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Linguagista

Regência: «precisar»

Apesar de Camilo e de Bocage

 

 

      A autora quis que a frase ficasse sem a preposição, porque, alegava, com preposição era, tinha aprendido, errado se se lhe seguia um verbo no infinitivo, mas já não quando seguido de substantivo ou pronome. «E então, *** despediu-se com o pretexto de que precisava urgentemente beber água.»  O Dicionário Houaiss resume bem, creio, a questão: «Na actual norma portuguesa da língua, este verbo, quando na acep. de ‘ter necessidade de’, pede objecto indirecto; há, porém, bom número de abonações de autores portugueses clássicos, como Camilo e Bocage, que o empregaram com transitividade directa; na verdade, na língua, a regência deste verbo oscila entre uma coisa e outra, com peso maior para o objecto indirecto, tanto no Brasil como em Portugal, excepto quando a ele se segue outro verbo no infinitivo, caso em que, em Portugal, se usa sempre seguido de preposição (preciso de fazer, precisava de sair, precisou de se explicar), enquanto, no Brasil, tal emprego tem vindo a rarear (preciso fazer, precisava sair, precisou explicar-se).»

 

[Texto 388] 

Sobre «motim»

Talvez tenha razão, Sr.ª Abbott

 

 

      «A palavra motins não é correcta para descrever os saques na Inglaterra. Anteontem a BBC ralhou com Diane Abbott, a deputada por Hackney North e Stoke Newington, por ter falado em “pilhagens recreativas”. Abbott, uma mulher desde sempre de esquerda, defendeu-se bem, dizendo que a pilhagem era roubo e tanto a pilhagem como o roubo eram crimes. A pilhagem era recreativa — não só porque dava lucro e prazer, mas, sobretudo, porque nada tinha de sério ou de político, no sentido altruísta e, por conseguinte, ideológico» («Uma questão de tempo», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.08.2011, p. 31).

      Por coincidência, ao ouvir hoje, mais uma vez, a palavra num noticiário da Antena 1, também me pus a reflectir se está a ser usada com propriedade neste caso. Mas talvez, pois motim é, como se lê, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «rebelião, geralmente organizada, contra a autoridade estabelecida, tumulto popular, sublevação, revolta, arruaça».

 

 

[Texto 387]

Léxico: «claustrim»

Novidades e coisas velhas

 

 

      Lê-se na página na Internet da RTP que «o Museu Nacional do Azulejo [o MNAz, lê-se por aí] dedica um programa à “multiculturalidade”, que vai desde uma visita orientada ao azulejo como “reflexo multicultural”, às 18h30, passando por um “recital dos oceanos” no claustrim, às 19:45, seguindo-se uma “missa criolla” composta pelo argentino Ariel Ramirez (1921-2010) na Igreja da Madre Deus, às 21:00, e finalmente uma noite de fado de Lisboa e de Coimbra no Jardim de Inverno, às 22:15». (Misa Criolla, na verdade, composta na década de 1960, quando o Concílio Vaticano II passou a permitir a celebração da missa em vernáculo. E Ramírez é assim que se escreve.)

      Não está registada em nenhum dicionário — mais uma —, mas está correcto: é um claustro pequeno. Com recurso ao sufixo –im, formámos outros, poucos, vocábulos, como cornetim, espadim, farolim, flautim, fortim...

 

 

[Texto 386]