09
Jul 11

Como se fala na rádio

Paradigma de si mesmo

 

 

      «A resposta correcta é complemento indirecto. Na frase “agrada-me essa proposta”, nós estamos perante... nós temos, aliás, um pronome pessoal... aa... dativo, “me”. “Agrada-me a proposta, agrada-te”... Vamos conjugar todo o pa... vamos, vamos flexionar todo o paradigma: “agrada-te a proposta?, agrada-lhe”... Ora, como é que nós sabemos que este pronome pessoal “me” desempenha a função de complemento indirecto? Porque, se utilizarmos um pronome pessoal na 3.ª pessoa do singular, temos a forma “lhe”. Então, agrada-me, agrada-te, agrada-lhe. “Me” desempenha aqui a função de complemento indirecto. Se... Um... um pequeno remate: se tivéssemos, por exemplo, o verbo encontrar, ver, ouvir, e... e numa frase como... aa... “encontrei-te no bar da RTP”, “vi-te no bar da RTP”, “ouve-me com atenção”, nós já teríamos a 3.ª pessoa, não com o pronome “lhe”, mas com o pronome “o” ou “a”. “Ouvi-te, ouvi-a, ouvi-o com atenção” e não “ouvi-lhe”. “Eu vi-o... vi-o no bar da RTP” e não “ouvi-lhe”... aa... e não “vi-lhe”, aliás. Portanto, neste caso com o verbo “agradar”, nós temos “me” complemento indirecto» (Jogo da Língua, Sandra Duarte Tavares. Antena 1, 6.07.2011).

      (Agora imaginem a acta de uma reunião de condomínio transcrita com estas minudências psicóticas. E mais: pelo drama que muitas vezes configuram, com a respectiva didascália: «Neste ponto, o condómino do 4.º direito, habitualmente rubicundo, está em brasa e, num gesto ofensivo, leva o indicador direito à testa, onde bate três vezes seguidas.» Conseguem? Se não conseguirem, posso fornecer um exemplo real.)

      Bem, sobre o Jogo da Língua, talvez eu não tenha aprendido bem o que é um paradigma.

 

 

 [Texto 277]

Helder Guégués às 23:09 | comentar | favorito
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«Enfarte/enfarto/infarto»

Não agradeço

 

 

      Um médico, famoso psiquiatra, escreve que outro médico sofreu um enfarto do miocárdio enquanto nadava no mar de... Bem, não posso dizer. Reparem: «enfarto». Não sei o que regista a famigerada (leiam o conto «Famigerado», de João Guimarães Rosa) 8.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, atesourado por Montexto, mas a edição em linha e a 6.ª, a que tenho de momento à mão, não acolhem esta variante. Até parece um enfarte dos pobres, mais brutal e feio, mas ambos matam. E mais — está mais próximo do étimo. Ninguém lhes pede tal, mas os dicionários vão joeirando estas variantes, como ganga imprestável.

 

[Texto 276]

Helder Guégués às 19:09 | comentar | ver comentários (17) | favorito
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«Sonhático»

Sonhar acordado

 

 

      Neste preciso momento, milhares de brasileiros poderão estar a pesquisar na Internet o vocábulo «sonhático». Alguns pensarão que lhes escapou nos dicionários. Depois de uma intensa disputa interna, na quarta-feira passada, a ex-senadora brasileira Marina Silva abandonou o Partido Verde (PV), e no discurso de despedida afirmou: «Não é hora de ser pragmático, é hora de ser sonhático e agir pelos nossos sonhos.» Como quem diz «utópico», «sonhador». Se fica bem esta criatividade vocabular na boca de uma senadora/sonhadora brasileira, já seria improvável na boca de um político português, gente infinitamente mais cinzenta.

 

[Texto 275]

Helder Guégués às 17:59 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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09
Jul 11

Como se escreve nos jornais

Lapso significante

 

      E agora que leio aqui num texto que um juiz soubera de certo facto por inconfidência de pessoas da família ligadas a um inspector da PIDE, lembrei-me deste lapso (espero que o seja, e não convicção): «Mesmo assim, e cometo uma insignificante confidência, há uns dias confundiu o número de telefone e ouvi-a elencar o trabalho que ainda queria que o pintor fizesse em casa» («Conversa com limonada», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 29). Só prova que o jornalista é humano como nós e erra? Erro! Prova que não há revisão no jornal. Prova que só um par de olhos, os do próprio autor, viu o texto. Num jornal, não pode ser.  

 

 

[Texto 274]

Helder Guégués às 10:17 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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