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Jul 11

Como se escreve nos jornais

Procure-se no inglês

 

 

      «“É claro que lamento e sinto profundamente todo o furor que isto causou. Se soubesse tudo o que sei hoje, não lhe teria oferecido o trabalho”, respondeu o primeiro-ministro face à barragem de perguntas vindas da bancada da oposição (ao todo foram 136 questões, num debate que se arrastou por mais de duas horas)» («Miliband acusa Cameron de meio arrependimento», Ana Fonseca Pereira, Público, 21.07.2011, p. 12).

      É claro que já tenho ouvido a expressão destacada — mas isto é mesmo português? Não haverá em inglês qualquer coisa como barrage of questions, por exemplo?

 

 

[Texto 330]

Helder Guégués às 11:04 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «optimate»

Coincidências

 

 

      Mais uma das tais coincidências: até há um mês, não conhecia o termo «optimate», que li numa tradução do inglês e julgava um latinismo, a exigir itálico. Mas não: está dicionarizado. Optimate é, na república romana, o membro da aristocracia. Ao conjunto dos optimates dava-se o nome de optimacia. Hoje, numa obra portuguesa, vejo de novo o vocábulo, mas desta vez usado, de facto, como latinismo.

 

[Texto 329]

Helder Guégués às 10:42 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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Léxico: «narcolepsia»

Seis milhões de doses  

                                     

      «Há mesmo uma relação entre a vacina contra o vírus da gripe A (H1N1) usada em Portugal e o aumento de casos de narcolepsia em crianças e adolescentes, reconheceu ontem a Agência Europeia do Medicamento. Assim, a organização recomenda que esta vacina não seja dada a menores [de] 20 anos. No nosso País foi registado um caso desta doença rara, que faz com que o doente adormeça inesperadamente» («Vacina da gripe A fez aumentar narcolepsia», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 21.07.2011, p. 15).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se regista «narcolepsia», não regista, como fazem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário Houaiss, por exemplo, «narcoléptico». É mais um erro.

 

[Texto 328]

Helder Guégués às 10:23 | comentar | favorito
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22
Jul 11

Legendagem/dobragem

Pelo menos três

 

 

      Três canais de televisão por cabo, o História, o Bio e o Odisseia, vão deixar de ser dobrados em português. Apesar de em Portugal termos quase um milhão de analfabetos, não me parece mal, como já mais de uma vez o afirmei. É que suspeito que poucos deste quase milhão terão acesso frequente aos canais por cabo. Por outro lado, os que sabem ler mais ou menos e vêem estes canais sempre são obrigados a ler um pouco mais. Quando aqui tratei na última vez desta questão e lamentei o péssimo trabalho que estava a ser feito também pelos actores (aderindo, aliás, à opinião de Miguel Esteves Cardoso numa crónica), respondeu-me o leitor Al Martin: «Quero crer que os que emprestam suas vozes para dobragens não sejam, nem de longe, responsáveis pelos diálogos.» Nem eu tinha afirmado o contrário — mas se tivessem alguma sensibilidade e responsabilidade, sugeriam, melhoravam, desviavam-se do guião. Suspeito até que ninguém daria por isso. Não é apenas aos militares nazis que a fungibilidade fica mal.

     Qual a justificação para esta alteração dada pela empresa distribuidora? «A própria vontade dos telespectadores lusos, que preferem as legendas às locuções», diz Eduardo Zulueta, director-geral da Chello Multicanal, a distribuidora. Pode ser verdade, até porque «no país de nuestros hermanos, o Bio, o Odisseia e o História vão manter as dobragens. “Os espectadores espanhóis rejeitam as versões originais. O mercado português é distinto, é tradicionalmente pautado pela legendagem”» («Canais deixam de falar português», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 21.07.2011, p. 48). «Mas essa não é a única razão» para a alteração. «“Por outro lado, pretende-se garantir uma melhoria de qualidade e rigor nos conteúdos emitidos”, sublinha o responsável.» Estoutra razão é que já me parece ser areia para os nossos olhos. Com a dobragem não era possível melhorar a qualidade?

 

[Texto 327]

Helder Guégués às 08:33 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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