14
Jan 12

«Excepção de pessoas»?

Como é?

 

 

      Na edição da História Trágico-Marítima anotada e comentada por António Sérgio, publicada em 1956, lê-se: «Assim se punha tudo em um monte, trabalhando todos sem haver ai exceição de pessoas, todos igualmente; os que não sabiam nadar, trazendo às costas e tirando-o do mar, com a água que lhe dava pelo pescoço, o que achavam por esses recifes [...].» Anota António Sérgio:  «EXCEIÇÃO DE PESSOAS. Ou, antes, acepção (preferência) de pessoas (do latim “acceptio”). Ao que nos parece, o autor confundiu “acepção” com “excepção”, de que se encontra a forma antiga e popular “exceição”.»

      António Pereira de Figueiredo na tradução do Novo Testamento: «Estes pois lhe fizerão huma pergunta, dizendo : Mestre, sabemos que fallas, e ensinas rectamente : e que não fazes excepção de pessoas, mas que ensinas o caminho de Deos em verdade.» Numa edição de 1856 das obras do P. António Vieira, também se lê: «E os mesmos castigos, sem haver excepção de pessoas, se dão ás mulheres donzellas e moças, e tão honestas, que em sua casa e de seus paes, não as via o sol, nem a lua [...].»

 

[Texto 957] 

Helder Guégués às 13:19 | comentar | ver comentários (21) | favorito
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«Proeminência/preeminência»

É tudo alto

 

 

      Assim? «Governo de coligação PSD-CDS, desde que tomou posse, ofereceu, generosamente, à gente sua amiga uma dezena de lugares de proeminência, muitíssimo bem pagos» («Uma velha história», Vasco Pulido Valente, Público, 14.01.2012, p. 32).

      Ou assim? «O ruído das vozes cresceu: surdas discussões de presbíteros querelando sobre os lugares de preeminência» (O Trono do Altíssimo, João Aguiar. Lisboa: Perspectivas & Realidades, 1988, p. 310).

 

[Texto 956]

Helder Guégués às 08:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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14
Jan 12

«Língua de Todos»

Salvo seja

 

 

      Eis o começo do programa Língua de Todos emitido no dia 6 do corrente: «Segundo o Dicionário Aurélio, “filologia”, do grego Φιλολογία, é o estudo da língua em toda a sua amplitude e dos documentos escritos que servem para documentá-la. Numa segunda asserção, inclui também a crítica textual.»

      E estes, caros leitores, são bisbórrias da glote ou outra raça de torcionários da língua? Não valia a pena sermos muito severos, se não se tratasse de um programa realizado pelo Ciberdúvidas. Como é que alguém — no caso, e como agravante, uma equipa — que se «dedica à língua portuguesa» pode confundir conceitos tão diferentes? É um erro crassíssimo.

      Asserção vem do latim assertio, de assero, «afirmar», «assegurar»; acepção vem do latim acceptio, de accipio, «receber», «aceitar». Têm, em latim como em português, sentidos bem estabelecidos e diferentes. Asserção significa «afirmação categórica», «alegação». Acepção é a designação que se dá em lexicografia a cada um dos vários sentidos que palavras ou expressões apresentam de acordo com cada contexto.

      Agora, um exemplo da literatura: «E para comprovar a sua asserção, explicou ao Visconde a acepção pejorativa, que tomava a palavra paca tôda vez que era empregada com relação ao homem» (Contos Reunidos, Gastão Cruls. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1951, p. 93).

 

[Texto 955] 

Helder Guégués às 08:01 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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