29
Jan 12

Tradução

Garanhões invisíveis

 

 

      Na tradução, por vezes, só uma nota de rodapé esclarecerá o leitor. Ou nem isso. O autor está a ensinar a pendurar quadros nas paredes. Quando se tenta pregar um prego, ouve-se um baque surdo? «If so, lucky you! That means there’s a stud beneath it. (No, not that kind. A wooden two-by-four.)» Se traduzirmos stud por «barrote» ou «viga» (e como traduziremos?), que sentido faz traduzir à letra a primeira frase parentética?

 

[Texto 1030]

Helder Guégués às 21:07 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Arrasador

 

 

      «Há outras palavras, essas bem portuguesas, que todos ganharíamos em ver afastadas de alguns títulos informativos. Uma delas, que têm [sic] vindo a propagar-se de modo epidémico, sem cuidar sequer de se apresentar como figura de estilo, antes procurando impor-se num desadequado sentido literal, é o malfadado verbo “arrasar”. “BE arrasa projectos do PS e do PSD sobre maternidade de substituição” foi o título destacado escolhido no passado dia 20 para uma notícia das actividades parlamentares da véspera. É só um exemplo, mas foi o que levou o leitor Miguel Azevedo a protestar: “Mais uma vez opinião. Por mim preferia que a jornalista me desse os factos e me deixasse a mim a tarefa de decidir quem arrasou quem”» («Nomes, identidades, escolha de palavras», José Queirós, Público, 28.01.2012, p. 55).

      Estamos, por uma vez, de acordo: títulos como o citado não têm nada de informativo. Sabermos que muitas vezes o título não é do jornalista, do autor da notícia, não nos descansa nem, em rigor, muda nada.

 

[Texto 1029]

 

Helder Guégués às 13:45 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Sobre «legume»

Toda a hortaliça de grãos em bages...

 

 

     Já várias vezes chamei a atenção para a forma como alguns tradutores vertem o termo inglês vegetable. Se consultarmos o verbete no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, a tradução é «legume», e green vegetables são hortaliças, verduras. Numa obra, referindo-se à acelga (Swiss chard), o autor diz que se trata de um vegetable. «Legume», verte o tradutor. A acelga é semelhante à alface. Logo, é uma hortaliça. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, para referir apenas um, porém, não me dá razão, porque define legume como a «planta ou parte de planta leguminosa ou herbácea, usada na alimentação humana na forma de folhas, bolbos, talos, grão, etc., especialmente em saladas, na sopa ou como acompanhamento das refeições; verdura». Em Bluteau, legume é «toda a erva cujo fruto ou semente nasce com casca e é boa de comer, como favas, lentilhas, ervilhas, feijões, grãos, etc.». Não evoluí, é o que é.

 

 

[Texto 1028]

Helder Guégués às 11:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «indivíduo»

Não é bem assim

 

 

      «Infelizmente, não contou com a sociedade portuguesa. Uma sociedade rural que passou para uma soi-disant sociedade de serviços, sem nunca verdadeiramente se industrializar. Uma sociedade dependente do Estado, desde “a sopa do convento”, agora não por acaso ressuscitada. Uma sociedade parada e conformista, que odiava (e odeia) o individualismo e a mudança (“indivíduo” continua a ser um termo pejorativo em Portugal)» («Esquerda e direita (III)», Vasco Pulido Valente, Público, 28.01.2012, p. 56).

 

[Texto 1027] 

Helder Guégués às 09:46 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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29
Jan 12

Quem/que

Mas agora já não

 

 

      «Jorge Miguel Matias, editor do Desporto, considera “impraticável identificar o Vitória Sport Clube” pelo seu nome oficial, “não só pela extensão da designação, como também pelo facto de o clube ser muitíssimo mais conhecido por Vitória de Guimarães”. Se a isto se poderia objectar que não será necessariamente assim que o clube é “conhecido” pelos seus próprios sócios, o certo é que há que pesar outras razões. Como esta: “Existe também a competir na I Liga o Vitória Futebol Clube (habitualmente designado por Vitória de Setúbal), a quem se aplica o mesmo critério. A existência de dois ‘Vitórias’ inviabiliza que se designe qualquer um deles exclusivamente pelo primeiro nome, sob pena de confusão generalizada”» («Nomes, identidades, escolha de palavras», José Queirós, Público, 28.01.2012, p. 55).

