17
Ago 11

Acordo Ortográfico

Os princípios da novilíngua

 

 

      O professor António Jacinto Pascoal continua a escrever sobre a língua e especialmente sobre o Acordo Ortográfico no Público. Extracto a parte mais atinente à matéria que nos interessa: «3. A novilíngua instala-se gradualmente no quotidiano português. A RTP continua a promover um serviço gratuito ao Acordo Ortográfico (AO) num registo medíocre, ao jeito da vox populi. Não bastava que os portugueses fossem confrontados com os ardis da Língua: agora são confrontados com as teias do AO. Antes de saberem as regras, já entraram no jogo.

      Um dos princípios da novilíngua é simples: se as palavras consideradas difíceis deixarem de existir, os alunos deixarão de sentir dificuldades, porque não terão palavras para dar erros. Poderão, no máximo, dar erros de concordância ou de impropriedade lexical, mas não conseguirão ir mais longe, porque não têm palavras que o permitam.

      Em vez de sermos nós a adaptarmo-nos à língua é ela que tem de se adaptar à nossa inabilidade, pelo que a roupagem etimológica perderá para a fonológica (depois da piada da dobrada “conosco”, não se vai por certo caminhar para analogias fala/grafia, sobrepondo til ao “i” de “muito”). De resto, o grupo B, citamos, prevê que as novas palavras sejam simplificadas para formar um novo vocábulo de fácil, extremamente fácil, pronunciação. Deixa de existir uma forma etimológica nestas construções, pois o importante é que sejam fáceis de articular e escrever, como “duplipensar”. Todavia os arautos do AO terão a sua convicção, o que é de respeitar. Terão agora de nos convencer, com o tempo, de que esta foi a melhor opção.

      Neste último “Santos Neves” (PÚBLICO, 09/08/2011), lê-se o resquício de neocolonialismo no receio de que a Língua Portuguesa possa permitir a congénere brasileira. Além de delírio que não colhe, parece mero argumento “político-estratégico” e tardo-patriótico, tudo menos amparo da Língua. Isto é: insinuou-se que os oponentes ao AO eram antibrasileiros; agora vê-se como os seus defensores olham o Brasil. Quando o Brasil nada tem a ver com isto. E risível só mesmo o facto de ser este acordo aquilo que salvará a nossa língua do nada.

      Apelidar de “retardatários históricos” a quem resiste ao AO não é indecente – é feio. Antes de começarmos todos a invectivarmo-nos, lembro que podemos entrar em terreno estéril e começar a discutir minudências e outras derivações. Até aqui reinou a lucidez. Mantemo-la, usando a voz da paz. E não faltemos todos ao apelo da história» («Tempos gloriosos para a Língua», Público, 17.08.2011, p. 29).

 

[Texto 407] 

Helder Guégués às 22:23 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Acordo Ortográfico

Disparada e célere

 

 

      A conta está incompleta, mas leiam a resposta de José Mário Costa ao infeliz texto do tal «subscritor da Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do AO90»: «Tão certo como 2+24, lá veio disparada e célere, a réplica anti-AO ao artigo pró-AO de Fernando Santos Neves (“Onze teses contra os inimigos do Acordo Ortográfico”, PÚBLICO, 9/8). Tão certo quanto o livre-trânsito de uma tribuna reservada a uma campanha como nunca este jornal se prestou nos seus 15 anos de vida, sobre e contra o que quer que fosse. Mas, está visto, para o país e os portugueses, nem o “lixo” para que foram atirados nestes tempos de desenfreada ofensiva da especulação financeira se compara às malfeitorias do Acordo Ortográfico! E, está visto também, nem o facto adquirido, devidamente ratificado, da aplicação das novas regras ortográficas no ensino básico e secundário, já em Setembro, e no restante aparelho de Estado em Janeiro – já para não falar das “n” entidades que já a seguem –, entra pelos olhos dos retardatários municiadores da campanha anti-AO. Ainda por cima, com o mesmo argumentário de sempre, reciclado entre os mesmos três ou quatro de plantão do costume.

      É o caso do último (“Acordo Ortográfico: o que importa, agora, é rejeitá-lo de vez”, Rui Valente, PÚBLICO, 13/8), identificado como “subscritor da Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do AO90”, que escreve a seguinte enormidade: “Diz Fernando dos Santos Neves que o AO é apenas um Acordo sobre a ortografia ‘e não um Acordo sobre o vocabulário, a sintaxe, a pronúncia, a literatura e tudo o resto’. Não é um Acordo sobre o vocabulário?! Não prevê o AO ‘um vocabulário ortográfico comum da língua, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível’ – o qual, diga-se de passagem, ainda não existe?”

