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Jul 11

Léxico: «pipolização»

Ah... 

 

 

      Quase todos os dias sou surpreendido por neologismos — alguns, concluo depois, já com alguns anos de curso... Não se riam. Já conhecem o vocábulo «pipolização», por exemplo? Cá está. Há leitores, bem sei, que não conhecem nem querem conhecer, mas nós é que não podemos ter essa atitude assim tão descomprometida e alheada. É mera cópia, parece, do neologismo francês pipolization — que é a idolatria de celebridades ligadas à televisão, à música, ao futebol e mesmo à política, termo forjado a partir do nome da revista People.

 

[Texto 286]

Helder Guégués às 23:27 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Inglês

Vejam melhor 

 

 

      A propósito do erro na grafia de «maldisposto», comentava aqui Montexto: «Mas veja lá se os apanha com facilidade em falta na grafia das inúmeras palavras e expressões inglesas com que julgam enfeitar a sua prosa a propósito de tudo e de nada. Veja lá.» Bem, descortino, pelo menos, duas razões para isso não acontecer: eles escrevem, apesar de tudo, menos em inglês do que em português, e eu percebo menos de inglês do que de português. Ainda assim, alguns erros se vão vendo. Por exemplo, acabo agora mesmo de ler aqui num texto, do qual não posso identificar o autor, *Finantial Times, erro muito frequente.

 

 

[Texto 285]

Helder Guégués às 21:25 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução

Um achado, acho

 

 

      Encontrar a correspondência adequada de frases feitas, provérbios e idiomatismos entre duas línguas nem sempre é fácil ou possível. Acabo agora de ler esta frase numa obra em inglês: «They’ll put two and two together and get five.» O tradutor, que ainda não sei quem é, e logo que saiba prestar-lhe-ei aqui a devida homenagem, verteu assim: «São capazes de dizer que Deus não é Deus...»

 

 [Texto 284]

Helder Guégués às 17:19 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Ortografia: «maldisposto»

Nem a copiar, caramba

 

 

      «O dicionário de Inglês-Português reza assim: “Taciturno, melancólico, carrancudo, rabugento, mal-disposto, sorumbático.” Enfim, mal-humorado. Diz também que é um adjectivo. A expressão inglesa “to be moody” vem descodificada como “ter caprichos de comportamento. Por exemplo, apetecer a alguém atirar com tudo para o lixo. Se falarmos no nome próprio Moody’s (bastante adequado ao desempenho), percebe-se imediatamente a má disposição generalizada dos portugueses por estes dias. Alguns até padeceram de problema de estômago. Para “mal-humorado”, o dicionário de Português-Português regista as seguintes explicações: “Que tem humores mórbidos”, “agressivo”, “intratável”. Os “mal-dispostos” de que aqui se fala já em Abril tinham atirado para o “lixo” (grau de investimento equivalente a junk bonds) a Parpública, a Refer, a RTP e a CP» («Palavras. Moody», Rita Pimenta, Pública, 10.07.2011, p. 11).

      Que bons dicionários que a jornalista anda a consultar e que bem que ela conhece a ortografia da língua portuguesa.

      A propósito de maldispor e de dislates. Ainda na sexta-feira passada li uma convocatória redigida por uma professora de Português e um derivado de «pôr» tinha o infinitivo com acento circunflexo. Uma professora de Português! Quando é que aprendem de uma vez por todas, professores, jornalistas, tradutores, revisores, toda a agente, que, no infinitivo, o verbo pôr é acentuado, porque se convencionou distingui-lo da preposição por, mas os derivados de pôr já não são marcados com acento? Antepor, apor, compor, contrapor, contrapropor, decompor, depor, descompor, dispor, entrepor, impor, indispor, interpor, justapor, maldispor, opor, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobpor, sobrepor, sotopor, subpor, supor, transpor, etc.

 

 

[Texto 283]

Helder Guégués às 08:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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11
Jul 11

Sobre «verve»

Não brinque

 

 

      Foi na obra de Eça que aprendi, tenho a certeza, a palavra «verve». O vocábulo, que também veio de paquete do Havre, é polissémico: verve é entusiasmo e inspiração na criação artística; verve é a graça e a vivacidade características de uma pessoa; verve é sentimento de vida. Tudo isso é verve. O próprio Eça, o escritor, era animado de verve. Qual o meu espanto ao ler no Público, a propósito de Fernando Nobre, isto: «Lembram-se dos discursos cheios de verve contra os partidos, da apologia dos valores e do apelo à participação dos cidadãos na vida democrática?» Tirando aqueles deputados, muitíssimos, que chegam ao Parlamento guindados pelo caciquismo, tão vivaz agora como no século XIX, nulidades a quem, graças a Deus, jamais ouvimos uma frase, nunca mas nunca apareceu na vida política portuguesa alguém tão pouco fadado para falar em público como Fernando Nobre. Não vejo que qualquer das acepções do vocábulo tenha sido empregada com propriedade pelo autor do texto — mas disso já o ex-deputado médico não tem a culpa, antes o jornalista, que usa mal as palavras, que não lhes toma o peso.

 

[Texto 282]

Helder Guégués às 00:15 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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