04
Jul 11

«Jogo da Língua»

Está mal

 

 

      A Antena 1, ao disponibilizar apenas os podcasts (tradução?) com as respostas do Jogo da Língua, priva-nos de bons momentos de diversão. Hoje o concorrente era um ex-empregado bancário, de Castanheira do Ribatejo, que tem agora uma «lojinha de consultoria financeira». A pergunta era singela: qual o sinónimo de «lacónico»: «melancólico» ou «conciso»? O concorrente não demorou nada a responder: «É a primeira.» Depois de uma intervenção desnecessária da locutora, pôs-se a pensar em voz alta: «“Conciso” é uma coisa perfeitamente definida. Ora, como “lacónico” não é uma coisa perfeitamente definida, só pode ser a primeira das hipóteses.» Como, algumas vezes, como temos visto, a resposta da professora Sandra Duarte Tavares contém erros ou é atabalhoada, perdemos assim o melhor do jogo.

 

[Texto 255]

Helder Guégués às 18:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dobragem de filmes

Portuguesa só de nome

 

 

      Miguel Esteves Cardoso teve a coragem de escrever o que eu já tenho afirmado: as dobragens de filmes, dada a qualidade que apresentam, têm um efeito deletério. «As dobragens dos filmes são mutilações em que se substitui o som original — a música da língua e a arte das interpretações vocais — por violentos enxertos falados em língua portuguesa, por actores que não foram escolhidos pelos realizadores dos filmes originais e são infalível e tragicamente incultos em relação à cultura-matriz, por conhecê-la a meio-gás e julgar que compreendem a língua de partida ao ponto de poder representá-la e dar um jeitinho, tornando-a portuguesa só de nome.

      Já se nota a horrenda incapacidade das crianças portuguesas ler legendas em língua portuguesa enquanto ouvem a banda sonora original em inglês ou noutra língua» («O horror», Miguel Esteves Cardoso, Público, 4.07.2011, p. 31).

      O texto, que não é irrepreensível, continua — e até termina com uma frase que Montexto aqui tem repetido (porque Miguel Esteves Cardoso nos lê) —, mas o principal da argumentação é o que fica extractado. A abundância de «certos» e «céus» e «supostos» e outros dos desenhos animados, além de disparates execráveis a que já me tenho referido, é filha da ignorância destes actores — que, se merecem e têm de trabalhar, também merecem ser repreendidos por tão mau trabalho.

 

[Texto 254]

Helder Guégués às 16:33 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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04
Jul 11

«Concepção» e «conceptual»

Cale-se, menino 

 

 

      Nuno Pacheco continua a tratar o tema (em que é, escreveu-o aqui Fernando Venâncio, «um diletante») do Acordo Ortográfico e a destratar, de vez em quando, a inteligência dos leitores. No seu texto de hoje no Público, dedica-se a um exercício inútil de previsão de como se falará, «com o passar do tempo, porque a ortografia serve a fonética», em plena aplicação das novas regras ortográficas. A propósito de «duas doutas meninas» que apareceram na televisão, pôs-se também na pele das «pequenas feras», os alunos daquelas, que um dia lhes perguntarão, implacáveis: «“S’tora, porque é que quem nasce no Egito se chama egípcio e não egitiano?” Ou: “Porque é que eu escrevo concessão e leio concessão e escrevo conceção e leio concéção? E porque é que temos de escrever conceptual se conceção [a palavra mãe] não tem p?”» («Já falou acordês hoje?», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 4.07.2011, p. 3).

      Bem — vamos ser coerentes —, mesmo antes, já as pequenas feras teriam as mesmas dúvidas. Neste caso, até parece que o AO veio introduzir alguma lógica e regra: não se lê, não se escreve. Mas sobre esta questão da relação entre primitivas e derivadas no aspecto fonológico já escrevi mais de uma vez. Confusões. Confusos também poderão ficar os leitores do Público com a expressão «palavra mãe». Nuno Pacheco queria escrever «palavra primitiva», que é aquela que não provém de outra dentro da língua portuguesa. «Concepção», por exemplo. E «conceptual», pelo menos para mim, que não — oh! — para o Dicionário Houaiss, se interpreto bem o verbete.

 

[Texto 253]

 

Helder Guégués às 14:00 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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