29
Nov 11

Como se escreve nos jornais

Palavras a mais

 

 

      «Actor de papéis principais, Cary Grant ficou como uma das caras mais populares dos clássicos de Hollywood. Nasceu em 18 de Janeiro de 1904 e morreu às 23h22 do dia 29 de Novembro de 1986, aos 82 anos, em Davenport, Iowa, no hospital de St. Luke, com uma hemorragia cerebral. Cary Grant era o nome artístico de Archibald Alexander Leach, um actor britânico que mais tarde se naturalizou como cidadão americano. Ao longo da carreira foi destacado inúmeras vezes» («O actor Cary Grant morre aos 82 anos», «P2»/Público, 29.11.2011, p. 2).

      Senhor jornalista, bastaria ter escrito «se naturalizou [cidadão] americano». E a última frase traz-nos logo à memória os militares que são destacados — enviados — para fazer serviço fora do corpo a que pertencem.

 

 

[Texto 739]

Helder Guégués às 09:28 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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29
Nov 11

Acordo Ortográfico

Essa máquina diabólica

 

 

      Já chegou às livrarias o Dicionário de Luís de Camões (Caminho), com coordenação de Vítor Aguiar e Silva. Afinal, não se esqueceram (ou acrescentaram-lhe?) a preposição (de que falámos aqui). «Reconhecido contestatário do Acordo Ortográfico», lê-se na edição de hoje do Público, «Aguiar e Silva não se opôs a que a Caminho publicasse o dicionário seguindo a nova ortografia. A verdade é que, diz o coordenador, a passagem do texto pelo crivo do corrector ortográfico – “essa máquina diabólica que tem efeitos devastadores”, como o classificou – deixou algumas marcas. Dá como exemplo as palavras “recepção” e “acta”, que perderam o “p” e o “c”, contrariando a ortografia tradicional de ambos os países. “Mas isso não afecta o essencial, que é este dicionário ter uma informação rica, variada e de excelente qualidade”, acredita Aguiar e Silva» («Dicionário sobre o “estado da arte” dos estudos camonianos já está nas livrarias», Sérgio C. Andrade, Público, 29.11.2011, p. 12).

 

[Texto 738] 

Helder Guégués às 08:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Nov 11

«Enquanto académico»

Enquanto humano

 

 

      Pode ser só embirração minha, mas detesto o uso da conjunção «enquanto» no sentido de «na qualidade de; como», especialmente se aparecer repetidas vezes no mesmo texto. Sei lá, este exemplo fictício (?): «Enquanto académico e enquanto cidadão, não posso eximir-me a comentar a actualidade política, o momento crítico por que o País passa.» De quando datará este uso? Há-de ser, forçosamente, giro moderno.

 

[Texto 737] 

Helder Guégués às 22:13 | comentar | ver comentários (35) | favorito
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Como escrevem no Governo

Também vocês

 

 

      O leitor Rui Almeida chamou-me a atenção para um comunicado do Ministério da Solidariedade e Segurança Social divulgado hoje na imprensa. Só uns excertos: «O Ministério da Solidariedade e Segurança Social (MSSS) vem, ao abrigo do art. 24 da Lei de Imprensa solicitar a publicação do seguinte direito de resposta [...]. Em bom nome da verdade importa esclarecer o seguinte [...]. Pouco depois da tomada de posse o Ministro deixou de ter viatura oficial, em virtude da anterior ter terminado o seu Aluguer Operacional de Veiculo (AOV). O MSSS solicitou por isso à Agência Nacional de Compras Públicas (ANCP), uma viatura, tendo sido indicado que a única disponível de imediato era a viatura referida na notícia, uma vez que, já tinha o necessário concurso de aluguer, lançado e concluído por ter sido efectuado pelo Governo Anterior, sendo na altura, destinada ao então Secretário de Estado da Energia; 3 - O próprio Jornal Correio da Manhã, escreveu na sua edição do dia 10 de Agosto de 2011: “Ministro da Economia herda frota de Luxo” e acrescentava “que, dado os termos do acordo, o actual Executivo nada pode fazer a não ser pagar” referindo-se precisamente ao contrato do carro encomendado pelo Secretário de Estado da Energia do anterior governo; 4 - O Ministério da Solidariedade e Segurança Social, não compra carros, todo o processo de aluguer de viaturas do Estado, é gerido única e exclusivamente pela ANCP. O Ministério paga um aluguer, pelas viaturas, ao seu serviço; 5 - O valor pago neste momento pelo MSSS, referente a este AOV é exactamente o mesmo que era pago pelo carro oficial da Ministra do Trabalho e Segurança Social [...].»

