15
Jan 12

Léxico: «portilha»

Novidade

 

 

      O homem levava para casa tudo o que podia — até cacaréus inúteis como potes e portilhas de ferro. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, portilha é apenas «seteira». Ora, uma seteira é uma fresta aberta numa parede. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, é termo desusado e designa uma «grande abertura na parede; seteira». Para o Dicionário Houaiss, é termo obsoleto sinónimo de «seteira». Talvez venha do castelhano portilla.

 

[Texto 964]

Helder Guégués às 16:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «água-de-colónia»

Não percebo

 

 

      «Nas locuções de qualquer tipo», lê-se na Base XV, 6.º, do Acordo Ortográfico de 1990, «sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).»

      Perfeitamente claro. Consultemos agora o Vocabulário Ortográfico do Português (VOC), onde podemos ler que se escreve «água de Colónia». «Apenas em Portugal», lê-se. Com a variante «água-de-colónia». (E «água de Colônia (apenas em Brasil)», mas esqueçamos o Brasil.) Podemos concluir que o vocábulo tem as grafias água-de-colónia e água de Colónia? Mas se o texto do acordo o inclui entre os que não perdem o hífen, por estarem já consagrados pelo uso!

 

[Texto 963]

Helder Guégués às 11:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se fala na televisão

Naufrágio

 

 

      José Rodrigues dos Santos: «Vamos em directo para Roma, onde se encontra o Rui Almeida, um jornalista que estava no navio e sobreviveu ao desastre. Boa noite, Rui. Como foi que viveu esta experiência?» Rui Almeida: «Boa noite, Zé. É daquelas experiências que ninguém conta passar.» E atenção, não estava perturbado: «Eu devo dizer que, da minha parte, procurei utilizar também o instinto jornalístico para manter alguma equidistância, a equidistância possível numa situação destas.»

 

[Texto 962]

Helder Guégués às 10:58 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Ilegítimo, irracional, inútil

É uma opinião

 

 

      «Ninguém tem o dever de aceitar (e de se habituar a) este AO, que é ilegítimo (na forma e no conteúdo), irracional e inútil. Ele seria inaceitável mesmo que obrigasse a uma verdadeira “uniformização” da ortografia... só que, para cúmulo do ridículo, o “acordo” não só não “uniformiza” como aumenta, por via do acréscimo de novas duplas grafias, o número de palavras “à paisana”! Repare-se: no Brasil continuará a ser “autorizado” escrever, por exemplo, “detectar” e “receptivo”; porém, em Portugal é su- posto passar a escrever-se “detetar” e “recetivo”. E quem é que, honestamente, consegue jurar que, por exemplo, “espectador” e “espetador” se lêem da mesma maneira? Acaso alguém com um mínimo de juízo, de sensatez, irá alinhar nesta anedota? Acaso ainda restam algumas dúvidas quanto à utilidade e à validade (zero em ambos os casos) de todo este processo?» («“Velho do Restelo”, e com muito orgulho!», Octávio dos Santos, Público, 15.01.2012, p. 54).

 

[Texto 961]

 

Helder Guégués às 08:49 | comentar | favorito
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Passageiros descurados

Pelo contrário

 

 

      Pelos altifalantes de um aeroporto, chamaram um passageiro à loja de chocolates e outro à relojoaria. Logo: «Muito descurados andavam os passageiros naquele dia. Antes mesmo de descolagem, alguns já estavam com a cabeça no ar. Também os procedimentos de segurança do aeroporto denotavam algum laxismo» («Anomalias aéreas», Ricardo Garcia, Público, 15.01.2012, p. 37).

      Caro Ricardo Garcia: experimente ler agora num dicionário o verbete «descurar». Passe bem.

 

[Texto 960]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | favorito
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Ortografia: «ecocidade»

Como calha, não é?

 

 

      «Engenheiros e técnicos ao serviço do empreendimento turístico de Vilamoura, no Algarve, começaram a deslocar-se de bicicleta, nomeadamente em visita a obras, para dar o exemplo. O maior resort da Europa quer apostar no uso das bicicletas partilhadas no quadro da sua estratégia de afirmação como eco-cidade» («Vilamoura quer ser uma eco-cidade, pessoal do resort já anda de bicicleta», Idálio Revez, Público, 15.01.2012, p. 37).

      E procurou saber como se devia escrever a palavra, caro Idálio Revez? Ou limitou-se, como me palpita, a ler um qualquer folheto publicitário? Se se deve escrever «ecoescola», pense agora como se deverá grafar esse termo.

 

[Texto 959]

Helder Guégués às 08:47 | comentar | favorito
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15
Jan 12

«Guarnecer de alimentos»?

Desguarnecido

 

 

      «O mercado municipal de Cascais permanece no vale da Ribeira das Vinhas e, quem quer que já se tenha deslocado pelo centro da vila – no sentido da baía ou no caminho para as praias do Guincho – passou-lhe ao lado. A circulação automóvel às quartas e sábados de manhã processa-se, necessariamente, com maior intensidade, perante o acrescido movimento de quantos se procuram guarnecer de alimentos» («Antes & Agora. Usos saudáveis do passado preservados em Cascais», Luís Filipe Sebastião, Público, 15.01.2012, p. 36).

      Talvez de frutos, legumes e flores, como Arcimboldo. Não passam a redacção a limpo, dá nisto. Só os exércitos é que guarnecem — mas apenas de gente e munições — as praças, os quartéis, as fronteiras. Os submarinos também são guarnecidos, isto é, providos de tripulantes. Como também podemos guarnecer de livros uma biblioteca. Guarnecer, nesta acepção, é prover do necessário. O jornalista deveria ter escrito, por exemplo, «abastecer de alimentos».

 

 

[Texto 958]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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