16
Dez 11

«Eclodir a guerra»

Rebentou a guerra

 

 

      «Após a libertação da Grécia pelas forças aliadas, [Ares Alexandrou] é enviado, pelas autoridades inglesas, para o campo de prisioneiros de El Daba, na Líbia. E quando estala a guerra civil, é enviado como prisioneiro para sucessivas ilhas do exílio (Moudros, na ilha de Lemnos, e depois Makronesos e finalmente Ai Strates)» («Sob um céu bilingue», Luís Miguel Queirós, «P2»/Público, 16.12.2011, p. 11).

      O jornalista leu Montexto (e Mário Barreto e Botelho de Amaral e muitos outros) e soube evitar o galicismo «eclodir» (a guerra). Não o souberam ou quiseram evitar Garrett, Herculano, Castilho e mesmo Camilo. Mas, ocorre-me agora (Fernando Venâncio, acuda aqui), e se estalar a guerra é um castelhanismo — «estallar la guerra»?

 

[Texto 839] 

Helder Guégués às 19:54 | comentar | ver comentários (31) | favorito
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Como se fala na televisão

Tantas palavras

 

 

      Jornalista Patrícia Machado, ontem à noite em directo à porta do Curry Cabral em reportagem para o Telejornal: «Sabemos que, ele [Eduardo Barroso] já deixou isso por escrito na imprensa, que já fez alertas, como dizia há pouco, à população, para que não colha, mais concretamente no campo, os tais cogumelos sem grande conhecimento de que tipo de cogumelos são esses, e que... não coma nem ingira cogumelos nesta altura no campo, podendo redundar, como dizia também há pouco, numa intoxicação gravíssima ou mesmo na morte das pessoas.»

 

[Texto 838] 

Helder Guégués às 18:04 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Ceia de Estado»?

Só duques

 

 

      «O Museu de Cera de Madrid está a considerar mudar no final da semana a figura de Inâki Urdangarin, genro do rei de Espanha e antigo jogador profissional de andebol, da secção da família real para a área do desporto, segundo informaram fontes da galeria ao jornal El País. O duque de Palma de Maiorca, como é também conhecido Inâki, será separado das figuras de cera do rei Dom Juan Carlos e das duas filhas – Elena e Cristina –, cujo conjunto representa uma ceia de Estado» («Museu de Cera. Figura de Urdangarin poderá mudar de sala», «P2»/Público, 16.12.2011, p. 19).

      Na imprensa espanhola, ora se lê Urdangarin ora Urdangarín. No Público, quiseram dar um cunho diferente ao primeiro nome: Inâki. Gente original. E depois da ceia dos cardeais, a ceia de Estado...

 

[Texto 837] 

Helder Guégués às 16:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Contrair acordos»?

Também não

 

 

      Esclarecida a questão do pesqueiro, eis outra questão. Disse ontem Ana Gomes, a propósito de Marrocos ter obrigado os bascos pesqueiros da União Europeia a deixarem as suas águas: «O acordo de pescas com Marrocos era legal nos termos do direito internacional. O Sahara Ocidental é um território não autónomo e Marrocos não tem o direito de contrair acordos sem dar contas de como é que esses acordos beneficiam a população do território ocupado.»

      Os acordos contraem-se? Nunca li nem ouvi. O casamento, que é um contrato, e um contrato é um acordo, contrai-se, sim, mas não conheço outros casos.

 

[Texto 836]

Helder Guégués às 15:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «pesqueiro»

Hã?

 

 

    «O pesqueiro marroquino é marginal no contexto da actividade em Portugal. Representa 1500 toneladas num sector que, em 2010, foi responsável por descargas de 200 mil toneladas. Portugal dispunha de 14 licenças para barcos da pesca artesanal polivalente, que eram normalmente utilizadas por embarcações do Algarve» («Pesqueiro valia muito pouco para a frota portuguesa», J. M. R., Público, 16.12.2011, p. 26).

    Desconheço e não encontro esta acepção em nenhum dicionário ou vocabulário. Perguntem aí a J. M. R., se fazem favor.

 

[Texto 835]

Helder Guégués às 13:45 | comentar | ver comentários (13) | favorito
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Género: «grama»

Não lhes entra

 

 

      «Na montra das máquinas, consulta-se um “catálogo” que vai desde barras de ouro de uma, cinco e dez gramas a libras, krugerrand (moeda sul-africana) e moedas de prata águia. O preço dos produtos “actualiza de acordo com a cotação do ouro no momento da compra”, explica J. Chester, acrescentando que as barras e as moedas vendidas no ATM têm certificação internacional de ouro e prata» («Máquinas ‘multibanco’ com ouro chegam a Portugal», Público, 16.12.2011, p. 21).

 

[Texto 834] 

Helder Guégués às 13:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Acordo Ortográfico

Devagarinho, para não assustar

 

 

      «Eletricidade aumenta 4% no próximo ano e conselho tarifário critica falta de medidas» (Inês Sequeira, Público, 16.12.2011, p. 20).

      Assim, em doses homeopáticas, os leitores do Público não vão rejeitar as novas regras ortográficas. Talvez até se esqueçam da cruzada. Eu já tinha dito isto? Ah, peço desculpa.

