18
Jul 11

Linguagem

A proscrita & etc.

 

 

      Um leitor, Rui Almeida, ouviu na edição de hoje do Primeiro Jornal da SIC a seguinte frase, proferida pelo jornalista Bento Rodrigues: «As autoridades de saúde querem racionar o uso de antibióticos» (minuto 15.17). Argumenta o leitor: «Ora, pelo que percebo da definição que leio no Houaiss, não faz sentido que “o uso” seja racionado, mas sim os medicamentos.» Uns segundos depois, numa reportagem incluída na mesma notícia, ouviu a voz off de outra jornalista dizer: «As orientações da Direcção-Geral de Saúde [DGS] para hospitais, centros de saúde e centros de cuidados continuados são bem claras: muito em breve, vão ser criadas comissões para definir e regular a proscrição de antibióticos, bem como para decidir sobre medicamentos a incluir, excluir ou restringir no formulário de cada instituição» (15.48). Como a jornalista voltou a dizer «proscrição», só podemos conceber que seja ignorância.

      Quanto à primeira questão: uma das acepções do Dicionário Houaiss é precisamente essa: «usar ou consumir com moderação; poupar». E o exemplo: «A família passou a racionar o uso da luz eléctrica porque a conta foi alta.» Também me parece mais lógico dizer que se «raciona um bem» e se «racionaliza o uso de um bem», mas, não apenas a língua, como já temos visto, nem sempre é essa construção lógica que alguns queriam, como, através de certos tropos, o que se afirma comummente de algo pode afirmar-se de outra realidade relacionada.

 

 

[Texto 317]

Helder Guégués às 23:08 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Linguagem

A praiar e a pensar

 

 

      Da praia, onde se encontra, um leitor envia-me por iPad uma frase que encontrou numa obra, segundo afirma, de uma editora de prestígio e de um tradutor considerado: «A violência dos manifestantes dirigiu-se quase exclusivamente contra si próprios.» Ainda aventei a hipótese de se tratar da voz activa. Que não, volveu-me. Há um erro de concordância entre «a violência» e «si próprios». Não será aquela questão, para a qual Montexto nos tem chamado reiteradas vezes a atenção, de «a si próprio, a si próprios, a ti próprio, a mim próprio, a nós próprios, a vós próprios»? E não ficaria melhor assim: «Os manifestantes dirigiram a violência quase exclusivamente contra si próprios»? Está aberto o fórum.

 

[Texto 316]

 

Helder Guégués às 17:56 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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Léxico: «contrónimo»

Ou bissémico

 

 

      O exemplo clássico é o verbo «arrendar»: estamos a falar de dar ou de tomar de arrendamento? Na oralidade, numa conversa, o equívoco facilmente se pode desfazer. Na escrita, pode permanecer. A estas palavras ou locuções que englobam, na sua polissemia, sentidos antagónicos segundo o contexto em que são empregadas dá-se o nome de contrónimo, do neologismo inglês contronym. É termo usado apenas em obras académicas, como uma tese de doutoramento que tenho à minha frente.

 

 

[Texto 315] 

Helder Guégués às 17:40 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Etnónimos e glossónimos

Um forrobodó

 

 

      «O “forró”, também conhecido por “arrasta-pé”, “bate-pé”, e “fobó”, é hoje dançado em todo o Brasil, mas inicialmente “forró” nasceu da simplificação da palavra “forrobodó”, que, segundo os etimologistas e estudiosos da língua, é um termo africano, da língua banto, usado pelos escravos do Brasil para designar quer a música quer as danças que praticavam. “Forrobodó” corresponderia assim a uma onomatopeia, uma palavra formada por imitação de um som, sendo que neste caso “forrobodó” seria o correspondente ao som do arrastar dos pés» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 18.07.2011).

      Já aqui escrevi que um clássico da excelsitude de Vieira adoptou sempre a forma do plural nos nomes de tribos ou grupos indígenas. O mesmo devemos fazer com a designação das línguas, os glossónimos, desses povos. No dicionário de Cândido de Figueiredo, no verbete do vocábulo «sechuana», mas vejo o mesmo noutros, lê-se «língua banta», não «língua banto». São, possivelmente, reflexos indesejados de uma convenção: «Por convenção internacional de etnólogos, está há anos acertado que, em trabalhos científicos, os etnônimos que não sejam de origem vernácula ou nos quais não haja elementos vernáculos não são alterados na forma plural, sendo a flexão indicada pelo artigo plural: os tupi, os nambiquara, os caiuá, os tapirapé, os bântu, os somali, etc.» (Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 37.ª ed., 2002, p. 129).

 

[Texto 314]

 

 

Helder Guégués às 16:54 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «presidenticídio»

Metam-se com ele

 

 

      Já foi há cinco anos, mas alguns lembrar-se-ão de que fiz aqui uma lista dos vocábulos portugueses que contêm o elemento -cídio. Mas eis que leio aqui, e numa obra que revela um autor com um grande conhecimento da língua, «onda de regicídios e presidenticídios das últimas décadas do século XIX». Como não está dicionarizado, «a nossa especialista em língua portuguesa» diria que não existe... Rui Barbosa, porém, não tinha a mesma opinião.

 

[Texto 313]

Helder Guégués às 14:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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18
Jul 11

Sobre «tácito»

Vogar e ciar

 

 

      Não se diz que o silêncio é de ouro e muitas vezes é resposta? Tácito é, ainda que, no caso da língua portuguesa, seja raríssimo nesta acepção, calado, silencioso. (Na Eneida, navega-se «com os tácitos remos», isto é, voga surda, calada do remo.) Interessante é ver como, deste sentido, passou também a significar o que não é preciso dizer por estar implícito ou subentendido, o que não é expresso abertamente mas que facilmente se pode intuir. A própria lei fazer decorrer efeitos do silêncio. E, claro, também temos o silêncio significativo.

 

[Texto 312] 

Helder Guégués às 14:35 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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