14
Jul 11

Acordo Ortográfico

Eh lá, isso é muita coisa

 

 

      Na edição de hoje do Público, um mestre em Culturas e Literaturas Africanas e da Diáspora (diacho, isto há-de custar a enunciar quando se apresenta), António Jacinto Pascoal, que se apresenta como professor de Português e de Língua Portuguesa, falante e «usuário» da língua, escreve que tem acompanhado com muito interesse o debate sobre o Acordo Ortográfico. Termina assim o texto: «Tentando resumir o que penso: os defensores do AO não estão interessados em estabelecer qualquer tipo de acordo com a comunidade de falantes de que se reclamam e que inclui os falantes portugueses. Impõem-no e pronto. E a ele não subjaz qualquer motivação filantrópica ou supranacionalista. Não creio que seja por se unificar a língua que se vá acabar com os preconceitos em relação às pessoas dos outros países. O AO não nos tornará mais humanos, mais apaziguadores ou mais compreensivos, nem eliminará de nós a tentação de excluir. São necessários outros tipos de acordos, sobretudo os de mentalidades. Este resume-se a regras e a convenções gráficas (algumas risíveis) e, ainda por cima, desrespeita qualquer critério cientificamente razoável, como já ficou provado. Mas uma personagem de O Estrangeiro de Camus diz que “não há nada a que uma pessoa não se habitue”: até mesmo a um fundamentalismo grosseiro e autofágico» («O acordês e a glotofagia», Público, 14.07.2011, p. 36).

      Quem é que apresentou o Acordo Ortográfico de 1990 capaz de concitar tantas e tais virtudes? Se já é suficientemente mau, não vale a pena deturpá-lo e, de forma ingénua, esperar dele o que ele nunca poderia, cientificamente perfeito que fosse, dar. Por esse caminho argumentativo, estão a meio passo de afirmar que o Acordo Ortográfico é tão mau que não resolve o problema do défice.

 

 

[Texto 303]

Helder Guégués às 14:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Menente»

Agradecíamos

 

 

      Há por aí algum micalense? Um são-miguelense também serve... Escreve hoje José Medeiros Ferreira no blogue Córtex Frontal: «A pré-época futebolística normalmente deixa-me indiferente. Mas a insistência com que os resultados do SLB na Suiça [sic] são explicados pelos erros da defesa deixa-me “menente”, como se diz em S. Miguel. Bastava ter visto parte dos jogos com o Servette e o Dijon para se perceber que o problema residiu no facto da equipa ter perdido a bola a meio-campo. E sem meio campo [sic] não há defesa nem ataque...» («Preocupações de um benfiquista»).

      Não será o caso, mas, muitas vezes, o problema com os regionalismos é a sua grafia, que, não estando fixada, é variada e caprichosa. Alguém sabe o que significa «menente»?

  

[Texto 302]

Helder Guégués às 12:37 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Sobre «anoréxico»

Menos dogmatismo

 

 

      «A resposta correcta é “anoréxica”. É verdade. Das três palavrinhas que se acabou de enunciar, “anoréxica”, “encetar” e “síndroma”, a primeira, que se encontra na alínea a), é a que não está atestada nos nossos dicionários. E porquê? Porque, ao substantivo “anorexia” nós temos, aliás… para, para o substantivo “anorexia”, nós temos o adjectivo correspondente, que é “anoréctico” no masculino, “anoréctica” no feminino. Já agora, vou levantar o véu sobre o novo acordo, qualquer dia temos que começar a falar do novo acordo e trazer umas questões sobre o novo acordo aqui para o nosso Jogo da Língua. Muitas dúvidas. “Anoréctico”, “anoréctica”, de acordo, conforme o novo acordo, já não se escreve com c, porque não articulamos o c. De todo o modo, o adjectivo é “anoréctico” ou “anoréctica”, nunca “anoréxica”, nunca. A confusão vem de “anorexia”. Alínea b), o verbo “encetar” existe, significa “estrear”. “Encetar o bolo”, por exemplo, “cortar o bolo pela primeira vez”. E “síndroma” existe, claro, a par de “síndrome”, palavra esdrúxula com acento agudo no i. Portanto, alínea a) é a resposta correcta. “Anoréxica” é a forma, a palavrinha que não existe em português» (Jogo da Língua, Sandra Duarte Tavares. Antena 1, 12.07.2011).

      O raciocínio de Sandra Duarte Tavares é linear, simplista e errado — o vocábulo não está atestado nos dicionários, logo não existe. Podia ficar por aqui, mas ainda acrescento isto: à semelhança dos pares disléctico/disléxico, torácico/toráxico e outros, os termos do par anoréctico/anoréxico não se distinguem pela maior legitimidade de um em relação ao outro, mas tão-somente por o primeiro o termos recebido e o segundo se ter formado na nossa própria língua.

 

 

[Texto 301]

Helder Guégués às 07:12 | comentar | ver comentários (12) | favorito
14
Jul 11

«Às mil maravilhas»

Mais um holicismo?

 

 

      «Elles riaient et visiblement s’entendaient à merveille.» O tradutor verteu como seria de esperar e está correcto: «Riam-se e era visível que se entendiam às mil maravilhas.» Em francês é, como se vê, à merveille; em castelhano, a maravilla. Escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Esquece-se, às vezes, que a correspondência formal não acompanha a correspondência semântica. Direi, pois, em parêntese, que o castelhano a maravilla traduz o francês à merveille, enquanto à las mil maravillas traduz em bom castelhano o fr. à ravir, em bom português às mil maravilhas» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 26). À maravilha, em português, é arcaísmo que não valerá a pena fazer revivescer.

 

[Texto 300] 

Helder Guégués às 00:09 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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