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Dez 11

Apostila ao Ciberdúvidas

Corria o ano de 2005

 

 

      Uma pergunta de um leitor fez-me repescar outra consulta, já antiga, do Ciberdúvidas. Um leitor, Murillo Sérgio de Farias Félix, depois de citar o Dicionário Houaiss, escreveu: «Assim, num texto técnico, p. ex., na frase “Nossos trabalhos nos trouxeram evidência de superfaturamento”, é seguro afirmar que a palavra “evidência” pode ser substituída por “prova”, ou seria mais adequado substituí-la por “indício”?» Respondeu o consultor F. V. Peixoto da Fonseca: «Evidência, no sentido que aponta, é um anglicismo que se deve evitar. É, de facto, prova o termo correcto nestes casos e ainda noutros, como na justiça, em que os Ingleses também usam “evidence” com o significado de prova

      Será mesmo assim? Se num texto em inglês aparecessem as palavras inglesas evidence e proof, que faria o consultor? Vertê-las-ia a ambas por «prova»?

      Evidence é qualquer coisa (objecto, testemunho, etc.) que tenda a demonstrar algo, mas sem chegar a fazê-lo, ao passo que proof é uma demonstração contudente. No fim da acção, uma parte terá «provided proof of this case»; a evidence, que nem sempre é irrefutável, já teria sido carreada antes pelos advogados e pelas testemunhas. O problema está precisamente na tradução desta evidence, que alguns vertem por «evidência», que em português sempre foi certeza manifesta — o que evidence não é em inglês. Em suma, evidence deve traduzir-se por elementos de prova, indícios.

 

[Texto 819]

 

Termo relacionado no blogue: «piezas de convicción»

Helder Guégués às 16:14 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Apostila ao Ciberdúvidas

Aromeno

 

 

      Um leitor do Ciberdúvidas quis saber se se deve escrever «arromeno, ou aromeno, ou arumânico, ou arrumânico, ou arrumano, ou outro termo, ao fazermos referência a um idioma novilatino, com estreito parentesco com o romeno, atualmente com mais de trezentos mil falantes, dipersos [sic] pela Romênia e por países balcânicos, tais como Grécia, Sérvia, Albânia». «Sem querer ser infalível», afirma, o que só lhe fica bem, o consultor, «(apesar da confiança no Ciberdúvidas que o consulente amavelmente manifesta), deve escrever-se arromeno, visto ser esta a forma que parece mais difundida, a avaliar pelos registos em dicionários (cf. Dicionário Houaiss e Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado).»

      Pode concluir-se dessa forma? Bem, não me parece. No meu caso, nem sequer alguma vez tinha lido a variante arromeno, mas apenas aromeno (ou mácedo-romeno, como também é designado).

 

[Texto 818] 

Helder Guégués às 14:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Apostila ao Ciberdúvidas

Wiclefianos

 

 

      Reporto-me a esta questão no Ciberdúvidas. Não sei porque se há-de reservar a forma wycliffiano ou wiclefiano, «como adjectivo relacional, usado na acepção de “relativo a John Wycliff”, sem referência especial à sua doutrina». No excerto a seguir, a par de «hussitas» e «calvinistas», estão os adjectivos «wiclefianos» e «luteranos», todos, pelo contexto e pela referência conjunta, a indicarem seguidores de doutrinas. A incompreensível ausência dos dicionários do vocábulo «luteranista» até ajuda a pôr as coisas nos seus termos. Wiclefiano tanto serve para nos referirmos ao que é relativo a John Wycliff como à sua doutrina.

      «A actividade expurgatória do Santo Ofício foi muito vasta. Importa recapitulá-la pelo que toca às obras de tema relacionado com o nosso, pondo de lado porém os escritos de Erasmo e dos autores de filiação teológica herética (hussitas, wiclefianos, luteranos, calvinistas, etc.)» (Correntes de Sentimento Religioso em Portugal: Séculos XVI a XVIII, José Sebastião da Silva Dias. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1960, p. 625).

 

[Texto 817]

Helder Guégués às 12:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Nome de jogo

Alguém sabe?

 

 

      Um leitor procura tradução para o nome de um jogo — ghost — que sabe que existe em Portugal (o leitor até se lembra vagamente de o ter jogado). Um jogador diz uma letra do alfabeto e os seguintes vão acrescentando novas letras, mas de modo que evite completar uma palavra, pois, se a completar, perde. Em inglês é ghost, porque a cada jogador que perde vai sendo atribuída uma das cinco letras da palavra e, quando completa o vocábulo «ghost», é eliminado.

 

[Texto 816]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Sobre «crioulo»

Nova definição

 

 

      «Os Pretos de Pousaflores constitui, por isso, uma ficção ainda mais radical, na medida em que ao purgatório comum a todos os “retornados” se junta o facto de estarmos perante três jovens crioulos, filhos de Silvério, um português que vivia em Angola há quarenta anos quando, em 1975, achou mais prudente regressar à pátria [...]. Sendo tão portugueses como o louro Rui, são, porém, apenas “pretos”, quase alienígenas para os vizinhos e para a tia que os acolhe de má catadura» («Um eterno retorno», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 13.12.2011, p. 3).

      Por aqui não se percebe bem, mas a sinopse é clara: «Agora, quase quarenta anos volvidos, Silvério está de regresso a Pousaflores. A guerra civil eclodiu em Angola e, se o seu coração é negro, a sua pele não engana e ainda ontem lhe mataram o melhor amigo. Com três filhos mulatos pela mão – todos de mães diferentes –, resta-lhe na aldeia uma irmã amarga, beata e com reumatismo.»

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, crioulo (que tem, acima de tudo, uma acepção linguística) é o «indivíduo que, embora descendente de europeus, nasceu em país originário da colonização europeia». Não é uma definição equívoca? Descendente de europeus, à primeira vista, significa que ambos os pais, pai e mãe, são europeus, isto é, brancos. A ser assim, onde está a miscigenação a que o termo sempre se refere?

 

 

 [Texto 815] 

Helder Guégués às 10:21 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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13
Dez 11

«Incumbente», de novo

Havia muito por onde escolher

 

 

      No «Sobe e desce» da edição de hoje do Público, a língua está de rastos: «O candidato socialista às presidenciais francesas do próximo ano tem uma grande vantagem sobre Nicolas Sarkozy nas sondagens. Ao declarar que renegociará o acordo saído da última cimeira europeia, se ganhar a eleição, reforçou a sua posição e a capacidade de tirar partido das vulnerabilidades do incumbente. (Págs. 16/17)»

     «Portinglês a cevar-se na incúria do indígena», comentava Montexto recentemente a propósito do uso desta palavra no mesmo jornal. Não conhecem ou esqueceram-se da lição de Bertrand Russell: «Na vida não se deveria cometer duas vezes o mesmo erro: há bastante por onde escolher.»

 

[Texto 814]

Helder Guégués às 08:59 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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