      Há muito por onde pegar. No meu caso, gostei muito do par Governo Anterior/anterior governo e do «bom nome da verdade». A pontuação é um mimo.

 

[Texto 736] 

Helder Guégués às 21:30 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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«Há anos atrás»

Também tu

 

 

      «Para terminar este curto périplo, foi ainda reeditada, neste caso pela ressuscitada Orfeu, a Antologia da Mulher Poeta Portuguesa, com 27 poemas ditos por Eunice Muñoz e originalmente lançada em 1981, há 30 anos atrás. Os poemas, musicalmente “encenados” com fundos musicais e efeitos sonoros, vão das cantigas medievais e sonetos de Filipa de Almada ou Bernarda Ferreira de Lacerda até Luiza Neto Jorge, passando por Irene Lisboa, Florbela Espanca, Sophia, Natércia Freire, Natália Correia, Ana Hatherly, Maria Teresa Horta ou Fiama. Mais uma vez, o fulgor da palavra num registo histórico assinalável. Felizmente, como todas as obras aqui citadas — a começar pela de Fausto —, livre de espúrias “atualizações” ortográficas» («Pelo fulgor da palavra», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 28.11.2011, p. 3).

      É só aspar e fica logo escorreito. É estranho é vê-lo na escrita de quem parece interessar-se tanto pela língua.

 

[Texto 735] 

Helder Guégués às 10:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Nov 11

Léxico: «balão»

Noutro tempo

 

 

      «Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam ou deixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (como é que vão fazer agora os desempregados de “longa” duração, ou seja, ao fim de um ano e meio?). Nessa mesma terra deambulavam também pela rua os operários e operárias que o sempre branqueado Alfredo da Silva e seus descendentes punham na rua nos “balões” (“Olha, hoje houve um ‘balão’ na Cuf, coitados!”). Nesse país, os pobres espreitavam pelos portões da quinta dos Patiño e de outros, para ver “como é que elas iam vestidas”» («Já vivi nesse país e não gostei», Isabel do Carmo, Público, 28.11.2011, p. 23).

      Quase sempre que se fala da CUF e de emprego, fala-se de «balão», o termo da gíria usado para designar os despedimentos colectivos que aconteciam de vez em quando.

 

[Texto 734]

Helder Guégués às 10:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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27
Nov 11

Tradução: «workshop»

Quando é esse o objectivo

 

 

      Posso ter entretanto esquecido, mas creio que nunca tinha visto o anglicismo workshop traduzido por «acção de formação». Bem, depende do contexto, não é assim? É também o que afirma o consultor do Ciberdúvidas A. Tavares Louro: «Parece-nos que a palavra “workshop” deverá ser traduzida como a(c)ção de formação quando é esse o obje(c)tivo fundamental do encontro dos formadores com os formandos, dado que nesses encontros há a(c)tividades e debates.» Traduzir, como algumas vezes se vê, por «oficina» nem sempre é o mais adequado.

 

[Texto 733]

Helder Guégués às 22:53 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Tradução: «used to»

Mas sempre, sempre?

 

 

      Outra monomania de alguns tradutores de inglês é traduzirem sempre used to por «costumar». «I used to wonder how these...» «Eu costumava imaginar de que forma estas...» Costumava fumar, costumava ler, costumava passear, costumava comer... Ah, poupem-nos!

 

[Texto 732]

Helder Guégués às 17:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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27
Nov 11

Tradução: «positive feedback»

Não vence a maioria

 

 

      Suponho que, se seguisse cegamente o que diz o Sr. Google, teria de traduzir positive feedback por retorno positivo. Acontece que ando há anos a ouvir professores à minha volta a dizerem — e creio que bem, que é o que importa no caso — reforço positivo. Consiste no elogio ao mais ínfimo progresso do aluno medíocre — que precisa dele para não desistir de todo.

 

 [Texto 731]

Helder Guégués às 16:44 | comentar | ver comentários (11) | favorito
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