28
Jul 11

Léxico: «abatis(es)»

Mais para trás  

 

 

      «Uma das técnicas utilizadas pelos guerrilheiros para dificultar o avanço das tropas portuguesas era derrubar árvores sobre picadas, os abatises» (Guerra Colonial: um repórter em Angola, Carlos de Matos Gomes e Fernando Farina. Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 55).

      Palavra quimbunda? Ná. Portuguesa, importada de França: de abatis (ou abbatis), «obstacle artificiel formé d’arbres abattus». É, com mais rigor, o obstáculo defensivo feito de troncos e galhos aguçados de árvores abatidas, destinado a dificultar o avanço do inimigo. Para o Dicionário Houaiss, o primeiro registo na língua é de meados do século XIX, erro óbvio que atribuo à variante antiga do vocábulo ser «abatiz(es)». Assim, talvez «abatis» tenha sido usado pela primeira vez no século XIX, mas encontraremos «abatiz» uns bons séculos atrás. Não raro, a intuição anda muito longe da academia...

 

 

[Texto 353] 

Helder Guégués às 23:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Etimologia: «britânico»

Nem eles saberão

 

 

      Li algures, não sei onde: «The Britons (meaning ‘painted ones’, as they painted themselves blue) fought in the sea to prevent the landing, accompanied by huge dogs.» Sabia, caro Francisco Agarez? Bem, mas isto não nos interessa muito: somos «lusos», como os jornais gratuitos não se cansam de nos lembrar. Recebemos o vocábulo «britânico» do latim, britannĭcus.

 

 [Texto 352] 

Helder Guégués às 19:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Concordância

Ora toma: verbo identificacional

 

 

      Filomena Crespo não se conteve: «Isto hoje não é difícil. Pode baralhá-la um bocadinho, mas não é difícil.» «Qual destas frases é que está gramaticalmente correcta? «a) O que o turista pretende é apenas informações. b) O que o turista pretende são apenas informações.»

      «Dra. Sandra, ajude-nos lá nesta resposta. Será que está correcta, não está correcta...» «A frase correcta é a frase B: “O que o turista pretende são apenas informações.” No nosso Jogo da Língua de hoje, mais uma questão sintáctica. Regra geral, o predicado concorda com o sujeito. Portanto, o sujeito desencadeia a concordância verbal. Mas quando nós estamos perante o verbo “ser” identificacional, que é o caso, há uma regra sintáctica da língua que diz: o sujeito concorda com o elemento... o verbo, aliás, o verbo “ser” vai para o plural se houver um elemento no plural, mesmo que seja o predicativo do sujeito, que é o caso. “Informações” não é o sujeito da frase. “Informações” é o predicativo do sujeito. Mas como estamos perante o verbo “ser” identificacional, o verbo ser vai concordar, neste caso é uma excepção na língua, concorda com o predicativo do sujeito. Querem mais exemplos? “A vida não são rosas” e não “a vida não é rosas”. “A vida”, que é o sujeito, perde aí o... o... autoridade sobre a concordância. “A vida não são rosas.” “O casamento não são rosas”. “O que o turista pretende são informações.” Alínea b).»

      Não há unanimidade em relação a esta questão, apesar do que possa parecer. Queiram ver as páginas 22 e 23 da Sintaxe Histórica, aqui ao lado, e as páginas 558 e seguintes da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 37.ª ed., 2002).

 

[Texto 351] 

Helder Guégués às 16:06 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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28
Jul 11

«Deduzir acusação»

Induzir o parto

 

 

      «Resta ao Ministério Público “valorizar esses mesmos indícios e induzir a acusação ou, então, optar por arquivar o processo”. A actriz, que “não deverá ser ouvida pela PJ mais nenhuma vez”, vai agora ter de esperar “poucas semanas até que o processo esteja totalmente concluído”» («Sónia Brazão foi constituída arguida por crime de explosão», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 48).

      Então não é deduzir acusação, isto é, propor em juízo, que se diz? Quem sabe se a «fonte da PJ» não foi um porteiro. A locução de uso jurídico fez-me lembrar o comentário do leitor C. Ferreira a propósito do espúrio «colocar em perigo»: «Esta última locução tem, aliás, consagração normativa,  v.g. no Código Penal, pelo que o seu uso pelo advogado referido não será despropositado.» Talvez tenha razão neste ponto, mas não apenas a lei «consagra» outras formas espúrias, como «implementação» e quejandos, como quem diz «colocar em perigo» também dirá «colocar o dedo no nariz», «colocar em fuga» e mais algumas dezenas de idiomatismos assim barbaramente desfigurados.

 

 

[Texto 350] 

Helder Guégués às 08:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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