03
Jul 11

Variantes

Duplas e triplas

 

 

      Não se pode agora falar em duplas grafias, a propósito do Acordo Ortográfico de 1990, que não nos lancem logo para cima os «oiros» e os «ouros». Variantes ortográficas, como se sabe, muitas línguas têm. O latim está cheio delas. O português, filho do latim, também. Pense-se na obra de Camões, por exemplo. O poeta, como muitos outros contemporâneos, preferia a forma dous (que as edições modernas estropiam para «dois»), que está mais próxima do étimo, duos. Como cousa, que entretanto se perdeu completamente, está mais próximo do étimo, causa. Vejam ali aquele «triásicos» do texto anterior. O primeiro período da Era Secundária ou Mesozóica é designado por Triásico, Triássico e Trias. Estranho, este Trias, mas é o nominativo de uma palavra latina (de origem grega) de que também nos veio outra a partir do genitivo: tríade.

 

[Texto 252]

Helder Guégués às 22:23 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «comanchiano»

E Eocretáceo?

 

 

      «A maioria das rochas que avistaram era à primeira vista arenitos jurássicos e comanchianos, ou xistos pérmicos e triásicos, com uma ou outra componente negra e brilhante, indício de carvão pétreo e duro» (Nas Montanhas da Loucura, H. P. Lovecraft. Tradução de Sérgio Gonçalves. Lisboa: Saída de Emergência, 2010, p. 40).

      No original, lemos «Jurassic and Comanchian sandstones». Nenhum dicionário consultado regista o termo. E é escusado dizer que se refere ao Eocretáceo, que os dicionários, que têm muito por onde melhorar, também não registam. Mas talvez estes sejam conhecimentos dignos da Universidade de Miskatonic.

 

[Texto 251]

Helder Guégués às 20:39 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Tsé-tung/Tsé-Tung/Tsetung

Mao e a sondagem 

 

      «Foi o segundo livro mais vendido no Mundo, depois da Bíblia. O Livro Vermelho, que reúne o pensamento político de Mao Tsetung[,] parece que, afinal, não foi escrito pelo grande líder da República Popular da China» («90 anos do Partido Comunista Chinês. Mao escreveu ou não o Livro Vermelho?», Joana Pires, «P2»/Público, 1.07.2011, p. 8).

      O que se costuma ver é Mao Tsé-tung, a minha preferida, já expliquei porquê, ou Mao Tsé-Tung, ou, para os adeptos da transliteração oficial, Mao Zedong. Também já uma vez expliquei que os nomes de livros religiosos ou sacros não são grafados em itálico: Bíblia, Alcorão.

 

      Uma pequena sondagem não relacionada com o tema: qual o plural de «ancião» que preferem? Anciãos, anciães ou anciões?

 

[Texto 250] 

 

Helder Guégués às 12:37 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Léxico: «tumeficar»

Fora dos dicionários

 

 

      «Transbordava simpatia, um valor essencial na contemporaneidade; exibia um sorriso aberto que cativava as fãs; e cultivava o corpo — um colega disse que antes de gravar uma cena de novela ele, em vez de estudar as deixas, fazia flexões, para tumeficar os bíceps» («Três morangos», Eduardo Cintra Torres, «P2»/Público, 1.07.2011, p. 13).

      Posso estar enganado, mas creio que nunca antes tinha visto o verbo «tumeficar» fora dos dicionários e das enciclopédias. Saúde-se, pois. E pensando melhor, ao fazer flexões, tumeficava e tonificava os bíceps.

 

[Texto 249]

Helder Guégués às 10:28 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Descontraia

 

 

      «A decisão é, dizem os responsáveis, uma resposta às mudanças que estão a afectar o sector dos media, com o crescimento das audiências do digital — apesar do modelo de negócio ideal do online continuar a ser um Eldorado — e com o declínio da circulação impressa e de receitas publicitárias» («Para “o melhor jornal do mundo” a defesa mais eficaz é o ataque», Ana Machado, «P2»/Público, 1.07.2011, p. 12).

      Há duas semanas, escreveram eldorado, assim, grafado em itálico, agora com maiúscula inicial. Ainda têm mais variantes erradas, que me escuso a referir. A professora Sandra Duarte Tavares de certeza que «descontraía» ali aquele «apesar do», e eu também.

 

 

[Texto 248]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Pleonasmos

Repetições e reformas

 

 

      «Do passado já não conseguimos corrigir nada. A única coisa que me interessa do passado é aprender com os erros para não os voltar a repetir», disse ontem António José Seguro em entrevista na TSF. Nem todos — e nem sempre — os pleonasmos são tidos em má conta, mas «voltar a repetir» não me parece merecer o nosso aplauso.

      O tempo, porém, é agora de outra maioria, que já fala em reforma do sistema educativo. Acabo de ouvir no noticiário da uma da manhã na TSF: «O ministro da Educação quer menos disciplinas no 3.º ciclo, do 7.º ao 9.º ano. Nuno Crato vai reformular currículos e concentrar a actividade no Português e na Matemática.»

 

[Texto 247]

Helder Guégués às 01:39 | comentar | favorito
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03
Jul 11

Léxico: «radiofármaco»

Advérbios e variantes

 

 

      «A despesa dos hospitais com radiofármacos — medicamentos usados em diversos exames de diagnóstico, como as cintigrafias — está descontrolada e a sua aquisição não tem respeitado as regras do concurso público» («Gastos em radiofármacos sem controlo», C. G., Sol, 1.07.2011, p. 18).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas o vocábulo «cintigrafia». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa quis ir mais longe: acolhe o vocábulo «radiofármaco», sim, mas creio que usa na definição um advérbio desnecessário: «Substância radioactiva geralmente usada para fins diagnósticos ou terapêuticos.» No texto, usa-se a variante, muito menos comum, e mais na escrita do que na oralidade, «radiactivo»: «Outro dos problemas detectados é o uso de substâncias radiactivas muito diferentes para os mesmos exames.»

 

[Texto 246]

Helder Guégués às 01:10 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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