público, quis rebater o texto do jornalista Luís Miguel Queirós que aqui transcrevemos: «Ao contrário do que escreveu Luís Miguel Queirós na edição do passado dia 24/06 (“Assunção Esteves é presidente ou presidenta?”), “presidenta” é um registo abonado no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. Tal como, de resto, nos demais dicionários e vocabulários, portugueses como brasileiros, de referência. No primeiro caso, desde os mais antigos, como o dicionário de Moraes (“mulher que preside”, “mulher de presidente”) até aos mais recentes, como o Houaiss (“mulher que se elege para a presidência de um país”), o Aurélio (“mulher que preside”,”mulher de um presidente”) ou o da Porto Editora (“mulher que preside” e, na linguagem popular, “mulher de presidente”). No segundo caso, o registo vai dos mais recentes – como o vocabulário oficializado entre nós, o disponível no Portal da Língua Portuguesa, assim como o da Academia Brasileira de Letras – até aos mais antigos também, como o ainda reputadíssimo Vocabulário de Rebelo Gonçalves. Ou ainda na incontornável Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra (pág. 195, 1.ª edição).

      Uma generalizada atestação, pois, que confere à variante feminina de “presidente” legitimidade ao seu uso. Pode não ser o recomendado ainda pela norma culta. Ou ser de “curso restrito no idioma”, como referem Celso Cunha e Lindley Cintra, que ilustram outros femininos com similar formação, como “governanta”, “infanta” ou “parenta”. Bem diferente, e inaceitável, é a vituperação de “presidenta” não ser português.

      Pior, bem pior, são os “solarengos”, em vez de “soalheiros”, os “é suposto” e “os abusados” ou os sistemáticos “um dos que faz…”, tão repetidamente escritos e ditos nos media portugueses, a começar no PÚBLICO.

     

      P.S. – Se Luís Miguel Queirós não tivesse preferido a “opinionite” pura e dogmática, teria prestado uma melhor informação aos leitores. Bastar-lhe-ia colher os inúmeros esclarecimentos que se encontram disponíveis, por exemplo, no Ciberdúvidas. Ou respigar o que, no próprio meio linguístico do Brasil, se escreveu, muito e com sustentação séria e diversificada, depois da eleição de Dilma Rousseff, que faz questão de ser tratada por “presidenta”. Se o tivesse feito, com a ponderação devida, não escreveria que, “em termos estritamente gramaticais, tratar Assunção Esteves como ‘presidenta’ é exactamente tão arbitrário como chamar ‘presidento’ a Cavaco Silva”. Por uma simples razão: em português, a formação dos femininos faz-se a partir do masculino, e nunca o inverso.» («Sobre o “presidento” e a “presidenta”», José Mário Costa, Público, 30.06.2011, p. 38).

      O jornalista respondeu: «Consultei o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, vulgo Dicionário da Academia, e, inexplicavelmente, não vi o registo “presidenta”, que efectivamente está lá (como, de resto, seria de esperar). Diz o referido dicionário que “presidenta” se usa depreciativamente na acepção de esposa do presidente, significando ainda, no uso familiar ou popular, mulher que desempenha as funções de presidente. Agradeço, pois, esta correcção ao leitor José Mário Costa, e peço desculpa aos restantes leitores e aos autores do dicionário em causa.

      Já não estou de acordo com nenhuma das outras objecções de José Mário Costa ao texto que assinei, mas não me seria possível rebatê-las (com argumentos) no exíguo espaço de que aqui disponho.»

 

[Texto 239]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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