      O pronome relativo quem refere-se apenas a pessoas. Quem: qual, que pessoa, a pessoa que. No português arcaico médio, escreve Epifânio da Silva Dias na página 78 da sua Sintaxe Histórica Portuguesa, é que se referia a qualquer antecedente.

 

[Texto 1026]

Helder Guégués às 09:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Jan 12

«Walls to the People»

Esperam o nosso contributo

 

 

      «Mas vamos aos factos. A Fundação de Serralves inaugura amanhã uma instalação de João Paulo Feliciano (n. Caldas da Rainha, 1963), Walls to the People, numa parceria com o SIM – Movimento pela Criatividade em Portugal, da Samsung. [...] Feliciano começou, de resto, por explicar que vê Walls to the People – mesmo não gostando do título em inglês – mais como “um projecto artístico do que uma exposição ou sequer uma instalação”» («Serralves não está à venda», Sérgio C. Andrade, «P2»/Público, 27.01.2012, p. 12).

      Coitado do artista, ter sido obrigado a aceitar um título inglês para a sua obra... Ah, mischief... E a acepção de «instalação» usada no texto já está dicionarizada, sim, mas talvez precise, em todos os dicionários, de ser revista. E a propósito: hoje, pela primeira vez, se não ando distraído, apareceu no fim de cada verbete dos dicionários em linha da Porto Editora uma caixinha com as palavras «Sugerir ou comentar». Abre-se um «menu pendente», como dizem os informáticos, e lemos: «Deseja sugerir uma nova entrada? Deseja sugerir um novo sentido? Deseja sugerir uma expressão ou exemplo? Outra sugestão ou comentário?» Vamos lá contribuir, se faz favor. Mesmo sem Broadmoor, gostava de ser um novo W. C. Minor.

 

[Texto 1025]

Helder Guégués às 01:13 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Jan 12

Vocativo e pontuação

Ó senhores

 

 

      «Piers Morgan entrevistava Alec Baldwin no seu show na CNN quando o actor o surpreendeu usando um sotaque britânico e trocando de papel com o entrevistador. O tema era a vida amorosa de Baldwin e este devolve a pergunta a Morgan, recorrendo a um sotaque britânico: “Devo perguntar-lhe Piers se já alguma vez esteve de facto apaixonado. Foi o seu staff que me pediu para lhe dirigir esta pergunta.” Piers Morgan reagiu com uma gargalhada e elogiando a imitação do sotaque» («Baldwin, Piers e o verdadeiro amor», «P2»/Público, 27.01.2012, p. 17).

      Mesmo os revisores — quantas vezes o vimos no Assim Mesmo? — parece que têm uma certa dificuldade em reconhecer o vocativo nas frases. Há aqui um certo atavismo, não obedecem nem reconhecem quando lhes fazem reparos, por isso não vêem que está ali um vocativo. Vocare, chamar.

 

[Texto 1024]

Helder Guégués às 00:41 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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27
Jan 12
27
Jan 12

«E-books» da BNP

Isto interessa-nos

 

 

      «A Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) começou esta semana a disponibilizar as suas edições também em formato electrónico (e-book), através de uma plataforma associada à livraria online, disponível desde Agosto de 2010. Através da plataforma é possível comprar e alugar edições neste formato, que pode ser adquirido a metade do preço dos livros comuns e lido em smartphones ou em iPad. Para a BNP, “a adopção desta nova tecnologia corresponde a uma estratégia de modernização da sua função enquanto editor”» («Biblioteca Nacional em versão e-book», Público, 27.01.2012, p. 14).

 

[Texto 1023]

Helder Guégués às 07:05 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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