15
Jul 11

Tradução: «finasser»

Rústico e esperto

 

 

      Visitou-a em casa porque lhe queria comprar um terreno encravado (e por isso dito encrave ou enclave) na propriedade dele. Vendo, porém, no decurso da conversa, que as negociações iam sair goradas, «il se mit à finasser», «pôs-se a armar em fino», escreveu o tradutor. Parece-me o cruzamento de duas expressões: fazer-se fino e armar em esperto. Aliás, fazer-se fino significa isso mesmo: armar-se em esperto, usar de manha. Com efeito, em francês, finasser é «user, dans une tractation, de finesses, de roueries, en vue de se procurer un avantage ou d’esquiver un désavantage».

 

[Texto 307]

Helder Guégués às 19:30 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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«A fim de/afim»

Jogo nisso

 

 

      Hoje, no Jogo da Língua, um jovialíssimo cirurgião quis expor-se no pelourinho. «Numa democracia, é essencial manter um ambiente de liberdade de informação, a fim de exercer o nosso direito de cidadania.» Uma palavra só ou duas?

      «Não sendo um linguista, eu aposto no “afim” tudo junto. Mas parece-me que é mesmo assim, tudo junto, é. Jogo nisso.» Sim, é triste um médico não saber que, no contexto, é a locução prepositiva a fim de (com intenção ou vontade de; para) que se tem de usar. Contudo, pior é, como já tenho visto, este erro vir de professores universitários, tradutores e jornalistas.

      «A nossa especialista em língua portuguesa» lá disse que era «com duas palavrinhas», embora, a propósito de «afim», tenha confundido «idêntico» com «semelhante» e errado ao afirmar que «afim» era adjectivo.

 

[Texto 306] 

Helder Guégués às 19:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Traduzir/aportuguesar»

How to fix it

 

 

      «Numa dessas palestras apareceu um académico inglês, rápido, bem-humorado. A sala rendeu-se. Simon Hix apresentou o livro que estava a escrever e pedia comentários. O livro foi publicado no ano seguinte com o título que vou toscamente aportuguesar: “O que está errado na União Europeia e como resolvê-lo”» («As duas crises», Pedro Lomba, Público, 14.07.2011, p. 40).

      Percebemos, claro, a afinidade dos conceitos — mas traduzir não é aportuguesar. O título What’s Wrong With the European Union and How to Fix It só pode ser traduzido, não aportuguesado.

 

[Texto 305]

Helder Guégués às 09:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Jul 11

«Concertinas diplomáticas»?

 

 Talvez só o autor                               

 

      «Um Presidente da Comissão Europeia escolhido deste modo perderia o seu estatuto de alto-funcionário dos governos e deixaria de emanar das concertinas diplomáticas» («As duas crises», Pedro Lomba, Público, 14.07.2011, p. 40).

      Desconhecia a expressão «concertina diplomática». A pergunta que se impõe é: alguém a conhecia já? Conheço, sim, a expressão «concerto diplomático». Consultei, porque nunca me poupo a esforços, doze dicionários da língua portuguesa. Nada. «Concertina» apenas tem duas acepções: o instrumento musical do grupo dos acordeões e, decerto por analogia, o obstáculo defensivo formado por espirais de arame farpado (como na imagem acima).

 

[Texto 304]

Helder Guégués às 08:35 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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