      Primeiro, qualquer dicionário, vulgar de Lineu, esclarecerá quem não sabe (!) do que trata especificamente um vocabulário, e escreveu o que escreveu. Segundo, e sobre o previsto, e tão necessário, vocabulário comum: ora, aí está um dos méritos deste AO, envolvendo os oito países lusófonos. Graças ao qual, já agora, passámos a ter em Portugal, enfim, não um vocabulário ultrapassadíssimo e esgotadíssimo, de 40 mil entradas, o de Rebelo Gonçalves, mas dois – um dos quais, o do ILTEC, graciosamente disponível no Portal da Língua, com mais de 200 mil entradas» («Enormidades à conta do anti-AO», José Mário Costa, in «Cartas à Directora», Público, 17.08.2011, p. 30).

 

[Texto 406]

Helder Guégués às 22:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Contracção da preposição «de»

Pelo menos três

 

 

      «Assim se criam espectadores à força, a baixo preço e com grande custo pessoal para cada um deles. A GNR imobiliza-nos e nós, forçosamente parados e aborrecidos ao ponto da morte, somos os idiotas à beira das estradas, a bater palmas só na esperança da liberdade nos ser restituída» («Na Volta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 17.08.2011, p. 31).

      Miguel Esteves Cardoso não «descontraiu» ali na última frase, e pelo menos três pessoas ficaram arreliadas: eu, Montexto e a «nossa especialista em língua portuguesa». Já sabem, porque eu já o escrevi duas vezes, que a Vasco Botelho de Amaral isto não aquecia nem arrefecia.

 

 

[Texto 405]

 

Helder Guégués às 21:52 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Eventualmente/eventually»

Se não é...

 

 

      «Somos sempre encurralados. O ano passado, estávamos nós a almoçar bem no Café das Patrícias nas Azenhas do Mar e, de repente, começaram a aparecer motas, automóveis e, eventualmente, num lampejo que perderia quem pestanejasse, o pobre pelotão de seres em cima de bicicletas. Este ano, em Galamares, íamos nós à procura de um almoço que não nos causasse desgosto, fomos coagidos por uma patrulha Hell’s Angels de motoqueiros de megafone da GNR que nos obrigou a encostar-nos e a asssistirmos [sic] à ridícula corrida, com a totalitária ordem: “Encoste na berma! Aguarde!”» («Na Volta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 17.08.2011, p. 31).

      Estou a ver mal ou aquele «eventualmente» é, cuspido e escarrado, o inglês eventually? Não quereria Miguel Esteves Cardoso escrever «por fim», «finalmente»?

 

[Texto 404]

Helder Guégués às 21:30 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Oh/ó

É uma subclasse ininvocável

 

 

      «Estão a ver aquelas pessoas, ditas espectadoras, plantadas à beira da estrada quando passam os ciclistas da Volta a Portugal? Acaso o leitor seja uma delas saberá, com o refluxo ácido da relembrança, que não estão ali porque querem. Ó não. Anteontem foi a décima e última etapa da Volta, que vai de Sintra até Lisboa. Não sei por que carga de castigos, desde que viemos viver para Colares, temos sido sempre apanhados e obrigados, ano após ano e contra as nossas claras vontades, a assistir à passagem dos ciclistas pela nossa terra, por muito remotos que sejam os locais onde procuramos esconder-nos deles» («Na Volta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 17.08.2011, p. 31).

      Oh, não, Miguel Esteves Cardoso decidiu invocar o advérbio de negação!

 

[Texto 403] 

Helder Guégués às 21:19 | comentar | ver comentários (5) | favorito
17
Ago 11

Léxico: «pirete»

Malcriados

 

 

      «If you look really closely you can see the outline of my friend ***’s middle finger flipping them all the bird.» «Se olhares com atenção, vê-se lá a silhueta do dedo do meio do meu amigo *** a fazer-lhes um pirete a todos.»

      Bem, é mais um termo que não conhecia. E o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não conhece. Aproxima-se: «pilrete», «um homem muito pequeno, homúnculo; criança vivaz». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista-o: «Gesto obsceno que consiste em esticar o dedo médio da mão e encolher os outros.» É termo popular (do Norte?).

      «Faço-lhe um adeus com a mãozinha e na mãozinha um pirete como mandam as regras. Agora percebeu, o sacana, percebeu, o filho de um grande comboio de xandras — lá está ele a fazer-me um adeus igual ao meu, mãozinha e tudo, e pirete!» (Walt ou o Frio e o Quente, Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Bertrand Editora, 1979, p. 30).

 

 

[Texto 402] 

 

Helder Guégués às 10:54 | comentar | favorito
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