17
Dez 11

Como se escreve nos jornais

Cum caneco, já não há verbos

 

 

      «Resta introduzir que Ricardo foi apanhado a conduzir um Opel à meia-noite com 1,90 gramas de álcool no sangue – não sabemos se tinha álcool no sangue ou sangue no álcool – mas, como veremos, só o fez porque é um homem bom» («Ricardo. A matéria-prima que prova que homem bom é um bicho raro, mas não nos tribunais», Sílvia Caneco, i, 17.12.2011, p. 27).

 

[Texto 849]

Helder Guégués às 14:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

No circo

 

 

      «A mulher bala volta a aparecer, desta vez com um capacete na mão e um mâio.[...] “O meu recorde pessoal é de 44 metros”, conta Jeniffer. “É três vezes mais do que estou a fazer aqui, porque não há espaço. Não posso ir mais longe se não bato no tecto e não posso puxar o airbag mais para cima porque ficava em cima das pessoas.”» («Mulher bala. É um pássaro? É um avião? É a atracção principal do Circo Cardinali», Clara Silva, i, 17.12.2011, pp. 44-45).

 

 

[Texto 848] 

Helder Guégués às 14:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Em japonês

 

 

      «É também o caso de Neymar, que anda de táxi de um lado para o outro sem que alguém lhe importune por uma fotografia ou um autógrafo»  («Tóquio. Uma versão divertida do Lost in Translation», Rui Miguel Tovar, i, 17.12.2011, p. 61).

 

[Texto 847]

Helder Guégués às 13:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como vai o ensino

A escola moderna

 

 

      Acabou há minutos o programa Em Nome do Ouvinte, na Antena 1, que teve como convidada a linguista Regina Rocha. A propósito de dúvidas, a linguista disse que ainda há pouco um colega, professor de Direito no ensino secundário, lhe tinha perguntado se se dizia /prolicho/ ou /prolicso/.

 

 

[Texto 846]

Helder Guégués às 13:43 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Auditório/audiência/público»

Conjunto de ouvintes

 

 

      «Já não estamos na ilha de Santo Domingo de la Hispaniola, já não haverá colonos no auditório, mas frei Antón de Montesinos voltará a subir ao púlpito e a criticar os espanhóis pelas crueldades que infligem aos índios. No próximo dia 21, às 21h30, Luís Miguel Cintra será frei Montesinos. E repetirá, na Igreja do Convento de S. Domingos, em Lisboa, o sermão que aquele frade dominicano pregou, faz nesse dia precisamente 500 anos, condenando com veemência a forma como os espanhóis tratavam os índios na ilha de La Hispaniola» («Frei Montesinos vai voltar a pregar contra a exploração dos índios», António Marujo, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 10).

      Muito bem, auditório, conjunto de ouvintes. Nos últimos anos, na imprensa e mesmo nos livros, tem-se vindo a impor o anglicismo semântico «audiência». Que, já li, há quem defenda ter não sei que matiz que o torna insubstituível com o significado de «conjunto de pessoas que, num dado momento, assistem a um programa de televisão ou ouvem uma emissão radiofónica». Em Espanha, por exemplo, só entrou na 20.ª edição do DRAE, em 1984. Claro que, mesmo sem influxo estrangeiro, os vocábulos passam a significar algo diferente. Parlamento, por exemplo, que antes só significava «discurso» numa assembleia, hoje também significa a própria assembleia.

 

 [Texto 845] 

Helder Guégués às 12:34 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«E o de marechal tem de ser pequeno»

Com sessões e cartazes

 

 

      «Vejamos então o que se passa no 1.º ciclo. O Francisco tem nove anos e está no 4.º ano de uma escola pública de Lisboa. Já estão a escrever segundo o acordo ortográfico? Diz que sim, e descreve uma sessão em que lhes foi apresentado um powerpoint com várias imagens mostrando as alterações que o acordo introduz. Se ele sabe algum exemplo? Sabe um dos que lê todos os dias nos cartazes que a professora colou nas paredes da sala: “Em Avenida Marechal Gomes da Costa, o ‘a’ de Avenida pode ser grande ou pequeno, e o de marechal tem de ser pequeno”, explica» («Este ano ainda será lectivo ou já será letivo?», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 8).

