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Linguagista

«Billion, trillion, quadrillion»

Olhe que não

 

 

      «Nada como os noticiários para nos alargar a cultura. Há vinte anos, só os historiadores sabiam relacionar algum facto com Sarajevo: “Aquela cidade onde começou a I Guerra Mundial, um tiro num arquiduque que acabou em 19 milhões de mortos…” Depois, os telejornais com tiros de snipers habituaram-nos à cidade que todos já sabemos capital da Bósnia. Os noticiários alargam-nos a geografia, é um cortejo de desgraças mas como tem homens dentro podem ser emocionantes como a música e as imagens desesperadas de Emir Kusturica (para falar num filho de Sarajevo). Os últimos tempos, porém, ensinam-nos coisas secas. Há poucos anos, até jornalistas obrigados a ter cuidado para não passarem por pública ignorância escorregavam no billion americano, que traduziam por bilião. Hoje, graças aos empréstimos da troika e à recapitalização da banca, todos sabemos que mil milhões é uma coisa, e coisa de nove zeros, e que seria um manifesto exagero dizer que o banqueiro Fernando Ulrich aceitava receber como reforço de capitais 1,717 biliões. É só 1,717 mil milhões. Bilião, já sabemos todos, tem entre nós 12 zeros, e quando o dizemos é o que os americanos chamam trillion. Isso para vos dizer que os noticiários destes dias ensinam-nos coisas desnecessárias. Como número demasiado, para mim, basta o 22 que Cavaco leva na comitiva. É coisa já da ordem a que os americanos chamam quadrillion (15 zeros)» («A comitiva em forma de exagero», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 28.10.2011, p. 56).

      Quase todos os dias vejo o contrário. Não, Ferreira Fernandes, nem todos sabemos.

 

 

[Texto 622] 

Como se escreve nos jornais

Saudades da picada

 

 

      Em Castelo Branco, um militar reformado matou um vizinho com vários tiros de uma carabina 1.22 modificada. Parece. Os jornalistas já estão a abandonar o «presumível», mas restam-lhes outras formas de lavar as mãos. «O suspeito, que vivia com uma a [sic] companheira, está à guarda da Polícia Judiciária até ser presente hoje ao Tribunal Judicial de Castelo Branco» («Ex-militar mata vizinho a tiro por causa do ladrar do cão», Célia Domingues, Diário de Notícias, 28.10.2011, p. 20). Mas isto foi no fim, porque no parágrafo anterior há mais certezas: «O autor dos disparos é militar reformado do Ultramar e terá ainda sido agente da PSP.» Stress pós-traumático, aposto. Carabina, munições, dois punhais... Só faltavam os turras para torrar com as Armalites, as Kalashnikovs, as Shpagins...

 

 

[Texto 621]