08
Jul 11

Linguagem

Ai o coração... 

 

      Em 1924, a coramina, um medicamento para a circulação, foi sintetizada, leio no sítio da Novartis. Sabiam? Bem, se os dicionários registam o vocábulo «aspirina», não deveriam registar também este? Talvez. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o regista. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da mesma editora já o regista. Incoerente? Talvez não. Contudo, já é estranho que o Dicionário Português-Alemão, também da Porto Editora, o acolha. «Coramina», regista, é «Koramin». O Ciberdúvidas, na única consulta em que se refere a Coraminas, é por erro: pretendia referir-se ao etimologista espanhol Joan Corominas (ou Coromines). Foi há oito anos, num texto (aqui) da consultora Maria Celeste Ramilo, mas até hoje ninguém do Ciberdúvidas viu — ou viu e esteve-se nas tintas. (E já viram o número substancial de remissões cegas, porque para textos entretanto eliminados, nas consultas do Ciberdúvidas? O pior é se andam a apagar os textos certos.) Sempre conheci a coramina como cardiotónico. Afirmar-se, como faz a Novartis, que é indicado para a circulação é o mesmo? Bem, está relacionado, mas... E o «cor» será de «coração»?

 

 

[Texto 273] 

Helder Guégués às 23:43 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«PIDE/pide»

Esta pede meças a outras

 

 

      O casal fez uma viagem a Itália, leio aqui, e gostou particularmente da — coragem! — «Torre de Pizza». É erro, e erro grosseiro muito revelador, que nenhum revisor (mas não ponho as mãos no lume) deixaria passar. Mas aqui surge outra anomalia que já poderiam deixar passar: em Vilar Formoso, o nosso protagonista «foi interrogado pelos PIDES». Se se escreve, e bem, pois é um acrónimo, PIDE, de Polícia Internacional de Defesa do Estado, já não se deverá escrever PIDE(S) do elemento pertencente a essa polícia. Alguns dicionários registam o substantivo comum «pide».

 

[Texto 272]

Helder Guégués às 18:59 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Anglicismo

E isso significa?....

 

 

      A Câmara Municipal de Aveiro vai celebrar um contrato para regular a gestão do estádio municipal. Vejam agora o que escreve o jornalista Júlio Almeida no Diário de Notícias: «As partes comprometem-se ainda a fazer esforços para a aquisição do naming do estádio, cabendo 30% da receita à autarquia» («Beira-Mar acredita fazer melhor do que a câmara», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 38).

      Quantos serão os leitores do Diário de Notícias que compreendem o que significa aquele anglicismo? Não, não é intuitivo. Aliás, se seguirem a intuição, equivocar-se-ão. Pergunto-me se estas infelizes redacções passariam para o papel se os editores fizessem o seu trabalhinho como deve ser e se espera que façam.

 

 

[Texto 271]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Ortografia: «campeoníssimo»

O erro espreita

 

 

      «O Presidente Nicolas Sarkozy condecorou ontem a campioníssima francesa Jeanine Longo (foto) com a medalha de comandante da Legião de Honra, numa cerimónia que decorreu no Palácio do Eliseu, em Paris» («Longo condecorada por Sarkozy», Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 41).

      Claro que não estar dicionarizado explica muito, mas a ignorância dos jornalistas explica muito mais. Um dicionário como o Houaiss não regista menos de 130 adjectivos em -íssimo. É estranho que acolha, por exemplo, «tolacíssimo» e não registe «campeoníssimo». Ainda que o provável étimo, champion, tenha i e não e, o primeiro registo conhecido na língua tem e: campeoens.

 

[Texto 270]

Helder Guégués às 09:49 | comentar | favorito
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08
Jul 11

«Aguarelável»

É só acrescentar 

 

 

      «É que nem só dos sempre prosaicos instrumentos de madeira e grafite se faz o lote de artigos da marca: aguarelas e pigmentos aguareláveis, em grafite e numa vasta gama de cores, assim como funcionais blocos de papel são alguns dos demais produtos, dirigidos tanto a doutos como a leigos artistas» («Lápis ‘Viarco’», Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 56).

      Até podia estar dicionarizado, mas não está. De qualquer modo, o sufixo –ável (ou melhor, o sufixo –vel, mas com radicais verbais da 1.ª conjugação) é muito produtivo. Como se lê no Dicionário Houaiss, «em princípio qualquer verbo dessa conjugação tem adjectivo com este sufixo, ainda que jamais antes empregado». Numa nota final, acrescenta aquele dicionário: «Vale notar a ocorrência ultramoderna de vocábulos com a acepção de ‘indivíduo que se candidata a ou possui méritos para exercer determinado cargo’, como p.ex., candidatável, deputável, presidenciável, senatoriável.»

 

[Texto 269]

Helder Guégués às 09:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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