      Dito assim, até parece que o miúdo estava a troçar da jornalista: «Em Avenida Marechal Gomes da Costa, o ‘a’ de Avenida pode ser grande ou pequeno, e o ‘a’ de marechal tem de ser pequeno.» Claro que a jornalista não tinha obrigação de elucidar o rapazinho, tanto mais que trabalha num jornal que (ainda) não aplica as novas regras. Ainda, sim, porque a prazo essa posição, já o escrevi uma vez e repito, é insustentável. «A professora decidiu entretanto tirar os cartazes da sala por achar que era demasiada informação para ser dada de uma vez só». Muita e, a fazer fé na memória do aluno, alguma errada. Não é como ele diz. Está a amalgamar duas regras, por acaso afins.

 

[Texto 844] 

Helder Guégués às 08:18 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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«Mas não em cor-de-laranja»

Ai, ai

 

 

      Ou melhor, quando leio ou ouço falar do Acordo Ortográfico, puxo logo da pistola. «Também Ana Soares [coordenadora do departamento de Português do Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa] diz que as dificuldades que têm surgido resultam de regras cuja lógica nem sempre é perceptível — por exemplo, o hífen, que deixa de existir em cor-de-rosa, mas não em cor-de-laranja. Curiosamente, é o mesmo exemplo que Fátima Gomes utiliza para lamentar que a questão da hifenização “tenha muitas excepções, e depois excepções dentro das excepções.”» («Este ano ainda será lectivo ou já será letivo?», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 9).

      Santo Deus, mas onde é que esta gente leu semelhante coisa? Há-de ser onde se ouve dizer que «se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’». Pessoas com responsabilidade — no caso, coordenadora do departamento de Português —, em circunstâncias formais, e fazem estas afirmações.

 

[Texto 843] 

Helder Guégués às 07:54 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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«Se disser Egipto escreve com ‘p’»

Estamos bem, estamos

 

 

      Quando se fala sobre o Acordo Ortográfico na imprensa, podemos esperar trapalhada. Vai um exemplo: «“Algumas bases são extremamente subjectivas”, diz [Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP)]. “Sobretudo no que diz respeito ao uso do ‘p’ e do ‘c’, em que, em muitos casos, a pessoa pode escrever conforme lhe apetecer. Se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’» («Este ano ainda será lectivo ou já será letivo?», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 8).

     A sério? «O topónimo ‘Egipto’ não se encontra registado na MorDebe.» É isto que Edviges Ferreira, «que tem feito várias acções de formação sobre o AO», ensina?

 

[Texto 842]

 

Helder Guégués às 07:41 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Um muito mau negócio»

Acordo Ortográfico

 

 

      O encenador Ricardo Pais escreve hoje sobre — e contra — o Acordo Ortográfico no Público. Transcrevo apenas o último parágrafo, porque o argumento que nele se lê tem passado aqui pelo Linguagista, em especial nos comentários de Fernando Venâncio. «Alterar a norma do escrever significa alterar a norma do dizer — porque as vertentes da escrita e da leitura na ortografia não são estanques. Quebrar estas regras significa quebrar a nossa identidade. E, ainda que o Acordo Ortográfico seja mais prejudicial para Portugal, representa uma perda para todo o universo da Língua Portuguesa. Espero que a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ilcao.cedilha.net), cuja subscrição convido o leitor a fazer, possa ter êxito, para assim repor alguma da sanidade perdida nesta matéria» («Um muito mau negócio», Ricardo Pais, Público, 17.12.2011, p. 35).

 

 [Texto 841]

Helder Guégués às 07:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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17
Dez 11

Conjunção «porque»

O último segredo

 

 

      «Só aguentei ler [O Último Segredo, de José Rodrigues dos Santos] porque não me chamam fraudulenta. Eu não me encontrei no lixo, já dizia a minha avó. A Bíblia pertence a uma história que não se deixa degolar pela lâmina de um qualquer jeitoso para a escrita» («Isto não é o último segredo», Fátima Pinheiro, Público, 17.12.2011, p. 35).

      Como interpretar a primeira frase? Só atribuindo à conjunção porque um valor final (equivalente à locução para que), o que exigiria o verbo no conjuntivo, a frase seria lógica. «Só aguentei ler porque [para que] não me chamem fraudulenta.» O que, convenhamos, seria pura ressurreição arcaizante do emprego de porque como conjunção final. Curiosamente, ainda ontem o consultor do Ciberdúvidas Miguel Moiteiro Marques (já nosso conhecido, e não propriamente por acertar naquilo que escreve) escrevia: «O uso de porque como conjunção final (com o sentido de “para que”) não é corrente no português moderno, embora esteja contemplado em certas gramáticas.»

 

[Texto 840] 

Helder Guégués às 06:51 | comentar | favorito
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