16
Set 11

«Há séculos atrás»

Lamento

 

 

      «Por muito que se goste de chorar o passado ou preferir o presente, a História demonstra, em traços largos, que o futuro é sempre melhor para a maioria das pessoas. A sensação do dia-a-dia de estar tudo cada vez pior perde sempre quando é comparada com as condições há apenas um século atrás. Nem é preciso recuar no tempo — basta ver a facilidade com que se morre nos países muito mais pobres do que o nosso, que são muito mais do que metade dos que existem. Nos mais pobres, a expectativa média de vida é igual à nossa há dois séculos atrás» («A hora e o ano», Miguel Esteves Cardoso, Público, 16.09.2011, p. 41).

      Uma vez já seria grave — mas duas e logo no mesmo parágrafo? Pouca gente actualmente resiste ao modismo — e erro, pois que, ao empregar-se o verbo haver com expressões de tempo, não deverá incluir-se nunca o advérbio atrás.

 

 

[Texto 487] 

Helder Guégués às 23:03 | comentar | favorito
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«Nom de voisinage»

Das Antilhas

 

 

      Ora aqui está algo curioso. Nas Antilhas (apenas?), os indivíduos têm um nom de voisinage, um nome dado pela comunidade mais próxima onde vivem, duplo essencial de todo o nome oficial. Numa tradução, porém, deveremos traduzir à letra — «nome de vizinhança» — ou procurar uma melhor correspondência? E alcunha, serviria?

 

[Texto 486]

Helder Guégués às 21:32 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Flamenco/flamengo»

Depende, não é?

 

 

      «A mestiçagem cultural pode ser criativa. Tomemos um exemplo que me apraz particularmente: o flamengo. Eis uma música que expressa a alma do povo cigano, uma música simbiótica, enriquecida pelas suas influências indiana, árabe, judia, celta... fundidas num som original.»

      O leitor Rui Almeida acabou de ler este excerto na página 17 da obra Como Viver em Tempo de Crise?, «um conjunto de dois textos», escreve-me, «um de Edgar Morin e outro de Patrick Viveret, traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (Junho de 2011). A julgar por uma referência que encontrei online, o termo usado por Morin no original é “flamenco”. Consultados os dicionários cá de casa, não tenho dúvidas de que o tradutor confunde uma dança com uma língua (ou será com um queijo?...).»

      Creio já ter escrito sobre esta confusão. Mas será mesmo confusão? A julgar pela maioria dos dicionários, assim é. Consulto, porém, um dicionário publicado no Brasil — onde, como decerto saberão, se fala português —, o Dicionário de Termos e Expressões da Música, de Henrique Autran Dourado (São Paulo: Editora 34, 2008, 2.ª ed., p. 132), e vejo que o autor considera que a música e a dança da Andaluzia se chamam, indiferentemente, flamenco, flamengo ou flamingo.

 

[Texto 485] 

Helder Guégués às 19:39 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Eu saibo»

Porque eu saibo-te a pouco

 

 

      O empregado de uma empresa têxtil (hum...) errou: «A 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo saber com o significado de ter o sabor ou gosto de é “sei”, ou “saibo”, ou não existe essa forma verbal?» «A resposta correcta é “eu saibo”. Ora, o verbo saber, como os nossos caríssimos ouvintes sabem, pode significar duas coisas. É um verbo que tem dois significados. Ou ter conhecimento ou ter sabor. É curioso que no paradigma de conjugação deste verbo, só nesta 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo é que nós temos diferença nas formas. Se se trata de ter sabor, se se trata de ter conhecimento. Se for ter conhecimento, como nós sabemos, a forma que corresponde à 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo é “eu sei”. Se for o saber de ter sabor, é efectivamente “eu saibo”. “Eu saibo” é a forma do presente do indicativo do verbo saber com o significado de ter sabor» (Sandra Duarte Tavares, Jogo da Língua. Antena 1, 16.09.2011).

      Perante a estranheza, a absoluta anomalia desta forma verbal, faltou dizer o principal: que se formou por analogia com caibo, do verbo «caber».

 

[Texto 484] 

Helder Guégués às 15:11 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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Como se fala por aí

Sonhos inarticulados

 

 

      Catarina Furtado foi fazer uma reportagem à Ilha de Moçambique. Ouçam-na: «“Desta vez vamos para um sítio que eu sempre sonhei ir e tenho como imagem a grande reportagem que o meu pai fez para a RTP, há muitos anos, era eu uma miúda. Lembro-me de que me fascinou imenso. É daquelas curiosidades que ficam”, contou» («Em Nampula a cumprir um sonho de criança», A. F. S., Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 51).

      Só não sabemos se Catarina Furtado se exprimiu assim ou se é tudo da lavra do jornalista. Claro que isso é o menos importante — por muito que alguns, habitualmente os visados ou anónimos sem procuração, pretendam ver o contrário —, pois não uso de argumentos ad hominem (nem ad feminam). Temos é de meter na cabeça que é errado e que fica mal na boca de uma comunicadora ou na pena de um jornalista.

 

[Texto 483] 

Helder Guégués às 11:08 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Uma tentativa

 

 

      «Alvejado em órgãos vitais, Hilário Soares acabaria por morrer no local. Depois de consumar o homicídio, Adelino Almeida regressou à sua vivenda. Terá esboçado o suicídio, mas entretanto chegaram os bombeiros» («Discussão de honra acaba com morte a tiro», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 18).

      Um dos sentidos figurados de esboçar é iniciar uma acção ou gesto sem o completar, mas não deixa de ser estranho escrever «terá esboçado o suicídio».

 

 

[Texto 482]

Helder Guégués às 10:34 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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16
Set 11

Léxico: «alíquota»

Só se explicarem

 

 

      «Os relatores consideram mesmo que não é possível “determinar se a causa das lesões dos ofendidos resultou da troca do fármacos [sic], se existiu troca e em que momento é que a mesma ocorreu”. O relator, o presidente do Conselho Jurisdicional Regional de Lisboa, Joaquim Marques, apoiado pela consultora jurídica Ana Varejão, detectou “fragilidades” naquele serviço hospitalar, como o facto de não existirem regras escritas para a utilização de sobras de medicamentos (tecnicamente designados de alíquotas)» («Ordem arquiva caso dos cegos de Santa Maria», Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 14).

      O primeiro obstáculo para a compreensão é logo a falta de concordância — pois não é aos medicamentos, mas às sobras destes, que se dá a designação de alíquota. É acepção, da gíria médica, que os dicionários não registam. Alíquota — é a única acepção dicionarizada — é a parte que está contida num todo um número exacto de vezes. Não deveria figurar entre as falhas nas «Expressões médicas: falhas e acertos»?

      Mas, entretanto, registe-se. Alíquota: sobra de fármaco extraído da embalagem original.

 

 [Texto 481] 

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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