29
Out 11

«Billion, trillion, quadrillion»

Olhe que não

 

 

      «Nada como os noticiários para nos alargar a cultura. Há vinte anos, só os historiadores sabiam relacionar algum facto com Sarajevo: “Aquela cidade onde começou a I Guerra Mundial, um tiro num arquiduque que acabou em 19 milhões de mortos…” Depois, os telejornais com tiros de snipers habituaram-nos à cidade que todos já sabemos capital da Bósnia. Os noticiários alargam-nos a geografia, é um cortejo de desgraças mas como tem homens dentro podem ser emocionantes como a música e as imagens desesperadas de Emir Kusturica (para falar num filho de Sarajevo). Os últimos tempos, porém, ensinam-nos coisas secas. Há poucos anos, até jornalistas obrigados a ter cuidado para não passarem por pública ignorância escorregavam no billion americano, que traduziam por bilião. Hoje, graças aos empréstimos da troika e à recapitalização da banca, todos sabemos que mil milhões é uma coisa, e coisa de nove zeros, e que seria um manifesto exagero dizer que o banqueiro Fernando Ulrich aceitava receber como reforço de capitais 1,717 biliões. É só 1,717 mil milhões. Bilião, já sabemos todos, tem entre nós 12 zeros, e quando o dizemos é o que os americanos chamam trillion. Isso para vos dizer que os noticiários destes dias ensinam-nos coisas desnecessárias. Como número demasiado, para mim, basta o 22 que Cavaco leva na comitiva. É coisa já da ordem a que os americanos chamam quadrillion (15 zeros)» («A comitiva em forma de exagero», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 28.10.2011, p. 56).

      Quase todos os dias vejo o contrário. Não, Ferreira Fernandes, nem todos sabemos.

 

 

[Texto 622] 

Helder Guégués às 00:47 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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29
Out 11

Como se escreve nos jornais

Saudades da picada

 

 

      Em Castelo Branco, um militar reformado matou um vizinho com vários tiros de uma carabina 1.22 modificada. Parece. Os jornalistas já estão a abandonar o «presumível», mas restam-lhes outras formas de lavar as mãos. «O suspeito, que vivia com uma a [sic] companheira, está à guarda da Polícia Judiciária até ser presente hoje ao Tribunal Judicial de Castelo Branco» («Ex-militar mata vizinho a tiro por causa do ladrar do cão», Célia Domingues, Diário de Notícias, 28.10.2011, p. 20). Mas isto foi no fim, porque no parágrafo anterior há mais certezas: «O autor dos disparos é militar reformado do Ultramar e terá ainda sido agente da PSP.» Stress pós-traumático, aposto. Carabina, munições, dois punhais... Só faltavam os turras para torrar com as Armalites, as Kalashnikovs, as Shpagins...

 

 

[Texto 621] 

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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