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Linguagista

Léxico: «canhangulo»

Espécie de trabuco

 

 

      «Traziam amuletos para que as balas dos brancos não lhes fizessem mal, atacavam com canhangulos e catanas, trepavam pelos muros e caíam ao pé do portão» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 29).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que é o nome que, em Angola e Moçambique, tinha a espigarda antiga de carregar pela boca. Seria? «Os canhangulos eram armas feitas com canos rudimentares, onde os guerrilheiros colocam pólvora e pregos, bocados de ferro, etc. Através de uma cabeça de fósforo colocada num orifício, perto da pólvora, o gatilho, feito de madeira, agarrado ao fuste, fazia disparar a arma, a mais perigosa que “eles” tinham» (A Vida É Um Ensaio, Adriano Correia de Pinho. São Paulo: Biblioteca 24 Horas, 2010, p. 67).

 

[Texto 886]

Sempre o inglês

Em Luanda

 

 

      «Naquele gabinete já se lhe sente o cheiro, está no corredor por onde o Capitão os acompanha, por detrás das portas fechadas, no pátio da entrada e nas janelas iluminadas onde teóricos e burocratas redigem sitreps e perintreps» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 23).

      Em Álvaro Guerra ao menos aparecia grafado em itálico: «– Li-lhe as perintreps, os louvores ao batalhão, ouvi-lhe uma arenga no QG de Luanda. Duro de roer. Não vai tratar como iguais os que lá tratava como bandidos» (Café 25 de Abril: as Ruínas: Folhetim do Mundo Vivido em Vila Velha, Álvaro Guerra. Lisboa: Jornal, 1987, p. 92).

      Do inglês, pois claro: sitrep (situation report) e perintrep (periodic intelligence report).

 

[Texto 885]

Como se fala na televisão

Tradição portuguesa

 

 

      As labaredas do madeiro de Natal de Penamacor cresceram mais alto do que a igreja. Os bombeiros, de prevenção, intervieram. «Agora é suposto o madeiro ficar a arder até aos Reis, dia 6 de Janeiro», rematou o repórter da RTP. É modismo que se está a empregar menos nos últimos tempos, parece-me.

 

[Texto 884]

Como falam os médicos

Pontos de vista

 

 

      Anteontem, o Dr. José Roquette, director clínico do Hospital da Luz, veio novamente falar do estado de saúde de Eusébio: «Eusébio passou muito bem a noite, está muito calmo. Do ponto de vista clínico, laboratorial, imagiológico e radiológico, está melhor.»

 

[Texto 883]

Ouçam-se

Exercício

 

 

      «Devíamos tê-la invejado por ter encontrado alguém sem quem sentia não poder sobreviver para além da porta de embarque, para já não falar da distância, num austero quarto de estudante num subúrbio do Rio» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 46).

      Neste caso, não se trata da tradução em si, mas da absoluta falta de ouvido. Ora leiam em voz alta: «alguém sem quem sentia». Agradável? Harmonioso? Eufónico?

 

[Texto 882] 

Tradução: «wear»

Se tudo correr mal

 

 

      «Ambos envergando óculos de sol enormes, tinham chegado à idade adulta no período entre a pneumonia asiática e a gripe dos porcos» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 45).

      Como em inglês é wear, muitos (o erro não é novo para mim) julgam que a melhor tradução é «envergar». Essa acepção, porém, só nos dicionários do futuro, porventura, se poderá encontrar. Se tudo correr mal. Enfim, não é só de melhores dicionários que precisamos.

 

[Texto 881]