13
Nov 11

Sobre «coevo»

E depois?

 

 

      Uma professora de História quis saber se podia usar o termo «coevo» (que, contudo, disse ser um «arcaísmo») numa construção como «estas pedras tumulares são coevas dos reis da nossa primeira dinastia». Quis saber — mas tinha as suas ideias. «Vendo bem», concluiu, «não, porque misturamos coisas com pessoas. Melhor será usar “contemporâneo”.» E depois?

      «Dominando sobre esses mesmos campos e olivais, coevos de tantas gerações anteriores, etc.», leio nas memórias de Luz Soriano. Está bem, Luz Soriano não é a melhor autoridade. Cá está: Alexandre Herculano nos Opúsculos: «Alli sempre os nossos bispos foram tidos em grande consideração: eram membros do tribunal de mathematica, um dos seis tribunaes coevos com a fundação da monarchia, empregados em altas commissões, etc.»

 

[Texto 679] 

Helder Guégués às 15:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Tradução

Mito ou verdade?

 

 

      «Milhares de pessoas em traje de gala enchem cada um dos muitos clubes de Atenas. Os parques de estacionamento estão repletos de Porches [sic] e dentro dos recintos há empresários, financeiros, políticos. No fundo, segundo um taxista que espera à porta de um destes clubes, a actividade de todos eles é a mesma: lamoya. A palavra é intraduzível. Significa algo entre a economia paralela, negócios ilegais, criminalidade pura e uma atitude de promíscuo e arrogante desprezo perante os poderes públicos» («“O Governo grego dá grandes golpadas, nós damos pequenas”», Paulo Moura, Público, 13.11.2011, p. 14).

     Intraduzível, Paulo Moura? Veja lá, o nosso léxico não é assim tão pobre. Os anglo-saxónicos parece que não têm dúvidas em traduzir lamogio (λαμογιο) por «vigarista». E acresce que λαμόγια, ao que parece, tem origem no espanhol. Não ajudará a fazer luz?

 

 

[Texto 678] 

Helder Guégués às 15:32 | comentar | ver comentários (21) | favorito
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«Revisora editorial»

Acontece que

 

 

      «Acontece que a revisora editorial do romance, a professora Teresa Toldy, fez no PÚBLICO declarações que não posso ignorar. Tenho o maior apreço pela professora Toldy, uma teóloga reputada que, com o seu olho clínico, muito me ajudou a afinar o romance. Mas temos um ponto de divergência relativamente a um conjunto de textos do Novo Testamento que eu considero fraudulentos e ela não» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).

      Será que a Professora Teresa Toldy é mesmo revisora editorial? O que é um revisor editorial? Ou será antes revisora técnica? Por vezes, parece que o adjectivo que se lhe segue serve somente, ad cautelam, para distinguir de revisor da CP... Questões a debater.

 

[Texto 677] 

Helder Guégués às 14:43 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Tradução: «high five»

Bate aí!

 

 

      E por ler agora aqui no Público a palavra agur [«adeus» em basco], lembrei-me de uma tradução do inglês. As personagens — que, é verdade, não eram dois compadres alentejanos — acabavam a despedir-se com «o high-five». Espremidos os miolos, não saiu nada português.

 

 

[Texto 676] 

Helder Guégués às 13:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Veronil»?

Estival, veraniço

 

 

      «O Outono estava veronil, com todas as consequências sociais benéficas do calor – da abundância de boa disposição, no foro psíquico, à boa exibição da abundância, em termos corporais. Ninguém, por isso, quis sentar-se no andar de baixo do autocarro turístico, cujo pavimento superior se encontrava atafulhado de visitantes» («Dedo em riste», Ricardo Garcia, Público, 13.11.2011, p. 43).

      Não é o povo que faz a língua? Ora cá está um elemento do povo — tanto que até viaja no 44 da Carris — a inventar uma palavra. Ah, não foi ele... Bem, mas já no começo de Outubro a tinha usado, quer mesmo divulgá-la.

 

 

[Texto 675] 

Helder Guégués às 11:14 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Ortografia: «neoplatónico»

Nem em inglês é diferente

 

 

      «É um facto que alguns teólogos defendem que era comum na tradição filosófica da Antiguidade os discípulos de um filósofo escreverem textos e atribuí-los ao seu mestre. Mas, em defesa dessa tese, esses teólogos só conseguem dar um exemplo fundamentado, um texto do filósofo neo-platónico Iamblichus, que escreveu sobre os discípulos de Pitágoras: “É uma bela circunstância que eles remetem tudo para Pitágoras, dando aos trabalhos o nome dele”» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).

 

 

[Texto 674] 

Helder Guégués às 11:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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13
Nov 11

Ortografia: «malvisto»

Água em pena de pato

 

 

      «É, pois, com base unicamente neste trecho de Iamblichus que se constrói toda uma tese de que as fraudes naquele tempo não eram mal vistas. O problema é que Iamblichus escreveu 800 anos depois de Pitágoras e que nenhum outro filósofo ou historiador antes de Iamblichus afirmou alguma vez tal coisa. Pior ainda, Iamblichus enganou-se, uma vez que a vasta maioria dos escritos da escola de Pitágoras é de discípulos que não assinaram com o nome do mestre, mas com os seus próprios nomes!» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).

      «Ele queria deixar Tarcisis pacificada e, pelas informações de que dispunha, a minha permanência no duunvirato era malvista por muita gente que não me perdoara o suicídio de Pôncio, nem a condescendência para com os cristãos» (Água em Pena de Pato: Teatro do Quotidiano, Mário de Carvalho. Lisboa: Editorial Caminho, 1994, p. 316).

 

[Texto 673] 

Helder Guégués às 10:22 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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