05
Dez 11

Léxico: «assilvestrado»

Por mim, abro-lhe os braços

 

 

      aqui tinha estranhado o adjectivo «assilvestrado», que li na revista Notícias Magazine. Hoje, uma bióloga, R. P., diz-me que viu usarem a palavra numa reportagem no programa Portugal em Directo. Entre aspas, acrescenta. «Cães “assilvestrados” da Arrábida atacam rebanhos», lia-se em rodapé. Diz-me ainda que, como bióloga, já teve necessidade de usar uma palavra portuguesa equivalente à inglesa feral, mas até agora desconhecia-a. «Será um neologismo ou os dicionários em que procurei simplesmente não o registam?» Ocasionalmente embora, é usada em português há algum tempo. Está bem formada, é necessária, é expressiva e substitui vantajosamente um termo inglês — verificam-se todos os requisitos, creio, para incentivar o seu uso. Tanto mais que, como agora é moda, se se usar o termo inglês e não se grafar em itálico ou entre aspas, alguém ainda pode pensar, legitimamente, que é o português «feral» — funéreo, fúnebre, lúgubre. E, para terminar, a origem do termo? Bem, provavelmente o catalão assilvestrat, da: «ZOOL Dit de l’animal domèstic que ha fugit i s’ha tornat salvatge».

 

 

[Texto 771] 

Helder Guégués às 22:12 | comentar | favorito
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Outra vez «sanduíche»

Sandes e francesinhas

 

 

      «Portugal também está lá, claro. Heloísa fala do Porto, da sua “cor de ouro” e do “cheiro das especiarias”, mas também de um episódio embaraçante: quando Bianca, filha de Ruy [Castro], que vive em Lisboa, o encontrou no Porto e lhe perguntou: “Papai, você já comeu uma francesinha?” Um susto: ele ainda não sabia que se tratava de uma sanduíche» («Sexo e estripadores», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 5.12.2011, p. 3).

      Uma questão de gosto. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a francesinha é um «prato composto por uma sande feita com duas fatias de pão de forma, bife, fiambre, linguiça e mortadela ou salsicha, coberta por fatias de queijo e por um molho picante». Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é a «sandes feita de carnes variadas (fiambre, linguiça, salsicha fresca, etc.) entre fatias de pão de forma, queijo no topo e molho especial, gratinada no forno».

 

[Texto 770]

Helder Guégués às 13:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Pouco abonatório

 

 

      «Um documentário exibido na televisão pública belga [RTBF] veio revelar aspectos pouco abonatórios da personalidade do príncipe Lourenço da Bélgica, filho mais novo do actual monarca Alberto II. A reportagem, transmitida no programa Questions à la Une, mostra um Lourenço mulherengo, violento e ávaro» («Bélgica. Documentário revela lado negro do príncipe», «P2»/Público, 5.12.2011, p. 15).

      Afinal, o príncipe Lourenço (cá está mais um exemplo de um nome da realeza europeia — Laurent Benoît Baudouin Marie — traduzido) é belga ou ávaro?

 

 

[Texto 769]

Helder Guégués às 13:23 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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Capela Sistina

Aqui perto

 

 

      E o autor escreveu, a propósito da reportagem da revista Sábado (ver aqui) sobre a ignorância dos nossos universitários, «Capela Sixtina». Até está no texto do Acordo Ortográfico de 1990 (e já estava no de 1945): «Em final de sílaba que não seja final de palavra, o x = s muda para s sempre que está precedido de i ou u: justapor, justalinear, misto, sistino (cf. Capela Sistina), Sisto, em vez de juxtapor, juxtalinear, mixto, sixtina, Sixto.» É inegável que, se tivesse escrito Sextina, seria muito pior: «O extremado lorpa escreveria SixtinaSistina ou Xistina se soubesse que foi Sixto ou Xisto IV o fundador da capela», escreveu Camilo na Boémia do Espírito sobre Alexandre da Conceição, o «snr. Conceição», o «furúnculo anónimo».

 

 [Texto 768]

Helder Guégués às 12:35 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Linguagem

Lá longe, nas Sorlingas

 

 

      Pareço aquelas autoras norte-americanas (quem sabe se condiscípulas desse grande ignorante, que finalmente se enxergou e desistiu da candidatura à presidência dos EUA, Herman Cain: «Quando me perguntarem quem é o presidente do Ubequi-bequi-bequi-bequi-stão-stão, a minha resposta vai ser: “Não sei. Você sabe?”») que recebem cartas de leitores de países tão pequenos, dizem, que têm de ir ver no mapa. No meu caso, nunca antes tinha ouvido falar das ilhas Scilly, ou Sorlingas, um arquipélago ao sul da península da Cornualha, na Inglaterra. Doravante, só tenho desculpa de não me lembrar do nome em córnico.

 

[Texto 767]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se fala na televisão

É deveras preocupante

 

 

      José Manuel Levy, no Telejornal de ontem: «Segundo Paulo Esteves Veríssimo, aparentemente estes ataques trataram-se de uma provocação, um teste de stress aos sistemas informáticos do Estado, e o que revelaram é deveras preocupante.»

      Parece o improviso de alguém que não domina minimamente — e devia — a língua em que se exprime.

 

 [Texto 766]

Helder Guégués às 09:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Dez 11

«Sanduíche/sande/sandes»

Bifes e sandes

 

 

      Escreveu José Neves Henriques em 1997: «Não é lá muito fácil dizer qual a forma correcta, se sanduíche, se sande. Ambas as palavras são usuais e vêm nos dicionários. Sanduíche é aportuguesada, seguindo a pronúncia do inglês sandwich. Depois sanduíche evolucionou para sandes (já dicionarizada) e para sande (variante popular). Só o futuro dirá qual o vocábulo que se vai fixar. Talvez sanduíche, uma vez que já existe o verbo sanduichar.» Não é o que regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, para o qual «sandes» e «sande» são ambas formas populares. E Vasco Botelho de Amaral, no Glossário Crítico, afirmou que «o povo assimila o inglês sandwich em sandes».

      Confesso que não engulo a forma «sanduíche». Estou como Machado de Assis em relação a «bife»: «Ora qual é nossa situação há dez ou quinze anos? Há dez ou quinze anos, penetrou nos nossos hábitos um corpo estranho, o bife cru. Esse anglicismo só tolerável a uns sujeitos, como os rapazes de Oxford, que alternam os estudos com regatas, e travam do remo com as mesmas mãos que folheiam Hesíodo, esse anglicismo, além de não quadrar ao estômago fluminense, repugna aos nossos costumes e origens.»

 

 [Texto 765]

Helder Guégués às 00:02 | comentar | ver comentários (22) | favorito
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