12
Jan 12

Sobre «descontinuar»

Como os pesadelos

 

 

      Joana Queiroz Ribeiro, porta-voz da Unicer, em declarações à Antena 1: «Essa consolidação vai levar a que em Março de 2013 nós descontinuemos em Santarém a produção de cerveja e passemos a fazê-la toda em Leça do Balio.» Descontinuar. Entrou, nos últimos tempos, em moda. Não significa mais do que interromper, suspender, cessar, mas a intenção de quem a usa parece ser dar a entender outra coisa. É, de certa maneira, um eufemismo. «A unidade de produção de cervejas da Unicer em Santarém vai fechar?! Nós não dissemos tal. Dissemos, isso sim, que a produção vai ser descontinuada.» E a revista Focus também vai ser descontinuada, soube-se hoje...

 

[Texto 950]

Helder Guégués às 22:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ovos de borda dourada

Como os sonhos

 

 

      «Comem-se ovos fritos em todo o mundo. Em Portugal, vão bem sozinhos, com batatas ou a cavalo num bife. Em Espanha é mais ou menos igual, se bem que os espanhóis apreciem muito as puntillas, que é quando a clara fica queimada à volta» («Vamos estrelar um ovo?», Teresa Resende, Visão Júnior, n.º 89, Outubro de 2011, p. 51).

      É verdade, puntillas. Como eu também prefiro. Sim, os Espanhóis distinguem os fritos a la francesa, a la española e abuñuelados. É nestes que se encaixam os que têm puntillas, que aparecem sempre que a gordura e a temperatura são excessivas. Que se encaixam... Pois puntilla é o encaje, a «renda», isto é, a obra de malha feita com fios de linha, seda, ouro, etc., ou, como é o caso, algo semelhante. A borda dourada ou torrada, como escreveu Pedro Nava num poema: «Os ovos bem estrelados/ eram torrados na borda,/ a clara cozida em torno/, a gema de ouro vermelho/ coberta de fina bruma,/ quem fazia iguais aos seus?»

 

[Texto 949] 

Helder Guégués às 22:30 | comentar | favorito
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Etnónimos & etc.

Talvez na Squipëria seja assim

 

 

      «Os primeiros habitantes da Albânia hoje conhecidos foram as tribos ilírias. Depois chegaram os Gregos, os Macedónios de Alexandre o Grande, mais tarde os Romanos e, finalmente, o território albanês ficou integrada [sic] no Império Bizantino» («Albânia», Luís Almeida Martins, Visão Júnior, n.º 89, Outubro de 2011, p. 56).

      «Bom, como país independente, a Eslovénia só existe há 20 anos, desde 1991, mas os eslovenos já habitam na região há 15 séculos, logo depois do fim do Império Romano» («Eslovénia», Luís Almeida Martins, Visão Júnior, n.º 90, Novembro de 2011, p. 54).

      «Esta revista», lê-se nos dois números, «foi escrita segundo as regras do novo acordo ortográfico». Esquecendo tudo o resto, avulta esta teoria: se nos referimos a povos antigos, é sempre com maiúscula; se nos referimos a povos actuais, pode ser ou não. É assim, senhor jornalista e senhores revisores?

 

[Texto 948]

Helder Guégués às 21:27 | comentar | favorito
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«Possíveis e imaginários»

Ora esta

 

 

      Creio que já uma vez me ocupei perfunctoriamente desta magna questão no Assim Mesmo: a pretensa incorrecção da expressão «possíveis e imaginários». Pus-me a pensar: quando se terá começado a usar? Na literatura do século XIX, do que eu conheço, não consta. Hoje, numa tradução, li «possíveis e imagináveis». Naquele século, o que se encontra é... possíveis e imagináveis.

 

[Texto 947]

Helder Guégués às 12:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «abeta»

«E o Luís é maçon?»

 

 

      Graças à RTP e à repórter Sandra Vindeirinho, agora já sabemos o preço de um avental maçónico de grão-mestre: 150 euros. Bordado a fio de ouro, pode custar cerca de 3000 euros. Explicou o lojista (Amigo da História, na Rua do Patrocínio, em Campo de Ourique), Luís Carlos Silva: «É um avental totalmente liso, sem qualquer [...] e o aprendiz usá-lo-á desta forma, em loja, e usa desta forma, com a abeta para cima, porque ainda está no início dos seus trabalhos, ainda suja bastante, isto simbolicamente falando, e como tal precisa de mais superfície para se proteger quando está a fazer os seus trabalhos maçónicos.»

      Pelo que vi, poucos dicionários registam o vocábulo, um diminutivo: abeta. O Dicionário Houaiss acolhe a acepção: «pequena aba que, no avental dos maçons, indica, segundo a maneira com que é usado, o grau daquele que o veste».

 

[Texto 946]

Helder Guégués às 10:43 | comentar | favorito
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«Por isso, me assumo...»

Por isso

 

 

      «Sou cristão desde que me conheço. Acredito na ressurreição de Jesus Cristo, como filho de Deus. O padrão moral da sua palavra, que está nos Evangelhos, guia-me nas minhas dificuldades. Apesar das vicissitudes, algumas deploráveis, da sua história, a Igreja Católica é o meu espaço de pertença à fé cristã. Por isso, me assumo como católico» («Eu, cristão e maçon», Ricardo Sá Fernandes, Público, 12.01.2012, p. 35).

     Parece um mação brasileiro a escrever. Por isso me assumo... Por isso, assumo-me...

 

[Texto 945]

Helder Guégués às 09:05 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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12
Jan 12

Explicativo, explicado, muito explicado...

À Zuca Maluca

 

 

      Hoje em dia, os livros para crianças têm de falar de bruxas — ou não prestam. É a moda, ditadora. Mais um: «O príncipe, ao ouvir a bruxinha, soltou uma estrondosa gargalhada. Desatou a rir. Ria a bom rir por ver na sua frente uma bruxinha ruiva tão explicativa e desembaraçada» (Zás Trás Pás Zuca Maluca, Vera Roquette. Com ilustrações de João Moreno e revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 20).

      «Explicativa»? Explicativo é o que significa, o que esclarece, o que serve para explicar; elucidativo. Quase exclusivamente usado na oralidade, e mais noutras partes do País do que em Lisboa, há um termo que significa o que a autora queria neste passo dizer: explicado. «E bem-falante, muito explicada, respondona como a maior das malcriadas, sempre com a palavra do Cambronne na boca, pronta para desferi-la, como se estivesse no quadrado da guarda imperial, em Waterloo [...]» (Ao Entardecer, Contos Vários, Afonso de Escragnolle Taunay. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1901, p. 42 [com actualização ortográfica]).

 

[Texto 944] 

Helder Guégués às 08:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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