20
Jan 12

Como se escreve nos jornais

Para o anedotário

 

 

      «Depois do almoço, há-de caminhar, com uma esfregona na mão, um balde na outra, até ao pavilhão da prisão. Faz parte da brigada hergoterapêutica, o grupo que limpa aquele espaço comum em regime de voluntariado, no pressuposto de que mata tempo, faz algo pela comunidade, ganha sentido de responsabilidade» («No Clube K», Ana Cristina Pereira, «P2»/Público, 20.01.2012, p. 4).

      Deve ter sido o recluso que aspirou — e a senhora jornalista, cheia de medo, apontou: hergoterapêutica. Na redacção, nem se lembrou de ir consultar um dicionário. Para quê, não é?

 

[Texto 988] 

Helder Guégués às 17:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «ludista»

Dos motins de Nottinghamshire

 

 

      «Num mundo em constante mutação, o princípio do fim da rigidez do mercado laboral só é um “recuo civilizacional” na perspectiva ludista daqueles para quem toda a evolução da organização do trabalho é sempre vista como um atentado à dignidade humana» («O dia “histórico” e o tal “recuo civilizacional”», José Manuel Fernandes, Público, 20.01.2012, p. 33).

      Relativo ao ludismo ou adepto do ludismo (do nome do suposto cabecilha do movimento, Ned Ludd) aqui, por extensão de sentido, o que se opõe a qualquer tipo de progresso tecnológico por considerar que este prejudica a sociedade, e mormente a classe operária. Embora pertença mais ao domínio enciclopédico (a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, por exemplo, acolhe-a), surpreende-me que nenhum dos dicionários que consultei a registe.

 

[Texto 987]

Helder Guégués às 15:09 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Tradução: «cap»

Chapéu

 

 

      «Wash your strawberries, and remove their caps», lia-se no original. E o tradutor verteu assim: «Lave os seus morangos e retire os píncaros e folhas.» Reparem bem: «píncaros e folhas» onde estava somente caps. «Pedúnculo de certos frutos»: regionalismo beirão, regista o Dicionário Houaiss. («Como a cereja e a ginja», acrescenta o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.) Dá jeito, mesmo que as folhas fiquem de fora.

 

[Texto 986]

Helder Guégués às 10:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «buzo»

Del portugués, segurísimo que sí

 

 

      «Las labores de búsqueda de los desaparecidos del crucero Costa Concordia», lia-se na edição de ontem do El País, «se han vuelto a interrumpir esta mañana por movimientos en el buque. Los buzos ya interrumpieron ayer sus trabajos porque la embarcación oscilaba y era peligroso acceder a los camarotes y salones sumergidos.» 

      Segundo alguns autores espanhóis, pode ter vindo de uma variante portuguesa; segundo outros, provém seguramente da língua portuguesa. O DRAE, por exemplo, regista: «Del port. búzio, caracol, y este del lat. bucĭna, cuerno de boyero.» Algumas gramáticas escolares do país vizinho também o incluem, a par, por exemplo, de mejillón, entre os galeguismos e os lusismos. De Bluteau e Morais a todos os dicionários actuais, búzio ainda é «o que mergulha bem, ou o pescador de pérolas, coral e outras coisas que estão no mar». Alguns dicionários continuam a registar a variante buzo para designar o molusco gastrópode.

 

[Texto 985] 

Helder Guégués às 09:20 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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20
Jan 12

«Palavras plenas/palavras instrumentos»

À volta, à volta

 

      A pergunta era muito singela: «O que são e como identificar num texto palavras plenas e palavras-instrumento?» A pergunta foi feita ao Ciberdúvidas por Eugénia Oliveira. O consultor Miguel Moiteiro Marques, já nosso conhecido, começa por responder desta forma: «Não tendo encontrado outra referência a palavra plena senão no Dicionário Aulete, suponho que a consulente se referirá à oposição entre palavras lexicais e palavras (ou morfemas) funcionais ou gramaticais (conforme terminologia adotada pelo Dicionário Terminológico.») Depois, porém, tudo se embrulha, e em especial com a referência a Evanildo Bechara.

      A terminologia varia, mas, quanto a essa precisa oposição, o consultor podia ter recorrido a dezenas de obras. Este excerto, de uma obra que nem sequer é sobre linguística ou gramática, parece-me bem esclarecedor: «O programa [informático ALCESTE, de análise quantitativa de dados textuais utilizado em representações sociais] faz uma distinção entre as palavras instrumento (artigos, preposições e conjunções, essenciais para a organização do texto), e as palavras analisáveis (substantivos, verbos, adjetivos, aqueles termos que definem os conteúdos representacionais)» («Representações sociais sobre rejuvenescimento: um enfoque psicossocial», Maria Cristina Triguero Veloz Teixeira, in Maturidade e Velhice, Pesquisas e Intervenções Psicológias, vol. I. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006, p. 122).

      De forma isolada, aquelas designações podem remeter para outros conceitos. Palavra plena, por exemplo, que já usei diversas vezes no blogue, como neste exemplo: «Por analogia com pág., forma abreviada de “página” e com págs., plural, obtemos Fig. e Figs., singular e plural, respectivamente. Em ambos os casos, a abreviatura é constituída pelas três primeiras letras da palavra plena, seguidas de ponto de abreviatura» (Dúvidas do Falar Português, vol. 4, Edite Estrela. Lisboa: Editorial Notícias, 1991, p. 144).

 

[Texto 984]

Helder Guégués às 07:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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