 

 

[Texto 833]

Helder Guégués às 13:21 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Próximo presente»

Se for necessário

 

 

      Uma professora brasileira, Emília Tavares, quis saber se existe a expressão «próximo presente». «Ou apenas “próximo passado” e “próximo futuro”? Por exemplo, no dia 10 de novembro, posso usar para o dia 5 de novembro “próximo presente”? Ou isso não existe?» Bateu à porta errada. Responde o consultor: «Não se usa. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Porto Editora, acolhe apenas duas abreviaturas: p. p., “próximo passado”, e p. f., “próximo futuro”.»

      A abertura de hoje do Ciberdúvidas é esclarecedora: «A atualização deste dia é exemplificativa da diversidade de temas comummente focados neste consultório [...]  e até a inquirição sobre expressões que não existem.» E uma hiperligação remetia para o «próximo presente». Não vejo que seja um disparate, e lá que existe, existe, pois, entre muitas outras ocorrências, vejo aqui um soneto de João Alv’res Soares «Ao Sereníssimo Príncipe Nosso Senhor em 6 de junho de 1724».

 

[Texto 832]

Helder Guégués às 13:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Acordo Ortográfico

Depois da cruzada

 

 

      «O Tribunal da Relação de Coimbra condenou os proprietários de uma loja de Aveiro ao pagamento de uma multa de 6500 euros por terem obrigado uma trabalhadora a cumprir o horário laboral sentada, virada para a parede e sem nada para fazer. Segundo o acórdão daquele tribunal, a que a agência Lusa teve acesso, o comportamento dos proprietários da loja configura assédio a trabalhador, uma contraordenação “muito grave”» («Condenados por colocarem empregada contra a parede», Público, 16.12.2011, p. 13).

      Assim, em doses homeopáticas, os leitores do Público não vão rejeitar as novas regras ortográficas. Talvez até se esqueçam da cruzada.

 

 

[Texto 831]

Helder Guégués às 12:44 | comentar | favorito
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«Revanchista»

Se quisermos

 

 

      «O ex-candidato presidencial Manuel Alegre acusou ontem o Governo de pretender acabar com o feriado de 5 de Outubro por razões “ideológicas” e “revanchistas”, advertindo que nem Oliveira Salazar se atreveu a tocar na instauração da República» («Fim dos feriados: Alegre acusa Governo de “revanchismo”», Público, 16.12.2011, p. 10).

      Agora já será demasiado tarde, porque é galicismo enraizado, mas ainda assim é bom saber que pode ser substituído por vindicativo, por exemplo, como leio tantas vezes em textos castelhanos.

 

[Texto 830]

Helder Guégués às 12:36 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Imagética e metafórica»?

Os grandes oradores

 

 

      «Do lado do PS, o líder parlamentar Carlos Zorrinho defendeu o deputado, embora admitindo que este havia recorrido a “uma metafórica e uma imagética muito forte”. Mas garantiu acompanhar o colega de bancada no conteúdo» («Discurso do “não pagamos” sobre dívida volta a assombrar PS», Nuno Sá Lourenço, Público, 16.12.2011, p. 27).

      Já conhecíamos a imagética, sim senhor, mas a metafórica é invencionice do deputado Carlos Zorrinho. Aposto que os jornalistas vão passar a usá-la.

 

[Texto 829]

Helder Guégués às 12:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Falharam no dever de proteger»?

Às três pancadas

 

 

      «Os ajudantes de Joe Arpaio, xerife do condado de Maricopa, Phoenix, interceptaram e detiveram cidadãos devido ao tom da pele, ou por falarem castelhano, e falharam no dever de proteger a comunidade hispânica» («Xerife do Arizona acusado de discriminar latinos», Público, 16.12.2011, p. 27).

 

[Texto 828]

Helder Guégués às 12:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Pena suspensa de prisão»?

Agora é assim?

 

 

       «Ausente da leitura da sentença, como de todo o julgamento, devido a problemas neurológicos “severos” e “irreversíveis”, Chirac, 79 anos, recebeu a condenação “com serenidade”, segundo Jean Veil, um dos seus advogados, citado pela AFP» («Jacques Chirac, ex-Presidente de França, condenado a pena suspensa de prisão», João Manuel Rocha, Público, 16.12.2011, p. 27).

      Lá vem outra vez a «severidade»... Mas reparem no título: «Jacques Chirac, ex-Presidente de França, condenado a pena suspensa de prisão». E, no entanto, no corpo da notícia até se lê: «Foi condenado a 14 meses de prisão com pena suspensa e a um ano de inelegibilidade.»

 

[Texto 827]

Helder Guégués às 11:56 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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16
Dez 11

«Carrear as provas»

Pelas ruas da amargura

 

 

      «Segundo a PSP, o que falta agora é carregar as provas contra o arguido, que estará disponível para se deslocar a Portugal para ser julgado» («Microcâmara em hospital pode chegar a tribunal», M. G., Público, 16.12.2011, p. 18).

      O erro pode ter tido origem na fonte, mas, como falta o melhor — a cultura geral do jornalista —, todas as desculpas são bem-vindas. É carrear que se diz, caro M. G., carrear, que, no contexto, significa juntar, acumular.

 

[Texto 826]

Helder Guégués às 11:08 | comentar | favorito
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