23
Set 11

Léxico: «bruaá» e «bruaca»

Tanto barulho

 

 

      Daniel Belo, no noticiário das 5 da tarde de ontem na Antena 1: «O buraco financeiro na Madeira foi hoje também motivo para uma troca de acusações no Parlamento, em Lisboa, entre PS e PSD, uma troca de acusações que gerou um certo bruaá na Assembleia da República.»

      A primeira vez que ouvi a palavra foi da boca do meu amigo P. G., em 1999, que devia andar por essa altura na letra b em algum dicionário, pois também lhe ouvi a palavra «bruaca». A primeira é galicismo escusado (mas nome da melhor editora portuguesa de livros infantis), de brouhaha. Ruído de muitas vozes. Já a conhecia antes da obra de Eça de Queirós. Bruaca — talvez venha da voz castelhana burjaca, registam os dicionários — é, entre outras coisas, sinónimo de «prostituta». A acepção mais usada, porém, é a de mala de couro cru para transporte de objectos sobre cavalgaduras, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora dá como brasileirismo — mas não me cheira. E a butxaca catalã?

 

 

[Texto 512] 

Helder Guégués às 11:34 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Televisão

Cuidado

 

 

      A propósito do apresentador do programa O Elo Mais Fraco, escreveu ontem Joel Neto no Diário de Notícias: «Culturalmente limitado (é o que parece), agarra-se ao guião, limitado também. Pergunto-me o que teria dito se, em vez de “Franco”, o concorrente a quem perguntou pelo ditador espanhol do século XX tivesse respondido “Francisco Franco” ou mesmo “Generalíssimo Franco”. O maior problema, porém, está nas perguntas. O que é um “chefe de estado máximo”? Há um chefe de estado mínimo? O que é uma “legendária banda rock”? É uma banda rock com legendas? E uma bola de râguebi é oval? Mas é mesmo oval, ou é apenas comummente dita oval? Com perguntas impreparadas ou “de cabeça”, não há serviço público para ninguém. Cuidado».

 

[Texto 511] 

Helder Guégués às 09:57 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Ortografia: «bem-disposto»

Não se percebe

 

 

      «Suspeito que seja assim com todos os prazeres — até o de acordar bem disposto ou passar um dia sem dores ou respirar como se quer ou não precisar de mais ninguém para funcionar. Parecem prazeres pequenos quando ainda temos prazeres maiores com os quais podemos compará-los. Mas tornam-se prazeres enormes quando são os únicos de que somos capazes» («Como provar a vida», Miguel Esteves Cardoso, Público, 23.09.2011, p. 37).

      É um erro que vejo quase todos os dias. Pois bem: não é nem vai ser assim. Nem aglutinado nem separado: o advérbio bem, ao contrário de mal, não se pode aglutinar com palavras começadas por consoante. E também não pode ficar separado.

 

[Texto 510]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Passagem do Noroeste»

Uma passagem

 

 

      «A diminuição do gelo oceânico no Árctico já está a permitir às baleias-da-gronelândia (Balaena mysticetus) fazer a travessia do Atlântico para o oceano Pacífico, através da chamada passagem do Noroeste. O que era até hoje uma mera possibilidade – o encontro entre diferentes populações de organismos marinhos dos dois oceanos, devido ao degelo naquela região polar – foi agora pela primeira vez documentado com estes cetáceos» («Degelo no Árctico abre nova rota a baleias», Filomena Naves, Diário de Notícias, 22.09.2011, p. 31).

      Quando até na infalível Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira se lê «Passagem do Noroeste», é de realçar como está correcto.

 

 

[Texto 509]

Helder Guégués às 09:02 | comentar | favorito
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«Mise en abyme»

O texto dentro do texto

 

 

      «Infelizmente o jeito de falar do Presidente também dá para outras interpretações. Aquela técnica de La Vache Qui Rit foi chamada de mise en abyme por André Gide (com Cavaco estamos sempre a tropeçar em referências cultas). Gide referia-se aos contos que contavam outros contos, o que na pintura é um quadro que reproduz uma cópia menor do próprio quadro. Ora o nome mise en abyme, cair no abismo, foi justamente dado pela vertigem causada por se ver a repetição das imagens. Abismo? Será que Cavaco nos quis anunciar alguma coisa má?» («Ruminando a frase de Cavaco», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 22.09.2011, p. 56).

      Parece que de Gide só a troca de abîme por abyme. A expressão deriva de abîme, um termo francês que na heráldica designa o ponto central do escudo (ponto de honra, em português) em que uma peça ou figura aparece de tal forma que as outras peças ou figuras, em relevo, não são sobrecarregadas nem mesmo tocadas por ela, que aparece no fundo, no abismo. A técnica, e o conceito, passou depois para outras artes.

 

[Texto 508] 

Helder Guégués às 08:25 | comentar | favorito
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Geórgia/Jórgia

Aí está

 

 

      «Troy Davis passou metade da sua vida de 42 anos no corredor da morte de uma prisão da Jórgia, nos EUA. Condenado em 1991, pelo homicídio, dois anos antes, de um polícia de folga, Davis já esgotou todas [sic] os mecanismos legais para salvar a sua vida» («Execução de Troy Davis envolta em forte polémica», Luís Naves, Diário de Notícias, 22.09.2011, p. 23).

      Vai-se consolidando no Diário de Notícias esta forma de grafar o nome do Estado norte-americano, recomendada, relembro, por Rebelo Gonçalves no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (1947: 353, n. 4) e no Vocabulário da Língua Portuguesa (1966). Para se distinguir de Geórgia, o país do Cáucaso.

 

[Texto 507] 

Helder Guégués às 07:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Set 11

Verbo «haver»

Não humildade, mas estudo

 

 

      «No entanto, o secretário de Estado, João Casanova da Almeida, insiste que não estão a haver irregularidades nas colocações de professores. Em declarações ao DN, Manuel Esperança, do CE, considerou que as contratações “do ponto de vista técnico até estão a decorrer melhor este ano do que em 2010”, relacionando as ultrapassagens de professores com mais anos de serviço com o facto de estes terem concorrido apenas a lugares anuais – num ano em que essas ofertas baixaram drasticamente –, enquanto outros professores menos experientes candidataram-se a contratos temporários» («Conselho das Escolas nega erro nas contratações», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 22.09.2011, p. 15).

      O jornalista é que não pode negar que deu um dos mais crassos erros de que já tenho tratado. O verbo haver — quantas vezes o terei referido no Assim Mesmo? — é impessoal quando exprime existência e vem acompanhado dos auxiliares ir, dever, poder, etc. Logo, «o secretário de Estado, João Casanova da Almeida, insiste que não está a haver irregularidades nas colocações de professores».

 

[Texto 506] 

 

Helder Guégués às 07:45 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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