06
Dez 11

Sobre «no entanto»

Essencial e etimologicamente advérbios

 

 

      «Por isso, i.e., por serem essencial e etimologicamente advérbios, é que no entanto, entretanto, contudo e todavia vêm freqüentemente precedidos pela conjunção e: “Vive hoje na maior miséria e (,) no entanto (,) já possuiu uma das maiores fortunas do país.” A ser no entanto simples conjunção, simples utensílio gramatical (conectivo), torna-se difícil a classificação da oração: coordenada aditiva, em função do e, ou adversativa, em função do no entanto? É evidente que não poderá ser uma coisa e outra. A ortodoxia gramatical aconselharia a supressão do e, em virtude de, modernamente, se atribuir a no entanto valor de conjunção. Mas, se se aceita o agrupamento, a oração será aditiva, e no entanto, advérbio, caso em que costuma (ou deve) vir entre vírgulas. O que se diz para no entanto serve para entretanto, todavia, não obstante» (Comunicação em Prosa Moderna, Othon Moacyr Garcia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, 26.ª ed., p. 44).

      A função de conjunção daquelas partículas é relativamente recente na língua portuguesa, posterior ao século XVIII. Na 6.ª edição do dicionário de Morais, de 1856, ainda «porém» e «todavia» aparecem como advérbios.

 

[Texto 776]

Helder Guégués às 23:54 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Quando muito»

Bons nas pequenas coisas

 

 

      «Tonto como sou, ando há várias semanas a perder tempo com o infeliz assunto da irresponsabilidade contumaz dos dirigentes que temos. Hoje, porém, voltou a ocorrer-me que esta teimosia é reveladora de uma enorme insensatez; que, apesar do esforço de reflexão, análise e crítica realizado por várias gerações de pessoas muito melhores do que eu, não consta que o país alguma vez tenha despendido algum esforço para tentar ser melhor do que é. Quanto muito, carrega na maquilhagem, faz uma plástica às mamas e vai abanar o traseiro para os salões, na esperança de engatar algum velho rico que o sustente» («O Sócrates bom», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 6.12.2011, p. 3).

      No máximo, se tanto, que é o que o jornalista Jorge Marmelo queria dizer, escreve-se quando muito, e já o vimos no outro blogue mais de uma vez.

 

[Texto 775]

 

Helder Guégués às 10:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Conjunção «nem»

Mas repare

 

 

      «A disciplina do governo económico significará, para nós, uma dieta compulsiva e continuada. Queiramos ou não, acabará por vir à força. É por isso risível escutar aqueles, como António José Seguro, ou como outros socialistas do presente e do passado, que para exibirem o seu imaculado federalismo afirmam que sempre defenderam um governo económico como solução redentora. Como eles se convenceram de que este novo federalismo fiscal será indolor nem implicará austeridade, ninguém percebe» («A austeridade política», Pedro Lomba, Público, 6.12.2011, p. 40).

      Nem é, na frase, conjunção coordenativa aditiva? Então onde está, perguntar-se-á o leitor benévolo, a outra oração negativa? Tem, antes, o sentido de e não, mas, por não ser de uso comum e estar a ligar orações de natureza diferente, não será compreendido por todos os leitores.

 

 [Texto 774]

Helder Guégués às 09:27 | comentar | ver comentários (21) | favorito
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Merkozy é/Merkozy são

Ser híbrido

 

 

      «Mesmo aceitando que é indispensável “reforçar e harmonizar” a integração fiscal e orçamental da zona euro, as exigências do par Merkozy fazem lembrar uma reparação de guerra», lê-se no editorial do Público de hoje. Ora, é incongruente falar-se em «par Merkozy». A graça de tudo isto é supor que é um ser híbrido, como afirmou há dias Freitas do Amaral, que condenou as «intervenções de Bruxelas» e de «um ser híbrido a que chamam “Merkozy”» nos orçamentos e na condução das políticas nacionais, afirmando que isso «não é federalismo, nem democrático». Mesmo as aspas e o itálico são dispensáveis.

 

[Texto 773]

Helder Guégués às 09:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Dez 11

Como se escreve nos jornais

Dantes eram só os prédios

 

 

      «Recorde-se que no último fim-de-semana de Outubro, Horta Osório colapsou e foi internado em Londres numa clínica de recuperação do sono. A 2 de Novembro, o banco anunciou que o seu CEO estaria fora durante oito semanas para recuperar de um esgotamento» («Lloyds negoceia regresso de Horta Osório com estatuto e remuneração diferente», Cristina Ferreira, Público, 6.12.2011, p. 17).

      Mal vai isto quando um jornalista não encontra melhor verbo do que «colapsar». Quanto a «CEO», apesar de tudo, parece estar menos na moda.

 

[Texto 772]

Helder Guégués às 09:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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