Acordo Ortográfico

Erro manifesto

 

 

      «Tudo à roda, como já perceberam, das temíveis contradições entre o que se diz e o que se escreve. Daí que os génios do AO tenham descoberto aquela que ficará como uma das afirmações mais idiotas deste jovem século: “Não se pronuncia, não se escreve.” É isso que dita, no AO, a morte das consoantes mudas. Mas serão assim tão mudas? Um exemplo curioso e brasileiro: no infinitivo impessoal dos verbos terminados em –er ou –ar, nunca o “r” é pronunciado. Comer, correr, bater, dever, diz-se naturalmente “comê”, “corrê”, “batê”, “devê”; tal como nadar, comprar, voar, andar, se diz “nadá”, “comprá”, “voá”, “andá”. Para lá da etimologia, não é difícil perceber que a vogal final é aberta por causa do “r” que fecha a palavra. Sem “r”, teríamos de ler “come”, “corre”, “bate”, “nada”, “compra”, “voa” e por aí fora. Por isso, a consoante aparentemente muda de tais palavras, afinal, “fala”. E acentua as vogais. Mas, como “não se pronuncia, não se escreve”, ainda um dia esse “r” final será abatido» («São mudam mas “falam”», Nuno Pacheco, Público, 19.09.2011, p. 3).

      «Nunca» é mentira ou exagero ou loucura. Por outro lado — no caso, o único lado que merece um minuto de reflexão —, não estamos a falar de registos do português padrão, logo, longe das cogitações dos «cientistas» que negociaram o acordo. Quando, em 1819, frei Francisco dos Prazeres (1790–1852) comentou o português falado por indivíduos rústicos do Maranhão, deu como exemplo precisamente, entre outros, a queda do r final (má, pescá, abraçá, feitô, amô). Erre final de qualquer vocábulo — não apenas de verbos e muito menos, valha-me Deus, do infinitivo impessoal. E o infinitivo pessoal fica de fora porquê?

 

 

[Texto 493] 

Helder Guégués às 15:41 | comentar | ver comentários (16) | favorito
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