03
Jan 12

«Abissais e abismais»

Erros bíblicos

 

 

      «“Por não haver lugar para eles na hospedaria” (Lc. 2, 6-7). Por não haver lugar para eles na hospedaria: eis uma frase simples que, por razões de que não tenho exacta consciência, desde muito cedo conservei no ouvido, no ouvido interno. [...] Tive de procurar casa. Coisa que voltei a fazer, anos volvidos, algures em 2008, quando, com mais surpresa ainda, me vi na liderança da bancada parlamentar do PSD. Ressalvadas as distâncias do episódio bíblico, que são abissais e abismais, foi então que me lembrei, vezes sem conta, da frase da infância “por não haver lugar para eles na hospedaria”» («Arrendamento e fisco: “por não haver lugar na hospedaria”», Paulo Rangel, Público, 3.01.2012, p. 28).

      «Abissais e abismais»: isto tem decerto algum significado. Que eu, de certo, não sei qual seja. E a citação está errada, Sr. Doutor: é em Lc 2, 7: «quia non erat eis locus in diversorio».

 

[Texto 902] 

Helder Guégués às 19:03 | comentar | ver comentários (6) | favorito
03
Jan 12

«Perguntar/procurar»

E ela...

 

 

      Ontem, a jornalista da RTP Carla Diogo foi à Estação de Santa Apolónia ver os efeitos da greve da CP. Disse um dos entrevistados (professor? engenheiro? funcionário público?): «Eu sabia que não havia. Que havia menos comboios. Só que eu vim um pouco mais cedo, pensei que houvesse algum que desse para ir. Portanto, fui ali procurar se havia algum que parasse em Alverca e ela informou-me que aquele que vai para Tomar às 16h48 se efectua.»

      «Fui ali procurar»... Perguntar, queria ele dizer. Ainda é comum ouvir isto. Já o será menos o inverso. Mas há 150 anos: «Perguntar, no sentido de procurar, como em latim, é ainda hoje vulgar em nossas províncias» (Génio da Língua Portuguesa, Francisco Evaristo Leoni. Lisboa: Tipografia do Panorama, 1858, p. 18). Seis décadas mais tarde, preconizava Júlio Moreira: «Nem direis nunca a senhora mãi, em logar de a senhora sua mãe, nem perguntar alguem em vez de procurar alguem, não usareis tampouco da ellipse mui frequente na provincia do Alemtejo, ir á de fulano, isto é ir a casa de fulano» (Estudos da Língua Portuguesa, vol. 2. Lisboa: Livraria Clássica Editora, p. 22).

 

[Texto 901] 

Helder Guégués às 00:01 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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02
Jan 12

Como se escreve nos jornais

Ordem de Mérito

 

 

       «A ordem distingue serviços relevantes prestados nas forças armadas, ciência, arte, literatura ou na promoção da cultura. Entre os correntes membros da ordem encontramos nomes como a ex-primeira ministra [sic] Margaret Thatcher, o apresentador televisivo David Attenborough, o primeiro-ministro canadiano Jean Cretien ou o inventor da Internet Tim Berner-Lee» («Clube exclusivo. Rainha convida John Howard», «P2»/Público, 2.01.2012, p. 15).

      «Entre os correntes membros»... Talvez fosse melhor nem traduzirem: «Below is a list of current members of the Order of Merit»... (E o apelido do primeiro-ministro canadiano é Chrétien e não Cretien, tal como o do inventor da Internet é Berners-Lee e não Berner-Lee.)

 

[Texto 900] 

Helder Guégués às 08:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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02
Jan 12

Léxico: «bariátrico»

Muito poucos

 

 

      «A velocidade com que ingerimos os alimentos tem influência no peso corporal e comer devagar tem resultados equiparáveis aos de uma cirurgia bariátrica, revela um estudo realizado por uma investigadora portuguesa [Júlia Galhardo] que ganhou um prémio internacional» («Investigadora portuguesa provou que comer devagar emagrece», Público, 2.01.2012, p. 32).

      São poucos os dicionários que registam o adjectivo bariátrico (relativo a bariatria e a bariatra), assim como o substantivo bariatria, que é o ramo da medicina que estuda as causas e as consequências da obesidade e o seu tratamento.

 

[Texto 899]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | favorito
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01
Jan 12

Infinitivo

A lição dos mestres

 

 

      Aprendamos com os mestres: «As perdizes erguiam estrepitosos voos quando os atiradores faziam equilíbrios acrobáticos para se manter no cume dos fraguedos» («Perdão” in Contos e Novelas, vol. 1, João de Araújo Correia. Lisboa: INCM, 2007).

      A falta de tempo não explica tudo:

  1. «No entanto, recusarmos em absoluto deixarmo-nos maravilhar pode ser, no fundo, apenas outro tipo de tolice» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 17);
  2. «Nesse caso, como é estranho e aterrador o facto de levarmos para o céu a nossa fruta e os nossos vegetais, quando costumávamos sentarmo-nos mais humildemente aos pés da natureza, fazendo festivais em prol das colheitas e sacrificando animais, para garantirmos a contínua fecundidade da terra» (idem, ibidem, p. 93);
  3. «Por outro lado, enquanto nos esforçamos por nos mantermos civilizados sob as implacáveis luzes fluorescentes, poderemos lembrar-nos de uma das razões que nos levaram a viajar: garantirmos que estaremos mais bem equipados para resistir aos estados de espírito mundanos e zangados em que o quotidiano tantas vezes nos enreda» (idem, ibidem, p. 131).

 

[Texto 898]

Helder Guégués às 05:48 | comentar | ver comentários (62) | favorito
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01
Jan 12

«Com certeza»

Sem certezas

 

 

      «É concerteza um exemplar de estimação, está assinado pelo próprio António Sérgio» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 49).

      É, sem sombra de dúvida, tal como de certeza, uma locução e não uma só palavra: com certeza. Só causa algum espanto que o erro passe pelo crivo de uma edição. Ora, Manuel Alegre nasceu em 1936, e a ortografia em que a obra foi escrita é de 1945, quando já se escrevia «com certeza». É assim que se lê na página 239 do Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves. Também causa espanto que o gramático Celso Cunha tenha escrito isto: «Com certeza [=provavelmente] ele virá.» Com certeza não significa, como leio num Boletim da Sociedade de Língua Portuguesa datado de 1965, «certamente, efectivamente, na verdade, coisa certa, convicta»? 

[Texto 897] 

Helder Guégués às 05:26 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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