26
Jan 12

Rever mais vezes

Palavroso, verboso, prolixo

 

 

      Lembram-se do texto do jornalista e crítico literário Carlos Câmara Leme nos primeiros dias de Janeiro? Hoje tem outro texto no Público, e não está muito mais cuidado, em especial o primeiro parágrafo. Ei-lo: «A primeira constatação da nomeação de Vasco Graça Moura (V.G.M.), para presidente da Fundação do Centro Cultural de Belém (CCB) substituindo o presidente cessante, António Mega Ferreira (A.M.F.), deriva, naturalmente, de uma opção política: V.G.M. não só foi duas vezes secretário de Estado em governos constitucionais e deputado europeu, entre 1999 e 2009, sempre pelo PSD, e nessa qualidade foi seu porta-voz para a Cultura» («As descobertas vão voltar ao CCB?», p. 31).

 

[Texto 1021]

Helder Guégués às 14:35 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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Uso dos pronomes

Esta era a melhor batalha

 

 

      «Só que, dependente de uma ditadura externa que nos resgatou na queda, alguém acredita que o Estado não se sentirá obrigado a protegê-la, precisamente como ela o protege a si?» («O preço incerto», Pedro Lomba, Público, 26.01.2012, p. 32).

      É só pena que estes erros não apareçam na rubrica «O Público errou». Bombardear o infeliz Acordo Ortográfico dá mais público ao Público. Mais uma oportunidade para citar Montexto: «O uso dos pronomes, os vários empregos do verbo haver – pessoal, impessoal, no presente ou no pretérito, etc. – são dos maiores escândalos do linguajar actual.»

 

[Texto 1020]

Helder Guégués às 11:07 | comentar | ver comentários (142) | favorito
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Formas de tratamento

Nunca estão satisfeitos

 

 

      «Verifico com frequência, como tradutora e também como revisora, que, perante a impossibilidade de usar você ou tu, a língua não nos apresenta alternativa viável, havendo casos em que a solução de ausência de termo torna difícil entender que nos dirigimos ao leitor, que o sujeito é ele.

      Mais do que uma pergunta, sinto que é hora de lançar um desafio aos linguistas: faz falta uma solução educada e não ofensiva para nos dirigirmos ao outro.

      Sinto que, na procura por um grau de tratamento polido, nos enrolámos, criando um beco sem saída.»

      Como revisor e tradutor ocasional, nunca senti tal. Como tradutora e revisora, cara Ana Maciel, devia saber que não pode esperar dos linguistas soluções para esse putativo problema, que impropriamente designa por ausência de «grau de tratamento polido».

      Felizmente, o consultor tem os pés mais ou menos assentes na terra, pois conclui: «Dito isto, concordará certamente comigo a prezada consulente se eu lhe disser que não estamos assim tão mal no que a este aspeto particular da língua diz respeito.» Mais ou menos, sim, porque também escreveu isto: «No entanto, e centrando-nos especificamente no português, pondo de lado os tratamentos cerimoniosos (ex.: “Vossa Excelência”), os títulos profissionais (ex.: “o senhor doutor”) e os cargos (ex.: “o senhor ministro”), que podem naturalmente ser usados na segunda pessoa (ex.: “o senhor doutor pode receber-me amanhã?”), direi que, ainda assim, nos restam, dependendo do contexto conversacional, e até, por exemplo, do estado civil da pessoa, “o senhor”, “a senhora” (“a senhorita”, no Brasil), “a menina”, “o menino”, ou, porque não?, “a madame” (em contextos de propositada caricatura social, por exemplo).» «A madame» é que nos divertiu muito. Por essa via, são mais as omissões. Porque não, lembro-me agora, «sua besta», por exemplo?

 

[Texto 1019] 

Helder Guégués às 08:21 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Um dos que faltaram»

De novo e sempre

 

 

      «Merkel recebeu medalhas dos carnavais de todos os estados presentes. Um dos que faltaram foi o da cidade natal da chanceler, lamentou Merkel. Com um sorriso, Merkel recebeu várias prendas, entre elas um ganso de ouro – na verdade de plástico, mas bem dourado – e foi aconselhada a acariciá-lo. “Talvez ponha um ovo de ouro, que, certamente, a senhora Merkel saberia como bem usá-lo”, declarou o ofertante, mascarado de príncipe» («Carnaval. Angela Merkel recebe um ganso de ouro», («P2»/Público, 26.01.2012, p. 15).

      Bem podemos concluir, com Montexto (no texto 730, «Stop!»), que a língua é também lógica, mas não somente lógica, mas a língua, ou uma vozinha interior, como que pede o plural. Neste caso, o jornalista ouviu essa voz.

 

[Texto 1018] 

Helder Guégués às 07:24 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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«Lucro-recorde»!

Não há esperança

 

 

      «A Apple voltou ontem a tornar-se a empresa mais valiosa do mundo, com as acções a tocarem, em Nova Iorque, os 455 dólares. Lucros a duplicarem, vendas a dispararem levaram a companhia fundada por Steve Jobs a destronar a petrolífera Exxon Mobil como a empresa com a maior capitalização bolsista em todo o mundo», escreve o jornalista José Manuel Rocha na edição do Público de hoje. Logo, o título só podia ser este: «Lucro-recorde na Apple, a empresa mais valiosa do mundo».

 

[Texto 1017]

Helder Guégués às 06:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Em inglês é que é

Já não há paciência

 

 

      Paulo Macedo, ministro da Saúde, ontem: «Esta central permite e esta desmaterialização das facturas permitiu foi, no fundo, identificar outliers e portanto ir analisá-los.» A frase deixa muito a desejar, mas, na oralidade, é tolerável. O pior é mesmo o uso de uma palavra inglesa. Para quê? Em estatística, outlier é uma observação que apresenta um grande afastamento das demais da série e, portanto, atípica, fora da curva, incomum.

 

[Texto 1016]

Helder Guégués às 05:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Jan 12

Latim

Língua morta e remorta

 

 

      Tinha apenas, não nos iludamos, um valor simbólico, mas eis que o latim acaba de sofrer o derradeiro revés: desde 1 de Janeiro, quem descobrir uma nova espécie vegetal — e poderão estar 100 000 por descobrir — já não tem de incluir uma breve descrição, designada diagnose, em latim. Poderá fazê-lo em... inglês, a nova lingua franca. Assim foi deliberado no último congresso do Código Internacional para a Nomenclatura Botânica. Os nomes das plantas, contudo, continuarão a ser em latim — ou algo parecido, porque, como se sabe, é um nome qualquer com terminação latina.

       A maior oposição ao uso científico, nesta área, do latim provinha de investigadores de países não ocidentais, cujas línguas não têm raiz latina, mas, mais surpreeendente ainda, foi uma portuguesa, Estrela Figueiredo, quem mais se destacou nessa oposição.

     Rafael Medina, investigador em taxonomia e filogenia vegetal, explicou que há vários anos a língua usada nas diagnoses era, como facilmente se imaginará, uma versão simplificada e empobrecida do latim. «Digamos que o latim botânico está para o latim clássico como uma mensagem SMS está para Calderón de la Barca», escreve no seu blogue, Diario de un Copépodo.

 

[Texto 1015] 

Helder Guégués às 05:31 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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