29
Jan 12

Um par de anidropodotecas

Descalços

 

 

      Dantes, ouvia apenas a designação «botas de borracha». Há duas décadas, talvez, comecei a ver que toda a gente já dizia «galochas», termo que, não sei bem porquê, detesto. Jorge Amado na Tenda dos Milagres: «Triste época dos médicos-literatos, mais interessados nas regras da gramática do que nas leis da ciência, mais fortes na colocação dos pronomes do que no trato dos bisturis e dos micróbios. Em vez de lutar contra as doenças, lutavam contra os galicismos, e em vez de investigar as causas das endemias e combatê-las, criavam neologismos: anidropodotecas para substituir galochas.» Sim, sim, galocha vem do francês galoche. E a língua inglesa, omnívora, também acolheu a palavra. «A pair of galoshes», acabei de ler.

 

[Texto 1031]

 

Helder Guégués às 23:22 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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Tradução

Garanhões invisíveis

 

 

      Na tradução, por vezes, só uma nota de rodapé esclarecerá o leitor. Ou nem isso. O autor está a ensinar a pendurar quadros nas paredes. Quando se tenta pregar um prego, ouve-se um baque surdo? «If so, lucky you! That means there’s a stud beneath it. (No, not that kind. A wooden two-by-four.)» Se traduzirmos stud por «barrote» ou «viga» (e como traduziremos?), que sentido faz traduzir à letra a primeira frase parentética?

 

[Texto 1030]

Helder Guégués às 21:07 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Arrasador

 

 

      «Há outras palavras, essas bem portuguesas, que todos ganharíamos em ver afastadas de alguns títulos informativos. Uma delas, que têm [sic] vindo a propagar-se de modo epidémico, sem cuidar sequer de se apresentar como figura de estilo, antes procurando impor-se num desadequado sentido literal, é o malfadado verbo “arrasar”. “BE arrasa projectos do PS e do PSD sobre maternidade de substituição” foi o título destacado escolhido no passado dia 20 para uma notícia das actividades parlamentares da véspera. É só um exemplo, mas foi o que levou o leitor Miguel Azevedo a protestar: “Mais uma vez opinião. Por mim preferia que a jornalista me desse os factos e me deixasse a mim a tarefa de decidir quem arrasou quem”» («Nomes, identidades, escolha de palavras», José Queirós, Público, 28.01.2012, p. 55).

      Estamos, por uma vez, de acordo: títulos como o citado não têm nada de informativo. Sabermos que muitas vezes o título não é do jornalista, do autor da notícia, não nos descansa nem, em rigor, muda nada.

 

[Texto 1029]

 

Helder Guégués às 13:45 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Sobre «legume»

Toda a hortaliça de grãos em bages...

 

 

     Já várias vezes chamei a atenção para a forma como alguns tradutores vertem o termo inglês vegetable. Se consultarmos o verbete no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, a tradução é «legume», e green vegetables são hortaliças, verduras. Numa obra, referindo-se à acelga (Swiss chard), o autor diz que se trata de um vegetable. «Legume», verte o tradutor. A acelga é semelhante à alface. Logo, é uma hortaliça. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, para referir apenas um, porém, não me dá razão, porque define legume como a «planta ou parte de planta leguminosa ou herbácea, usada na alimentação humana na forma de folhas, bolbos, talos, grão, etc., especialmente em saladas, na sopa ou como acompanhamento das refeições; verdura». Em Bluteau, legume é «toda a erva cujo fruto ou semente nasce com casca e é boa de comer, como favas, lentilhas, ervilhas, feijões, grãos, etc.». Não evoluí, é o que é.

 

 

[Texto 1028]

Helder Guégués às 11:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «indivíduo»

Não é bem assim

 

 

      «Infelizmente, não contou com a sociedade portuguesa. Uma sociedade rural que passou para uma soi-disant sociedade de serviços, sem nunca verdadeiramente se industrializar. Uma sociedade dependente do Estado, desde “a sopa do convento”, agora não por acaso ressuscitada. Uma sociedade parada e conformista, que odiava (e odeia) o individualismo e a mudança (“indivíduo” continua a ser um termo pejorativo em Portugal)» («Esquerda e direita (III)», Vasco Pulido Valente, Público, 28.01.2012, p. 56).

 

[Texto 1027] 

Helder Guégués às 09:46 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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29
Jan 12

Quem/que

Mas agora já não

 

 

      «Jorge Miguel Matias, editor do Desporto, considera “impraticável identificar o Vitória Sport Clube” pelo seu nome oficial, “não só pela extensão da designação, como também pelo facto de o clube ser muitíssimo mais conhecido por Vitória de Guimarães”. Se a isto se poderia objectar que não será necessariamente assim que o clube é “conhecido” pelos seus próprios sócios, o certo é que há que pesar outras razões. Como esta: “Existe também a competir na I Liga o Vitória Futebol Clube (habitualmente designado por Vitória de Setúbal), a quem se aplica o mesmo critério. A existência de dois ‘Vitórias’ inviabiliza que se designe qualquer um deles exclusivamente pelo primeiro nome, sob pena de confusão generalizada”» («Nomes, identidades, escolha de palavras», José Queirós, Público, 28.01.2012, p. 55).

      O pronome relativo quem refere-se apenas a pessoas. Quem: qual, que pessoa, a pessoa que. No português arcaico médio, escreve Epifânio da Silva Dias na página 78 da sua Sintaxe Histórica Portuguesa, é que se referia a qualquer antecedente.

 

[Texto 1026]

Helder Guégués às 09:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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