09
Out 11

Léxico: «malão»

Não me diga

 

 

      «A minha mãe olhava para o tecto, coçava as costas, abria o malão — enquanto eu pedia a todos os anjos e arcanjos que o malão não se esvaziasse ali, para não passarmos a vergonha de andarmos de gatas num teatro tão fino e tão cheio de veludos como aquele, no cinema do centro comercial ainda vá que não vá» (Caderno de Agosto, Alice Vieira. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2006, p. 184).

      Estranheza minha e do leitor que me contactou: nenhum dicionário regista o termo «malão». E eu ia jurar que sim. E faltarão, acaso, aumentativos nos dicionários? Com este não engraçaram. Segundo certas inteligências nacionais, especialistas disto e daquilo (mais daquilo, na verdade), se não está no dicionário, é de evitar...

 

 [Texto 565] 

Helder Guégués às 16:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Prefixo «anti»

O elemento da direita

 

 

      No fim de Setembro passado, uma consulente, Elisabete Cataluna, perguntou ao Ciberdúvidas: «À luz do novo acordo ortográfico, o prefixo anti une-se sempre à palavra que antecede, excepto se esta iniciar com h ou com a mesma letra com que acaba o prefixo. Contudo, segundo averiguei, a palavra anti-stress continua a escrever-se com hífen. Porquê? Compreendo que seria impensável, em português, aceitar “antisstress”, mas creio que poderia ser aceitável aceitável “antistress”.» Respondeu Sandra Duarte Tavares: «Segundo o novo Acordo Ortográfico, usa-se sempre hífen quando o elemento da direita é um estrangeirismo, pelo que anti-stress deve ser grafado com hífen.»

     Dito assim, tão peremptoriamente, até parece que o texto do Acordo Ortográfico de 1990 consigna esta regra ­— mas já aqui desafiei a jornalista Ana Sofia Rodrigues a dizer onde encontrou essa regra, mas não me respondeu. (Querem prescindir do hífen? Escrevam, se tiverem coragem, «antistresse».)


[Texto 564]

Helder Guégués às 13:50 | comentar | ver comentários (17) | favorito
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09
Out 11

Jornais

Eventualmente

 

 

      «Vários leitores», escreve o provedor do leitor do Público na edição de hoje, «têm chamado a atenção para a frequência com que deparam com erros de tradução nas páginas do jornal. Têm razão em fazê-lo: esses erros — que por vezes chegam a ser anedóticos — podem distorcer informações ou, no mínimo, torná-las confusas. Em alguns casos, resultam da “tradução” literal de termos estrangeiros, sem atenção às expressões idiomáticas próprias da língua de origem ou à sintaxe da língua portuguesa, como parece ter acontecido no caso recente, assinalado pela leitora Eunice Silva, do texto intitulado “Bactéria irmã da tuberculose pode ajudar a combater doença” (edição on line, 6/9).

      A peça noticiava os resultados de uma investigação publicada numa revista científica de língua inglesa e é de presumir que tenham sido traduzidas do artigo original frases como esta: “Há estirpes muito resistentes que a medicina actual tem menos e menos ferramentas para lutar contra”. A leitora argumenta que “esta frase não faz sentido em português, além de se notar que é uma tradução (uma má tradução, diga-se)”. Admite que a expressão “menos e menos” (em vez do português “cada vez menos”) tenha resultado do “less and less” inglês, e critica sobretudo a estrutura sintáctica da frase”, pois em bom português ter-se-ia escrito “há estirpes muito resistentes contra as quais a medicina actual tem cada vez menos ferramentas”. Eunice Silva refere ainda a existência, na mesma peça, de uma provável distorção do sentido do texto original, resultante do erro infelizmente comum de “traduzir” o vocábulo inglês “eventually” por “eventualmente”» («Traduções mal feitas e outros equívocos», p. 55).

 

[Texto 563] 

Helder Guégués às 09:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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