24
Set 11

Discurso dos políticos

Citações por tudo e por nada

 

 

      «De Miguel Relvas estamos à espera de tudo menos de uma coisa: grandes tiradas literárias. Pela mais simples das razões: não é o seu estilo. Acontece que Relvas decidiu fazer um face lifting no seu discurso e agora saltam grandes citações por tudo e por nada. Esta semana foram pelo menos duas grandes frases, perante uma comissão parlamentar manifestamente espantada perante a qual explicava a reforma do Poder Local. Uma de Agustina Bessa Luís: “Fabuloso é o que acredita na fábula.” E outra de Ortega y Gasset: “Os esforços em vão conduzem à melancolia.” A nossa dúvida é: qual dos seus assessores o inspira? Correia? Figueira? Gonçalves?» («Quem inspira Miguel Relvas?», Diário de Notícias, 24.09.2011, p. 16).

      São coscuvilhices da Vespa, mas vem ao encontro do que já tenho pensado. Quem escreve os discursos dos políticos devia ter o cuidado mínimo de os tornar credíveis na boca dos destinatários. É verdade que, por vezes, há grandes surpresas, como sucede com Cavaco Silva, que tem vindo paulatinamente a elevar os improvisos à altura dos discursos que alguém lhe escreve, de início claramente inadequados. Em suma, há sempre esperança.

 

 [Texto 518] 

Helder Guégués às 19:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Às custas»?

Não havia necessidade

 

 

      Ainda no Q., vale a pena ler na página 9 a tradução do artigo de Deborah Cameron, publicado originalmente no The Guardian, a propósito do «mundialês» (globish, termo inventado pelo francês Jean-Paul Nerrière), o inglês universal e sem espinhas. Claro que nem tudo está como devia. Um exemplo. Lê-se no original: «Some commentators even suggest that it may now be happening at their expense.» E a tradução de Adelaide Cabral: «Alguns comentadores sugerem mesmo que tal êxito pode estar já a acontecer às custas da própria língua inglesa.»

 

[Texto 517] 

Helder Guégués às 18:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Latim

Felizmente

 

 

      No perfil biográfico de Tomás de Aquino, apresentado na segunda página da mesma pré-publicação, da responsabilidade do Diário de Notícias, lê-se que «foi proclamado santo e cognominado Doctor Communis pela Igreja Católica». Não é mentira, não senhor, mas porque não em português? É que São Tomás foi assim cognominado porque a sua doutrina é a comum da Igreja. Felizmente, não se lembraram de dizer que também foi cognominado magnus bos mutus Siciliae pelos condiscípulos de Teologia.

 

[Texto 516]

Helder Guégués às 18:18 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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...

Parem já as máquinas!

 

 

      Ainda da mesma pré-publicação: «Mas esta posição colocava problemas a propósito da transmissão do pecado original.» É expressão omnipresente, esta — mas não se podia, também neste caso, seguir o original? «Ma questa posizione poneva problemi a proposito della trasmissione del peccato originale.» Punha problemas. Pior será nos casos, como já tenho encontrado, de autores portugueses em que a expressão surge vinte ou trinta vezes...

      «A propósito, recordo-me de em entrevista de então ou depois eu ter dito que numa frase que escreva uma sílaba a mais ou a menos me punha problemas» (Conta-Corrente, Vergílio Ferreira. Lisboa: Bertrand Editora, 1994, p. 16).

 

[Texto 515]

Helder Guégués às 17:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Repetições

Parem as máquinas!

 

 

      «Esta minha intervenção não pretende defender posições filosóficas, teológicas e bioéticas sobre os problemas do aborto, das células estaminais, dos embriões e da chamada defesa da vida», lê-se na pré-publicação (saída hoje no caderno semanal Q. do Diário de Notícias) da obra de Umberto Eco Construir o Inimigo e Outros Escritos Ocasionais (Gradiva, 2011). Para evitar a repetição, bastava ter seguido o original: sostenere e difesa.

 

[Texto 514] 

Helder Guégués às 17:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Set 11

«Júri/jurado»

O que se diz no hotel

 

 

      Pedro Rolo Duarte na emissão de hoje do Hotel Babilónia: «Fui, fui júri nos Açores de um excelente festival que lá se realizava, não sei se ainda se realiza, chamada Mostra Atlântica de Televisão.» João Gobern também lá esteve, «mas não como júri, fui apenas fazer a cobertura jornalística».

 

[Texto 513]

Helder Guégués às 10:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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